
A política monetária brasileira em 2026 foi marcada por uma série de cortes graduais na Selic. Já são cinco reduções seguidas de 0,25% até o patamar atual de 13,75%.Em comunicado emitido recentemente, o Comitê de Política Monetária (Copom) afirmou que “a magnitude total do ciclo de calibração será estabelecida à luz de novas informações visando assegurar a convergência da inflação à meta”.
Porém, a vitória de Lula no 2º turno, surpreendendo o mercado financeiro que apostava na eleição de Flávio Bolsonaro, levou a uma forte deterioração dos ativos na bolsa, com forte queda na Bovespa, e à disparada do Dólar em relação ao Real: a taxa de câmbio que estava entre R$ 5,05 e R$ 5,10, subiu abruptamente para um patamar entre R$ 5,30 e R$ 5,40.
Este cenário deixa a dúvida: existe chance para novos cortes na Selic ao longo de 2027 ou o primeiro ano do “Lula 4” será marcado por mais cautela em torno da política monetária?
Especialistas ouvidos pelo BRAZIL ECONOMY apontam que, caso Flávio fosse eleito, o mercado apostava na continuidade das quedas graduais considerando a esperança dos investidores de que o governo aplicaria uma política fiscal mais rígida. Por outro lado, a reeleição de Lula cria a expectativa de uma economia mais descompromissada com o controle de gastos públicos, o que mantém a dívida pública alta e atrasa o corte da Selic.
Com a vitória de Lula, a tendência agora é que o Copom mantenha a taxa no mesmo patamar pelo menos até o fim de 2026, como explica Maílson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda durante o governo de José Sarney.
“O correto seria manter a Selic estabilizada por algumas reuniões. As razões seriam as incertezas sobre o ajuste fiscal no próximo mandato de Lula. Essa percepção, como se viu, acarretou a depreciação do Real logo após as eleições, o que pode influenciar negativamente os preços mais à frente. Ao mesmo tempo, se espera uma inflação mais pressionada em 2027, tanto pelo câmbio quanto pelos efeitos do fim da escala 6×1”.
Nóbrega cita ainda as adversidades externas, como a intensificação da alta dos preços do petróleo nas últimas semanas ocasionada pela persistência das guerras no Oriente Médio e na Ucrânia: o preço do barril é negociado atualmente em torno de US$ 110, o que exigiria uma postura mais conservadora do BC.
“Caso Lula dê sinais de que não haverá as esperadas reformas estruturais e a equipe econômica anunciar um ajuste pouco crível e insuficiente, a estabilidade da Selic poderia ser prolongada, inclusive porque neste ambiente o câmbio poderia ultrapassar os R$ 6, aumentando o ritmo de crescimento dos preços”, ressaltou o ex-ministro que acredita em uma Selic em torno de 11,5% ao final de 2027, em um cenário otimista de sinalizações do novo governo Lula ao mercado, como o anúncio de bons nomes da equipe econômica.
Até o momento, apenas o vice-presidente, Geraldo Alckmin, e o governador do Piauí, Rafael Fonteles, foram ventilados como postulantes a ministros da Fazenda, o que, de acordo com as fontes ouvidas pela redação, são bem vistas pelo mercado. Mas, o melhor cenário é que fosse um nome fora da política e com autonomia em relação ao Planalto, uma vez que, ainda de acordo com essas fontes, o ministro Fernando Haddad teve uma postura de submissão às ordens vindas do presidente.
Em relação à equipe econômica, Marcela Kawauti, economista-chefe da Lifetime Gestora de Recursos, eleita por quatro anos seguidos como a melhor assessoria de investimentos do Brasil, lembra que as dúvidas vão além da política econômica ou do nome do ministro. Ela cita que os secretários da Fazenda que serão anunciados por Lula também apontam sinalizações importantes sobre como o governo vai agir para contornar a dívida pública e, consequentemente, direcionar se será possível uma queda nos juros até o fim de 2027.
“No começo de 2023, a dívida pública brasileira estava em 72% do PIB e agora já passa de 80%. A expectativa é que se continuar dessa forma vai passar de 100% do PIB em 2030, ou seja, é uma trajetória muito ruim. Isso posto, com a incerteza fiscal, pode haver uma piora na taxa de câmbio que gera inflação e aí o Copom precisa manter a taxa de juros em um patamar mais alto”, disse.
Por isso, Marcela também acredita que nas próximas reuniões o Copom deve “esperar para ver” e por isso vai pausar o corte da Selic para entender os sinais do mercado antes de possíveis novos cortes ao longo de 2027.
Impacto na inflação
Marcela Kawauti lembra que o comportamento inflacionário ainda é o principal fator de calibragem da Selic. De acordo com o Boletim Focus do Banco Central (BC), que reúne semanalmente as expectativas de instituições financeiras e outros participantes do mercado para os principais indicadores da economia brasileira, para este ano a estimativa do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), que mede a inflação, recuou de 5,22% para 5,19%, mas ainda acima do centro da meta que é de 3%, com oscilações permitidas de 1,5% para cima ou para baixo.
Para 2027, o Focus estima que haverá um recuo para 4,34%, embora empresas como o Itaú e XP Investimentos sejam mais pessimistas e aguardem inflação de 6,1%, e 5,1%, respectivamente. Porém, apesar de mostrar que a inflação em 2027 deve ser menor do que este ano, o Focus aponta que as projeções para o ano que vem já foram melhores, já que no boletim anterior apontava que o IPCA fecharia em 4,32%.
“A queda da Selic não deve mais se verificar e a volta dos cortes deve ocorrer só em meados de 2027. A mudança na escala de trabalho, que traz pressão de custos, o anúncio de mais gastos e a própria eleição de Lula que mudou de forma importante o patamar da taxa de câmbio e agregou mais incertezas recomenda uma política mais conservadora”, afirmou Silvio Campos Netos, sócio da Tendências. A consultoria projeta inflação de 4,7%, acima do divulgado pelo Boletim Focus.
De olho nos EUA
Para 2028 e 2029, a projeção do boletim divulgado pelo Banco Central é bem mais positiva, aguardando um IPCA de 3,75% e 3,50%, respectivamente, embora ligeiramente ainda acima do centro da meta. Estas tendências para anos mais distantes têm maior chance de serem revistas, uma vez que dependem do cenário político nacional, mas também do que acontece em âmbito internacional, especialmente nos Estados Unidos.
De acordo com Carlos Lopes, economista do Banco BV, a postura cautelosa do Federal Reserve (FED) em relação à inflação, com perspectiva de novos aumentos de juros nos Estados Unidos nas próximas reuniões, é um fator que deve atrasar novos cortes na Selic, já que quando o mercado norte-americano eleva os juros, há uma correria de investidores que buscam maior segurança por lá. Isso faz com que o Banco Central brasileiro segure novos cortes para evitar fugas de capitais especulativos em direção à Washington.
“Este ambiente externo mais desafiador se soma a um cenário doméstico complexo no período pós-eleitoral. Observamos uma reação negativa expressiva dos mercados, com maior pressão sobre a taxa de câmbio e a curva de juros. Considerando o elevado grau de incerteza, o Banco Central também deve evitar compromissos em relação aos próximos passos da política monetária. Embora nossa expectativa seja de manutenção dos juros por um período prolongado, provavelmente até, pelo menos, o primeiro trimestre do ano que vem, não esperamos que essa sinalização seja feita até o fim de 2026”, disse.
Diante de um cenário tão incerto, Henrique Meirelles, ex-presidente do Banco Central nos dois primeiros mandatos de Lula e ex-ministro da Fazenda de Michel Temer, prefere não opinar sobre o que deve ocorrer nas próximas reuniões do Copom. Para ele, é necessário esperar como os membros do comitê vão analisar a união entre o cenário político e econômico, seja no âmbito doméstico ou no internacional.
“O que importa neste momento é saber quais serão os modelos econométricos adotados pelo Copom para fazer o cálculo da inflação a curto e longo prazo. Aliado a isso, o comitê precisa juntar as principais expectativas do mercado. Só isso é que decidirá se a Selic sobe ou desce nas próximas reuniões”, disse.






