A TV Globo organizou na noite de sexta-feira o último debate entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Apesar do tom pouco ameno entre os dois, a agressividade foi bem menor do que no debate da TV Bandeirantes, realizado no último domingo.
Os candidatos foram proibidos de passarem um atrás do outro, para evitar as confusões que ocorreram no debate anterior, quando Flávio foi acusado de zombar de Lula nas câmeras enquanto ele falava.
Por outro lado, não faltaram ataques pessoais mais uma vez: Vorcaro, Lulinha, relacionamento com a milícia e até o fato de Lula ter nove dedos foram alguns dos temas explorados.
O BRAZIL ECONOMY selecionou os dez principais temas abordados pelos dois candidatos. Confira.
Agronegócio
Flávio aproveitou seu apoio por parte do agronegócio para acusar Lula de “sufocar” o setor e impedir que os produtores consigam exportar todo seu potencial.
“Todos os agricultores reclamam porque, na hora de tomar um financiamento para comprar sementes, para plantar, para comprar maquinário, para poder investir no seu negócio ou para comprar animais, fica simplesmente impossível. É tanta burocracia, e o dinheiro que você coloca não é suficiente. Tanto é que eles não conseguem tomar o financiamento. O juro real chega próximo de 20%”, disse o candidato do PL.
Em resposta, Lula disse que o Brasil ampliou as exportações e abriu 700 novos mercados, levando a um superávit comercial de quase R$ 85 bilhões.
O tarifaço de Trump ao Brasil foi trazido durante essa discussão: o presidente acusou Flávio de ser subserviente aos interesses norte-americanos. “Nunca se exportou tanto nesse país. É por isso que, quando o meu adversário ficou lambendo o Trump para taxar o Brasil, eu não fiquei preocupado. Se o Trump não quiser comprar do Brasil, eu vou vender para outros lugares”, disse.
Políticas Sociais
O “tesouraço” dos programas sociais que Lula acusa Flávio de querer fazer na economia foi mais uma vez abordado. Pé-de-Meia, Bolsa Família e reajuste do salário mínimo acima da inflação foram alguns dos pontos que o presidente acusou Flávio de querer mexer.
Visando alcançar os eleitores mais pobres, Lula perguntou por qual motivo Flávio Bolsonaro havia se referido ao Bolsa Família como “bolsa farelo” em declarações, o que ficou sem resposta. “Ele não sabe o que é passar fome”, disse o presidente.
Porém, um dos temas que não havia sido abordado com ênfase no debate anterior e que Lula trouxe na TV Globo foi a licença-maternidade. Ele questionou por qual motivo o candidato bolsonarista, quando deputado estadual no Rio de Janeiro, votou contra o aumento da licença-maternidade de 180 dias, hoje um dos principais direitos femininos no mercado de trabalho.
Flávio afirmou que na época fez isso “acreditando que isso poderia dificultar que as mulheres conseguissem arrumar emprego. E eu estava errado. Hoje, depois que eu casei, depois que tenho duas filhas, mais do que nunca eu sei da importância da mãe estar perto do filho por até mais de 180 dias, se possível”, disse.
Em resposta, Lula disse que Flávio estava mentindo já que “quando pôde votar, não votou”.
Embates sobre segurança pública
Como era de se esperar, a pauta de segurança foi uma das mais polêmicas. Uma das estratégias utilizada por Lula foi associar Flávio Bolsonaro aos grupos de milícia do Rio de Janeiro, relacionando o adversário com a proteção do policial que matou a menina Ana Clara, morta por um tiro de fuzil, e também com a morte da vereadora Marielle Franco, ambos os crimes ocorridos na capital fluminense.
Flávio, em contrapartida, voltou a associar Lula com o crime organizado afirmando que o presidente teria fortalecido o papel de grupos como o Comando Vermelho, inclusive no nordeste. Lula voltou a citar que pretende criar um Ministério específico para trazer à esfera federal a pauta da segurança pública, hoje mais nas mãos dos governos estaduais.
Investimento em educação
Lula usou como uma de seus bandeiras os investimentos feitos em educação em seus três mandatos, ressaltando as gestões na pasta de Fernando Haddad e Camilo Santana. Prometeu, se reeleito, 100% de escolas integrais em todo o país, além da universalização do Programa Pé-de-Meia.
“Todo mundo sabe que nós encontramos 5.600 creches paralisadas, escolas em tempo integral e Institutos Federais paralisados. O ministro Camilo sabe o que ele teve que fazer pra reconstruir tudo isso por uma irresponsabilidade de um governo que não acreditava em educação e que não acredita, porque não investiram”, afirmou o presidente
Já Flávio falou de suas propostas sobre vale-creche, ampliação do programa Pé-de-Meia, cursos de tecnologia e defendeu maiores parcerias entre a rede pública e a privada, além de ter acusado Lula de ter zerado o orçamento no ensino integral.
Discussões sobre Bets
Lula também fez questão de relembrar que o endividamento das famílias fez com que o governo proibisse as Bets, o que gerou acusações do adversário de que o presidente fez isso agora apenas para vencer as eleições, lembrando que o próprio governo Lula foi o responsável por regulamentar as apostas online.
“O atual presidente da República tem dois filhos que fizeram muito mal ao país: o Lulinha e o Tigrinho. Ele é o pai do Tigrinho, ele é o pai do Cassino online. Ele criou, e chegando perto da eleição, ele vai e cancela achando que vai enganar você, e ainda prejudicou o time de futebol, acabou com a segurança jurídica nesse país”, disse Flávio.
Políticas para o SUS
Assim como no primeiro debate, o Lula insinuou que seu adversário teria o intuito de privatizar o Sistema Único de Saúde (SUS) baseado em falas recentes de aliados de Flávio, como Claudio Lottenberg, cotado pelo senador como eventual ministro da Saúde que já se posicionou contra a aplicação de mais recursos no SUS. O senador negou que teria esse objetivo, garantindo que melhorará o padrão de atendimento, redução de filas para operações.
O tema da saúde pública também voltou à tona com Lula relembrando a gestão de Jair Bolsonaro na pandemia de Covid-19, alegando que Flávio “não conhece o Brasil”: “Não conhece. Acho que ele só ouviu falar de Manaus e da região Norte quando o pai dele apareceu na televisão rindo e imitando uma pessoa morrendo asfixiada porque não tinha oxigênio”.
Em resposta, Flávio disse que foi o SUS quem salvou a vida de seu pai após a facada sofrida em Juiz de Fora (MG), em setembro de 2018, dizendo que respeita a saúde pública por esse motivo.
Ataques pessoais
Um dos grandes destaques do debate, que deve render os principais recortes em redes sociais para o sábado antes da eleição, foi o comentário irônico de Flávio sobre o fato do presidente ter nove dedos: “Agora, não adianta nada, Lula, o salário mínimo estar em R$ 1.621 se você dá com uma mão e tira com os nove dedos”, disse.
O presidente aproveitou a provocação para lembrar que o acidente que ocasionou a amputação de seu dedo se deu em um ambiente de trabalho, acusando Flávio de nunca ter tido um trabalho registrado na vida e que seu primeiro emprego se deu às custas do ex-presidente Jair Bolsonaro. “Se tem alguém que perdeu o dedo com 17 anos, fui eu, trabalhando à noite. Não vou permitir que um miliciano me chame de nove dedos”, afirmou o presidente. Flávio se desculpou.
O relacionamento com a milícia foi, inclusive, um dos principais focos de ataque de Lula contra Flávio, com o presidente terminando sua participação afirmando que o Brasil “não deve permitir que um miliciano assuma a presidência da República”.
Dívida pública
Flávio Bolsonaro focou na dívida pública como um dos principais ataques ao governo petista, dizendo que seu patamar atual é o que explica o alto valor da taxa de juros que, indiretamente, endivida e prejudica a população brasileira.
Por mais de uma vez, o candidato da oposição perguntou por que os brasileiros estão sem poder de compra, enquanto Lula, por sua vez, questionou sobre a defesa de Flávio em torno da independência do Banco Central. Flávio, em resposta, disse que isso deve acontecer para “evitar que presidentes sejam gastadores como você”.
Redução do endividamento
Bolsonaro fez questão de em diversos momentos do debate relacionar Lula com o endividamento do brasileiro. “Eu vou comprar a sua dívida dos bancos e vou refinanciar pelo Banco da Prosperidade, que é a Caixa Econômica Federal. Quando eu compro essa dívida, ela já fica menor.”
Ele também fez a promessa de interromper temporariamente os pagamentos das dívidas refinanciadas, por seis meses para pessoas físicas e por um ano para pessoas jurídicas.
Lula respondeu que Flávio estava copiando uma proposta de seu governo e que sua ideia é comprar dívidas de consumidores por meio de leilões com bancos, com descontos de até 95%. Ele citou o perdão de quase R$ 15 bilhões em dívidas de 4,5 milhões de devedores. “Ele fala que vai comprar a dívida dos devedores. Ele está copiando uma coisa que eu já mandei para o Senado”, disse o presidente.
Relação com Vorcaro
Ao contrário do debate na TV Bandeirantes, no último domingo, quando o nome de Daniel Vorcaro, dono do Master, foi tema durante quase toda a discussão, dessa vez o tema ficou para o final. Lula voltou a questionar Flávio sobre os pagamentos de R$ 134 milhões que o banqueiro teria dado ao senador para financiar um filme sobre a vida de seu pai, enquanto Flávio, por sua vez, disse que Lula teria recebido um whisky de R$ 500 mil de Vorcaro.
O presidente subiu o tom: disse que Flávio teria participado de “surubas” e “bacanais” não só com o banqueiro, mas com outros empresários e alegou que o bolsonarismo foi o responsável por criar Vorcaro que, em suas palavras, “corrompeu a república” e que seu governo foi o responsável por prendê-lo.
O 2º turno da eleição presidencial está marcado para o próximo domingo, 25 de outubro, e você acompanha debates e reportagens sobre a apuração no BRAZIL ECONOMY.






