
O mercado brasileiro de cannabis medicinal segue em expansão, impulsionado pelo aumento das prescrições médicas, pela maior oferta de produtos e por mudanças na regulamentação sanitária. Nos 12 meses encerrados em agosto de 2026, o segmento movimentou R$ 485,4 milhões nos canais acompanhados pela consultoria Close-Up International, crescimento de 15% em relação ao período anterior.
O avanço é ainda mais expressivo quando considerada a evolução dos últimos quatro anos. Em agosto de 2022, o faturamento acumulado em 12 meses nos canais monitorados era de R$ 106,1 milhões. Desde então, o mercado mais do que quadruplicou, refletindo a ampliação da demanda por tratamentos à base de derivados da planta.
Somente nas farmácias e drogarias, as vendas alcançaram R$ 289,8 milhões no período encerrado em agosto deste ano, alta de 16,5% na comparação anual. Em volume, foram comercializadas aproximadamente 953 mil unidades, crescimento de 31%, ritmo superior ao registrado no faturamento.
Os dados mostram que a expansão também está associada ao aumento da participação dos profissionais de saúde. Segundo a Close-Up, o número de médicos prescritores passou de 58.996 para 78.075, avanço de 32,3%. No mesmo intervalo, as prescrições físicas e digitais cresceram 37,9%, de 386.121 para 532.646.
Neurologistas e psiquiatras concentram a maior participação nas prescrições, com 25,9% e 24,8%, respectivamente. Entre os produtos comercializados no varejo farmacêutico, aqueles formulados com canabidiol (CBD) isolado respondem por 60,6% do faturamento, enquanto os extratos representam 39,4%.
Embora tenham participação menor nas receitas, os extratos apresentam crescimento mais acelerado. Suas vendas aumentaram 25,3% em um ano, diante de uma expansão de 11,5% dos produtos à base de CBD isolado.
O levantamento, no entanto, não representa a totalidade do mercado brasileiro de cannabis medicinal. A Close-Up monitora regularmente as operações de farmácias e drogarias, enquanto outros canais são avaliados por meio de estudos específicos. As vendas institucionais consideradas na pesquisa incluem operações indiretas realizadas por distribuidores, sem abranger as transações diretas da indústria.
Novas regras ampliam exigências para fabricantes
O crescimento comercial ocorre em meio a mudanças importantes no ambiente regulatório. Em 2026, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) colocou em vigor a Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) 1.015/2026, que substituiu a RDC 327/2019 e atualizou as exigências para fabricação, importação e comercialização de produtos de cannabis destinados ao uso medicinal humano.
A nova regulamentação estabelece critérios para autorização sanitária de produtos industrializados que contenham CBD ou extratos de Cannabis sativa L. Também disciplina procedimentos relacionados à distribuição, prescrição, dispensação e monitoramento desses produtos.
Para Ana Cecília Carvalho, especialista em regulação de medicamentos e fitoterápicos da Anvisa, o Brasil já dispõe de uma estrutura regulatória avançada, mas a consolidação do setor dependerá da capacidade das empresas de produzir evidências científicas sobre segurança e eficácia.
“O Brasil possui uma das melhores regulamentações para acesso a produtos industrializados obtidos de derivados de Cannabis sativa L. As normas brasileiras são reconhecidas internacionalmente como modelos para a regulação de fitoterápicos e produtos de Cannabis.”
Em entrevista ao portal Sechat, a especialista destacou que a agência desenvolveu mecanismos para permitir a comercialização desses produtos mesmo sem uma legislação nacional específica sobre o uso medicinal da cannabis.
“A Anvisa atuou de modo efetivo e técnico, dentro das suas atribuições legais, para dar a acesso a produtos seguros e de qualidade à população brasileira por meio de RDC 327/2019 e, agora, da RDC 1015/2026. Atualmente, há 55 produtos de Cannabis autorizados pela Agência para comercialização no mercado nacional.”
A regulamentação prevê que a autorização sanitária tenha validade de cinco anos. Para manter a fabricação, importação e comercialização após esse prazo, as empresas deverão solicitar o registro dos produtos como medicamentos, observadas as condições estabelecidas pela norma.
A medida busca estimular a transição de uma categoria regulatória específica para o modelo tradicional de registro farmacêutico, que exige estudos capazes de demonstrar a qualidade, a segurança e a eficácia dos tratamentos.
Pesquisa científica é um dos principais obstáculos
Apesar do aumento das vendas e da presença crescente da cannabis medicinal nas prescrições, a produção de conhecimento científico continua sendo um dos maiores desafios para fabricantes e autoridades sanitárias.
Na avaliação de Ana Cecília, a existência de uma regulamentação que permite o acesso aos produtos não dispensa a indústria de realizar pesquisas clínicas e desenvolver documentação técnica suficiente para atender às exigências aplicáveis aos medicamentos.
“Entendemos que os principais desafios estão relacionados à conclusão dos estudos para comprovação da segurança e eficácia para enquadramento final dos produtos como medicamentos, considerando todas as etapas que precisam ser desenvolvidas.”
Entre as principais lacunas estão a definição de dosagens adequadas, a identificação de possíveis efeitos adversos e a avaliação de interações com outros medicamentos. Essas informações são consideradas fundamentais para orientar prescrições e estabelecer parâmetros mais precisos de utilização.
“Os estudos são essenciais para definir as doses mais apropriadas para cada formulação e grupo populacional, o tempo máximo de uso, as possíveis interações medicamentosas e reações adversas, informações que hoje são pouco conhecidas, mas importantes para a definição dos riscos associados a esses produtos.”
O desafio ganha relevância diante da diversificação das formulações disponíveis e do aumento do número de pacientes que buscam alternativas terapêuticas à base de derivados da cannabis.
Produção nacional pode reduzir custos
Além das exigências científicas, o preço dos produtos permanece como uma das barreiras à ampliação do acesso no Brasil. A dependência de insumos importados e os custos associados à cadeia de produção e distribuição influenciam as condições de comercialização.
A perspectiva de regulamentação do cultivo nacional abre espaço para mudanças nesse cenário, com potencial de estimular fornecedores locais e reduzir despesas relacionadas à aquisição de matérias-primas.
“Embora a Anvisa não possa controlar o preço dos produtos de Cannabis, por falta de previsão legal, a maior disponibilidade desses produtos no mercado está promovendo preços mais acessíveis e, com a regulamentação do cultivo nacional, espera-se a redução do custo de insumos e produtos.”
Para a indústria farmacêutica, o desenvolvimento de uma cadeia produtiva brasileira também pode representar oportunidades de investimento em pesquisa, processamento de extratos e fabricação de medicamentos.
Outro movimento relevante envolve a modernização das normas aplicáveis aos fitoterápicos. No fim de 2025, a Anvisa publicou um conjunto de regras que inclui a RDC 1.004/2025, as Instruções Normativas 410, 411 e 412/2025 e o Guia 85/2025.
As medidas buscam aprimorar os procedimentos de controle de qualidade e os requisitos relacionados à produção, importação e exportação de produtos.
“Todos os produtos obtidos de Cannabis sativa L. constituídos de extratos vegetais são enquadrados como fitoterápicos na regulamentação de medicamentos.”
Segundo Ana Cecília, a adaptação dos fabricantes às novas exigências será determinante para a evolução do mercado.
“As novas normas inovaram especialmente no controle de qualidade dos produtos, sendo importante que sejam conhecidas e incorporadas pelos fabricantes.”
Os desafios regulatórios e as perspectivas para o mercado brasileiro de cannabis medicinal estarão em discussão no Cannabis Connection 2026, marcado para 5 de novembro, em São Paulo. O encontro reunirá representantes da indústria, pesquisadores e especialistas para avaliar os impactos das novas normas da Anvisa.
Entre os participantes estará Ana Cecília Carvalho, que discutirá a implementação da RDC 1.015/2026 e seus efeitos sobre o setor. A programação também abordará as regras para importação de produtos derivados de cannabis por pessoas físicas.
O debate ocorre em um momento de expansão comercial e mudanças regulatórias. A consolidação desse mercado dependerá de investimentos em pesquisa, comprovação científica da segurança e eficácia dos produtos e ampliação do acesso aos tratamentos.






