Fusão entre Massari e Morro Verde mira R$ 1 bi e expõe risco estrutural dos fertilizantes



A fusão entre Massari e Morro Verde ocorre em um momento em que um dos principais gargalos estruturais do agronegócio brasileiro ganha centralidade na agenda econômica. A elevada dependência externa de fertilizantes deixou de ser apenas um desafio operacional e passou a atuar como um vetor macroeconômico relevante, com impactos diretos sobre inflação, câmbio, balança comercial e política monetária.

Hoje, entre 80% e 90% dos fertilizantes consumidos no Brasil são importados, segundo dados da Associação Nacional para Difusão de Adubos. Em 2025, o País importou cerca de 45 milhões de toneladas, mantendo a trajetória de crescimento da demanda impulsionada pela expansão do agronegócio. Ao mesmo tempo, o Brasil figura entre os maiores consumidores globais, mas produz menos de um quinto do que utiliza.

Esse desequilíbrio gera uma pressão direta sobre as contas externas. O País desembolsa algo próximo de US$ 25 bilhões por ano com importações de fertilizantes, criando um canal estrutural de saída de divisas e ampliando a exposição ao dólar. Em momentos de desvalorização cambial, o impacto se transmite rapidamente para os custos de produção agrícola.

Na prática, esse movimento se converte em inflação. Fertilizantes representam cerca de um quarto dos custos de produção de culturas como soja e milho e, em cenários de choque, esse peso pode ser ainda maior. O repasse ocorre ao longo da cadeia e afeta diretamente o preço dos alimentos, um dos componentes mais sensíveis do índice de inflação no Brasil.

Relatórios recentes de bancos globais reforçam essa leitura. Analistas do Goldman Sachs avaliam que os preços internacionais de fertilizantes devem permanecer estruturalmente elevados na próxima década, sustentados por restrições de oferta, custos energéticos e crescente demanda por alimentos. Em linha semelhante, o JPMorgan destaca que choques nesse mercado tendem a gerar impactos persistentes sobre a inflação em economias emergentes altamente dependentes de importações, como o Brasil.

Essa dinâmica cria um desafio adicional para a política monetária. Ao pressionar os preços de alimentos, o custo dos fertilizantes atua como um fator de inércia inflacionária, dificultando o trabalho do Banco Central na condução da taxa básica de juros. Em cenários de alta prolongada desses insumos, o efeito pode ser a necessidade de manutenção de juros elevados por mais tempo, mesmo diante de desaceleração de outros componentes da economia.

É nesse contexto que a fusão entre Massari e Morro Verde busca se posicionar. Com faturamento estimado em cerca de R$ 500 milhões em 2025, o novo grupo projeta atingir R$ 1 bilhão até 2029, apoiado na integração de reservas minerais, expansão regional e ganho de eficiência operacional.

“A nossa bandeira é substituir a importação de fertilizantes que o Brasil faz hoje”, afirmou o CEO Sergio Saurin.

A estratégia está baseada na utilização de matérias-primas nacionais, especialmente calcário e fósforo, para reduzir a dependência externa e capturar valor em um mercado estimado em cerca de US$ 10 bilhões no País.

A operação une ativos considerados complementares. A Massari traz uma base tecnológica consolidada na formulação de fertilizantes minerais mistos, enquanto a Morro Verde agrega reservas relevantes de fósforo, um dos insumos mais críticos da cadeia. Antes da fusão, a Morro Verde enfrentava limitações operacionais e financeiras que restringiam sua capacidade de crescimento.

Nos primeiros meses após a integração, o foco esteve na reestruturação industrial e no aumento de capacidade produtiva. A expectativa é elevar significativamente a produção, com potencial de mais do que dobrar o volume no curto prazo.

Além disso, o plano de expansão inclui joint ventures em regiões estratégicas como Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Matopiba, combinando acesso a reservas minerais com conhecimento local de mercado.

A lógica econômica é clara. Produzir fertilizantes mais próximos das áreas agrícolas reduz custos logísticos, diminui a exposição cambial e aumenta a previsibilidade para o produtor rural. Em um cenário de custos crescentes, essa eficiência pode se traduzir diretamente em competitividade.

Outro vetor relevante é a agenda ESG. A produção local reduz a pegada de carbono associada ao transporte de longa distância e reforça a inserção do Brasil em cadeias produtivas mais sustentáveis. “Nossa bandeira é de ESG, de sustentabilidade, de redução de emissão de carbono e de aprisionamento de carbono. É mais do que um negócio”, afirmou Saurin.

Apesar da ambição, o próprio grupo reconhece que a substituição total das importações não é viável no curto prazo. A escala da demanda brasileira e a complexidade da cadeia global de fertilizantes impõem limites estruturais.

“É impossível substituir 100%, mas se você não começar, nunca vai reduzir essa dependência”, afirmou o executivo.

O avanço também depende de capital. A mineração é intensiva em investimento e o custo de financiamento no Brasil segue elevado, o que limita o uso de alavancagem. Nesse contexto, a empresa já se prepara para acessar novas fontes de recursos, incluindo a entrada de sócios estratégicos ou fundos de private equity.

“A empresa precisa conciliar geração de caixa, alavancagem e equity. Estamos nos preparando para buscar capital e crescer de forma sustentável”, disse Saurin.

Ao final, a fusão reflete uma transformação mais ampla. A dependência de fertilizantes importados deixa de ser apenas um risco operacional e passa a ser uma variável central na macroeconomia brasileira. Em um ambiente de volatilidade global, a capacidade de produzir insumos localmente pode definir não apenas a competitividade do agronegócio, mas também a trajetória de inflação, juros e crescimento do País. “Não estamos falando de insumos. Estamos falando de comida para o mundo”, acrescentou o CEO.

 



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