
A proximidade do primeiro turno das eleições presidenciais aumenta a possibilidade de movimentos mais intensos nos mercados brasileiros. Para o Goldman Sachs, juros, dólar e Bolsa podem reagir de maneira significativa ao resultado das urnas, embora a trajetória posterior dos ativos dependa principalmente das expectativas em relação à política fiscal do próximo governo.
Em relatório divulgado antes da votação de domingo (4), o banco aponta a curva de juros como o segmento que apresenta a assimetria mais relevante. A avaliação é de que as taxas negociadas no mercado futuro incorporam um prêmio elevado em comparação com o que seria explicado por fatores como inflação, crescimento econômico, situação fiscal e ambiente externo. “Vemos os juros locais oferecendo a melhor assimetria entre os ativos brasileiros antes da eleição”, afirmou o relatório.
Segundo os cálculos da instituição, existe um prêmio residual médio de aproximadamente 80 pontos-base nos vencimentos entre dois e dez anos da curva de DI. Um resultado eleitoral que leve os investidores a esperar maior disciplina nas contas públicas poderia reduzir parte desse componente e provocar fechamento das taxas.
O movimento contrário também é considerado. Caso o resultado das urnas seja associado pelo mercado a uma perspectiva de deterioração fiscal, os juros poderiam subir e outros ativos brasileiros sofrer pressão. Na avaliação do Goldman, porém, o potencial de queda das taxas em um cenário de melhora das expectativas fiscais é superior à abertura estimada em uma situação adversa.
Por isso, o banco demonstra preferência por posições aplicadas na parte intermediária da curva de DI, estratégia que se beneficia da redução das taxas futuras.
A situação das contas públicas está no centro dessa análise. De acordo com o Goldman, o déficit fiscal total do Brasil está próximo de 10% do Produto Interno Bruto (PIB), enquanto o déficit primário gira em torno de 0,6%. Mais da metade da dívida pública doméstica está diretamente vinculada à Selic e seu prazo médio é relativamente curto, característica que acelera a transmissão das mudanças da taxa básica para as despesas financeiras do governo.
Nesse cenário, uma melhora da percepção fiscal poderia produzir um efeito em cadeia. Taxas menores reduziriam o custo da dívida, contribuindo para as contas públicas e, consequentemente, abrindo espaço para uma redução adicional dos prêmios cobrados pelos investidores. O Goldman estima que, dependendo do patamar de convergência dos juros no médio prazo, a economia acumulada com despesas financeiras poderia ficar entre 2 e 3,7 pontos percentuais do PIB.
No mercado de câmbio, o banco avalia que o real encontra sustentação no elevado diferencial de juros e na melhora dos termos de troca. Segundo o relatório, os juros reais brasileiros às vésperas desta eleição são superiores aos registrados antes de qualquer disputa presidencial desde 2010.
Em um cenário no qual o mercado perceba melhora das perspectivas fiscais, a instituição considera que a eliminação do prêmio de risco acumulado desde 2024 seria compatível com dólar próximo de R$ 4,80. Com avanços fiscais mais expressivos e condições externas favoráveis, a moeda americana poderia ficar na faixa entre R$ 4,50 e R$ 4,80.
A direção seria diferente diante de uma piora das expectativas para as contas públicas. Pelos cálculos do Goldman, um retorno do prêmio de risco aos níveis observados em setembro de 2024 seria compatível com dólar ao redor de R$ 5,40. Caso o indicador voltasse ao patamar de dezembro daquele ano, a referência subiria para aproximadamente R$ 5,80.
O banco ressalta, entretanto, que oscilações cambiais imediatamente depois das eleições não necessariamente se mantêm. Em 2022, por exemplo, o real se valorizou 4,5% no primeiro pregão depois do primeiro turno. Em 2018, a apreciação acumulada antes da segunda votação chegou a aproximadamente 10%.
Passada a reação inicial, fatores como a composição da equipe econômica e as políticas efetivamente implementadas tendem a ganhar peso na formação dos preços.
Ações domésticas
Na Bolsa, a análise do Goldman chama atenção principalmente para empresas brasileiras mais dependentes do comportamento dos juros, em vez das grandes exportadoras de commodities.
Na data do relatório, o Ibovespa acumulava valorização de aproximadamente 10% desde as mínimas registradas em meados de agosto e avançava 13% no ano. Apesar disso, as ações domésticas, excluídas as exportadoras de commodities, permaneciam praticamente estáveis em 2026.
A cesta elaborada pelo Goldman com empresas particularmente sensíveis às taxas acumulava queda de 5%, desempenho semelhante ao das small caps. Segundo o banco, esses papéis apresentam sensibilidade às oscilações dos juros entre duas e três vezes superior à do Ibovespa.
As companhias desse grupo eram negociadas a aproximadamente 10,3 vezes os lucros projetados, cerca de 0,9 desvio-padrão abaixo da média dos últimos dez anos. Na avaliação da instituição, uma redução mais intensa das taxas poderia favorecer uma reprecificação desses ativos.
Capital estrangeiro
Outro fator acompanhado pelo Goldman é o posicionamento dos investidores internacionais. Embora o fluxo estrangeiro tenha aumentado recentemente, a entrada acumulada de recursos permanece reduzida em comparação com outros períodos eleitorais.
A instituição considera que uma diminuição da incerteza política, combinada a uma percepção mais favorável sobre a condução fiscal, poderia estimular uma ampliação dessa exposição ao Brasil. Parte dos investidores macro já teria começado a montar posições por meio de opções, enquanto um movimento mais disseminado de entrada de capital estrangeiro ainda não ocorreu.
No mercado de crédito soberano, entretanto, o banco identifica menor espaço para valorização. Os spreads dos títulos brasileiros denominados em dólares encontram-se em níveis historicamente baixos, limitando o potencial de compressão adicional.
A leitura do Goldman é que a eleição pode funcionar como um catalisador imediato para juros, câmbio e ações, mas não deve definir isoladamente a trajetória dos mercados nos meses seguintes. Depois da votação, a atenção dos investidores tende a migrar para a política econômica e, sobretudo, para as medidas fiscais que serão efetivamente adotadas pelo próximo governo.






