
A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva para um quarto mandato foi recebida com uma mistura de alívio e preocupação pelo empresariado brasileiro. Enquanto executivos e investidores comemoram a preservação da estabilidade institucional, a deterioração das contas públicas e o risco de uma recessão em 2027 aparecem entre as principais preocupações para os próximos quatro anos.
“É muito bom ver a democracia funcionando”, afirmou Candido Bracher, ex-presidente do Itaú Unibanco. Pedro Passos, acionista da Natura, adotou um tom mais preocupado com os rumos da economia. “Torço por algumas mudanças deste novo governo. É importante sinalizar compromisso fiscal. Caso contrário, podemos ver uma recessão para o próximo ano”, disse o empresário.
Pedro Wongtschowski, ex-presidente do grupo Ultra, também destacou os aspectos positivos do resultado eleitoral. “É um bom resultado para o Brasil. O risco institucional com o Flávio seria grande. Setores como educação, meio ambiente e relações exteriores ganham”, afirmou.
As declarações refletem um sentimento contraditório entre as lideranças empresariais. A vitória de Lula sobre Flávio Bolsonaro reduziu, na avaliação de parte do setor privado, os riscos de instabilidade institucional e retrocessos ambientais. Mas também ampliou as dúvidas sobre a capacidade do governo de controlar os gastos e estabilizar a dívida pública.
O principal desafio será conciliar as promessas sociais feitas durante a campanha com a necessidade de recuperar a confiança dos investidores. A preocupação é que a manutenção de uma política fiscal expansionista pressione os juros, encareça o crédito e comprometa o crescimento econômico.
Entidades empresariais também se manifestaram após a eleição. Representantes dos setores de comércio, indústria, serviços e agronegócio cobraram responsabilidade fiscal, segurança jurídica e medidas para ampliar a competitividade.
A Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) defendeu que o novo mandato seja marcado pelo diálogo com o setor produtivo e por uma estratégia de desenvolvimento de longo prazo.
Para as empresas, a questão não é apenas o equilíbrio das contas públicas. Juros elevados, custos de financiamento e incertezas sobre a política econômica afetam diretamente as decisões de investimento, contratação e expansão dos negócios.
Bolsa despenca e dólar dispara
Nesta segunda-feira (26), primeiro pregão após a eleição, o Ibovespa chegou a cair 17,34%, atingindo 169.516 pontos. A queda foi tão intensa que a B3 precisou acionar o circuit breaker, mecanismo que interrompe temporariamente as negociações quando o índice registra perdas de 10%.
Foi a primeira vez que o mecanismo foi acionado desde março de 2020, quando os mercados foram atingidos pela crise provocada pela pandemia de covid-19. Também foi a primeira vez que uma eleição presidencial brasileira provocou esse tipo de paralisação.
O dólar acompanhou o movimento de aversão ao risco. A moeda americana chegou a R$ 5,60, uma valorização de aproximadamente 12% em relação ao fechamento de sexta-feira. No início da tarde, recuou para a região de R$ 5,44, ainda com alta próxima de 9%.
Por volta das 13h30, o Ibovespa registrava queda de 15,67%, aos 172.940 pontos.
A pressão atingiu especialmente empresas mais sensíveis às taxas de juros, como varejistas, incorporadoras e instituições financeiras. Ações de grandes bancos e da Petrobras também sofreram perdas expressivas.
Fonteles ganha força para comandar a Fazenda
Em meio à turbulência dos mercados, a escolha da equipe econômica tornou-se uma das decisões mais importantes do início do quarto mandato de Lula.
Um dos nomes que ganharam força nas últimas horas para o Ministério da Fazenda é o do governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT). Ex-secretário estadual da Fazenda, formado em matemática e com mestrado em economia matemática, Fonteles reúne características que agradam a setores do PT e a parte do mercado financeiro.
O governador ganhou projeção nacional durante o segundo turno, quando passou a integrar o núcleo de articulação da campanha presidencial, especialmente na estratégia de comunicação.
Fonteles sinalizou a aliados que estaria disposto a assumir um ministério caso recebesse um convite de Lula. Para isso, precisaria renunciar ao governo do Piauí, transferindo o comando do estado ao vice-governador eleito, Washington Bandeira (PT).
A eventual nomeação também teria um componente político. Dentro do PT, Fonteles é visto como uma liderança com potencial de projeção nacional, inclusive para a sucessão presidencial de 2030.
Fonteles, porém, não é o único nome considerado para a Fazenda. O vice-presidente Geraldo Alckmin também ganhou força nas articulações, enquanto a permanência de Dario Durigan, atual ministro, continua sendo uma possibilidade.
Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, aparece entre os nomes mencionados nos bastidores, embora sua eventual transferência para a Fazenda envolva questões relacionadas à autonomia da autoridade monetária.
No Ministério do Planejamento, Bruno Moretti é cotado para permanecer no cargo. Já Camilo Santana, ex-ministro da Educação, desponta como possível escolha para a Casa Civil, em uma reorganização que poderia fortalecer o núcleo político do governo.
A discussão sobre os nomes ocorre paralelamente à preparação de medidas para conter o crescimento das despesas públicas. Entre as propostas avaliadas pela atual equipe econômica estão a redução de benefícios tributários, a revisão de programas sociais e mudanças nas regras que determinam os gastos mínimos com saúde e educação.






