
Um dos mais importantes municípios da Grande São Paulo, Santo André tem um ativo que muitas cidades gostariam de ter: seus moradores acreditam no futuro. Uma pesquisa realizada pelo Observatório Colectta em setembro mostra que 65,5% dos entrevistados esperam que o município continue se desenvolvendo nos próximos anos.
A confiança vai além de uma percepção genérica de crescimento. Para 59% dos moradores, Santo André oferecerá melhores condições de vida. Outros 58,2% esperam mais oportunidades de estudo, 56,9% acreditam que os jovens encontrarão razões para permanecer na cidade e 56,5% enxergam mais oportunidades de trabalho. A expectativa de atração de novas empresas e investimentos chega a 53,9%.
O levantamento ouviu 605 pessoas e dividiu a avaliação da cidade em cinco blocos. Na escala criada pela Colectta, a perspectiva de futuro foi o único indicador que ficou estatisticamente acima do ponto de referência, com nota 53 em uma escala de zero a 100. Conduta e integridade da gestão ficaram em 46,3, enquanto escuta e resposta à população marcaram 47,6. Serviços públicos e espaços coletivos ficaram próximos da linha de equilíbrio.
Parte desse otimismo encontra respaldo na própria trajetória econômica de Santo André.
Dados compilados pela Prefeitura no Sumário de Dados de Santo André 2022, com informações que chegam principalmente até 2021, mostram uma cidade com uma base econômica relevante e capacidade de adaptação. O PIB municipal, em valores de 2019, saiu de R$ 26,7 bilhões em 2002, chegou a R$ 38,5 bilhões em 2013 e estava em R$ 30,3 bilhões em 2019.
A trajetória não foi linear. Santo André, assim como outras cidades do ABC paulista, passou pela perda de peso relativo da indústria e por uma mudança de perfil econômico. O próprio documento da Prefeitura descreve o avanço das atividades de serviços e comércio como uma das alternativas encontradas pela cidade diante da redução da presença industrial.
Há ainda um componente demográfico. A população estimada passou de 678,5 mil habitantes em 2011 para 723,9 mil em 2021. Embora os números sejam anteriores à pesquisa de percepção, eles ajudam a mostrar uma cidade que continuou ampliando sua população ao longo da década passada.
O desafio aparece quando a pergunta deixa de ser sobre o futuro e passa a tratar da capacidade da administração pública de transformar esse potencial em resultados.
Enquanto 65,5% esperam que Santo André continue se desenvolvendo, apenas 40,8% concordam que a gestão resolve os principais problemas do local onde vivem. A percepção sobre o uso dos recursos públicos é ainda mais crítica: 35,9% consideram que a administração usa bem o dinheiro público e 33,9% avaliam que os interesses da população são colocados acima dos interesses políticos.
A diferença também aparece na distribuição dos serviços pela cidade. Só 38,3% concordam que a administração age da mesma forma em todas as regiões. Quando a pergunta é sobre serviços públicos, 55,9% dizem que eles funcionam regularmente e 54,7% percebem melhora ao longo do tempo. Mas apenas 43,1% consideram que há boa qualidade em todo o município e 44,3% dizem que os serviços resolvem os problemas para os quais são procurados.
Os dados de renda por bairro disponíveis no levantamento municipal ajudam a dimensionar esse desafio territorial. Em 2020, dos 3.363 domicílios estimados no bairro Jardim, 1.222 estavam na faixa acima de 20 salários mínimos de renda por família. No Jardim Santo André CDHU, com 7.308 domicílios, apenas nove apareciam nessa faixa. Ali, 398 domicílios tinham renda de até meio salário mínimo e outros 1.891 estavam entre um e dois salários mínimos.
A comparação não permite concluir que as áreas mais pobres recebam necessariamente serviços piores. Mas mostra o tamanho da heterogeneidade que a administração precisa enfrentar para entregar uma cidade com padrões semelhantes de qualidade de vida.
Há ainda uma diferença entre a percepção dos moradores e alguns indicadores administrativos mais antigos. No Índice Firjan de Gestão Fiscal, Santo André chegou a 0,7514 em 2020, faixa classificada pela metodologia como de “boa gestão”. Isso não invalida a avaliação da população. Mostra, na prática, que equilíbrio fiscal e percepção sobre a qualidade da gestão medem coisas diferentes.
Santo André não parece enfrentar uma crise de confiança em seu futuro. Muito pelo contrário. A maioria acredita que a cidade pode crescer, criar empregos, oferecer oportunidades aos jovens e atrair investimentos.






