Viúva de Adriano da Nóbrega se casa com empresário que devia dinheiro ao miliciano, morto na Bahia

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Oito meses após a morte do ex-capitão do Bope, Adriano Magalhães de Nóbrega, Júlia Emília Mello Lotufo, viúva do miliciano, casou-se novamente. Depois de viver perigosamente com o paramilitar, inclusive tendo-o acompanhado durante sua fuga na Bahia, Júlia escolheu como novo companheiro o empresário Eduardo Vinícius Giraldes Silva. Por trás do casamento, em regime de comunhão total de bens, investigadores da Polícia Federal acreditam que exista algum tipo de negócio ilícito entre o empresário e o ex-dono da milícia de Rio das Pedras e da Muzema, na Zona Oeste do Rio. Como viúva, Júlia teria ficado com a herança proveniente do crime.

De acordo com relatório de Inteligência sigiloso da Polícia Federal, ao qual o EXTRA teve acesso, Giraldes devia dinheiro a Adriano, que mantinha em seu ramo de negócios ilegais um esquema de agiotagem. O documento da Polícia Federal informa que o empresário contraiu o empréstimo com o miliciano em agosto de 2018. Giraldes e Adriano teriam se aproximado, segundo os analistas federais, por intermédio de um coronel da Polícia Militar da ativa, que também era cliente do ex-capitão da mesma corporação.

Com a morte do marido, coube à viúva cuidar do espólio de atividades ilícitas do ex-capitão. A informação consta no processo da 1ª Vara Criminal Especializada da Capital, no qual Júlia responde por organização criminosa e lavagem de dinheiro. Na denúncia do Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público do Rio (MPRJ), consta uma planilha contábil, extraída a partir da quebra de dados telemáticos de Júlia, que revela “vultuosos valores sobre despesas e créditos a receber” (sic), totalizando uma movimentação de R$ 1.845.111, 43, só no mês de maio de 2019.

O empresário Eduardo Giraldes

O Gaeco sustenta na denúncia que a contabilidade seria uma evidência de que a viúva se responsabilizou pela gestão financeira, ainda mais porque o registro na folha de cálculo foi feito três meses após a morte de Adriano. A planilha apareceu numa conversa por aplicativo de mensagem entre ela e o ex-marido, o policial militar Rodrigo Bittencourt, que segundo os promotores, também faz parte da organização criminosa. Além da foto da tabela, ela ainda comenta com o ex-marido: “To batendo aqui já olho direito” (sic). Para os investigadores, “batendo” se refere ao fato de ela estar conferindo as contas. Antes de ser companheira de Adriano, Júlia teve um relacionamento com Rodrigo, com quem teve uma filha. Ele teve a prisão preventiva decretada e se encontra preso.

União às pressas e em comunhão de bens

Giraldes seria o terceiro relacionamento mais sério de Júlia. O casal procurou o cartório para oficializar a união estável em 5 de outubro do ano passado, de acordo com a escritura declaratória feita no cartório do 4º Ofício de Notas, no Recreio dos Bandeirantes, na Zona Oeste do Rio. Foi adotado, expressamente, o regime da comunhão total de bens, ou seja, tudo que foi adquirido pelos dois antes e o que for conquistado durante a união lhes pertence. Se não tivessem optado por esta forma, a lei prevê o regime da comunhão parcial de bens, na qual apenas os bens obtidos durante a constância do casamento seriam partilháveis. No documento, o casal declara estar livre e de espontânea vontade, sem estar sob coação e estado de perigo. Júlia e Giraldes também afirmam se encontrar “em pleno gozo e integridade de suas faculdades mentais”.

Júlia é considerada pelo Gaeco peça-chave para se entender os negócios ilícitos de Adriano com a contravenção e a política. O miliciano ainda era chefe da milícia de Rio das Pedras e da Muzema e comandava um grupo de matadores de aluguel. Como nada foi encontrado nos 13 celulares e sete chips apreendidos com Adriano, quando foi morto em fevereiro do ano passado pela polícia baiana, no município de Esplanada, na Bahia, a viúva ganhou ainda mais importância no caso. Júlia foi denunciada junto com oito integrantes do bando, alvos da Operação Gárgula, desencadeada em 29 de março deste ano, por crimes de associação criminosa, agiotagem e lavagem de dinheiro proveniente do espólio do miliciano.

O juiz da 1ª Vara Criminal Especial, Bruno Rulière, decretou a prisão preventiva de Júlia, mas a defesa da acusada recorreu. Em abril, o ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Reynaldo Soares da Fonseca converteu a prisão em domiciliar, determinando ainda o uso de tornozeleira eletrônica. Pelo entendimento de Fonseca, a denúncia contra a viúva não envolve violência ou grave ameaça e, além disso, ela, por ser mãe, é responsável pelos cuidados da filha de 9 anos. Até a revogação da prisão preventiva, Júlia se manteve foragida da Justiça.

Novo marido foi condenado por associação criminosa

O casamento com Giraldes veio à tona no pedido da defesa de Júlia para que a prisão dela fosse revogada. Os advogados incluíram a declaração da união estável do casal aos autos. Além de apontar os negócios com Adriano, o Relatório de Inteligência da PF informa que Giraldes foi condenado a oito anos e três meses de prisão por associação criminosa, falsificação e uso de documento particular, furto mediante fraude e furto qualificado, em primeira instância. O empresário foi alvo na Operação Nômade II, deflagrada em 17 de janeiro de 2014, por integrar uma quadrilha que falsificava cartões de crédito. Seus apelidos, segundo os analistas federais, são “Pisca” e “Bebezão”. A defesa recorreu da decisão no STJ.

Apesar da condenação, Giraldes virou empresário, dizendo ser o dono do Azeite Royal. Desde 2018, ele investiu fortemente na publicidade do produto importado, patrocinando times de futebol cariocas e até um lutador de MMA. Em 14 de janeiro do ano passado, O GLOBO publicou reportagem citando sobre a estranha jogada de marketing sobre o azeite que era encontrado em apenas um supermercado.

Também em 2020, Giraldes esteve presente no mundo do samba, usando o Azeite Royal como patrocinador e colocando a propaganda do produto em alguns setores, a exemplo do que fez no Maracanã em jogos clássicos. Numa entrevista que deu à “TV Mais Carnaval”, no dia do desfile das campeãs do ano passado, o presidente da Mocidade Independente de Padre Miguel, Flávio Santos, anunciou que o enredo para 2021, seria sobre azeite. Por conta da pandemia, a ideia foi adiada. O documento da PF traz que o empresário tinha vínculos com o carnaval e ,de certa forma, com o contraventor Rogério Andrade, patrono da Mocidade.

Na verdade, segundo processo em andamento no Tribunal Regional Federal da 2ª Região, a empresa Lecargo Comércio Importação e Exportação Eireli, também pertencente ao empresário, sofreu uma execução fiscal. Durante as investigações, descobriu-se que Giraldes estaria por trás de um grupo econômico formado por outras duas empresas, a ME RJ Importação e Distribuição Eireli e a Royal Green Comércio Importação e Exportação. Esta última, responsável pela importação do azeite. Enquanto as outras empresas se mantinham lucrativas, os débitos tributários se concentravam na Lecargo, apesar de a gestão ser única.

Por causa disso, o Ministério Público Federal denunciou Giraldes e outros integrantes do bando por lavagem de dinheiro e sonegação fiscal. Segundo a denúncia, o esquema adotado pelo empresário era o de se utilizar de interpostos, familiar e empregado, para ocultar dos registros públicos o fato de ser o gestor. Ele não aparece no quadro social das empresas, mas se mantém à frente com plenos poderes para movimentação das contas bancárias delas. A ME RJ Importação, por exemplo, criada em 2016, tinha a ex-mulher de Giraldes, Nataly Diz Ros, na titularidade. Três anos depois, um empregado do casal assume a empresa no quadro societário e Giraldes entra como administrador. O juiz federal da 9ª Vara Federal de Execução Fiscal, Vladimir Santos Vitovsky, em 30 de junho do ano passado, entendeu que houve uma tentativa de blindagem da Lecargo e determinou que as demais empresas entrassem no polo passivo da execução. Ele decidiu ainda pelo bloqueio das contas das três empresas.

Influência na Alerj

Como a mãe e a ex-mulher de Adriano, Raimunda Veras Magalhães e Danielle Mendonça da Costa, que ocuparam cargos na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), Júlia também tinha uma lotação lá. As duas primeiras constavam no gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro. Raimunda aparece no quadro de funcionários do parlamentar desde junho de 2016, já Danielle teria começado em novembro de 2010. Ambas foram exoneradas a pedido no dia 13 de novembro de 2018, após a suspeita da prática da rachadinha, quando o político exige parte do salário do funcionário para ele.

Júlia pode ter se esbarrado nos corredores da Alerj com a ex-mulher de Adriano e a mãe dele. Depois de trabalhar num cargo em comissão de assistente na Casa Civil, em agosto de 2012, ela foi lotada, quatro anos depois, na Subdiretoria-Geral de Recursos Humanos da Casa. Em 31 de outubro de 2019, ela foi citada para tomar ciência de um Processo Administrativo Disciplinar (PAD), já como ex-servidora, por ter sido exonerada em julho de 2017.

Respostas das defesas

O escritório Silveira Cruz, que defende Giraldes no processo do Tribunal Regional Federal da 2ª Região, respondeu por e-mail que: “Relativamente à execução fiscal em curso, encontra-se suspensa em virtude do parcelamento da dívida. Estes dados estão disponíveis nos próprios autos processuais. Quanto à titularidade das empresas, as transferências se deram em virtude do rompimento de união estável (com Nataly Diz Ros), constando a documentação correspondente igualmente dos autos processuais. Finalmente, relativamente ao contato pessoal, tentaremos localizar o cliente”. O advogado Délio Lins e Silva, que conseguiu converter a prisão de Júlia Lotufo em domiciliar, com uso de tornozeleira eletrônica, disse que ela não é mais sua cliente. A viúva de Adriano contratou o advogado Demóstenes Torres para defendê-la. Procurado pelo Extra, Demóstenes ainda não retornou as ligações.



Fonte: Fonte: Jornal Extra