
“O escravo gigante de olhos azuis que fez a sinhá enlouquecer”, “A escrava que engravidou do coronel e virou sinhá” e “A sinhá viúva que não resistiu ao escravo de olhos verdes”.
Esses são alguns dos títulos de vídeos de histórias fictícias de romance, desejo e violência sexual passados no período da escravidão no Brasil publicados no YouTube, a maior plataforma de streaming do mundo.
Os títulos prometem revelar episódios chocantes ou desconhecidos do período escravista. Um vídeo que atrai espectadores frequentemente leva a dezenas de outros semelhantes, que repetem personagens, palavras-chave, imagens e estruturas de roteiro.
Especialistas que analisaram parte do material a pedido da BBC News Brasil afirmam que os vídeos romantizam a violência da escravidão, reforçam estereótipos racistas e apresentam histórias inventadas como se fossem fatos documentados.
Sua produção está ligada a um mercado de canais que usam inteligência artificial para criar conteúdo de forma rápida e barata, em busca de audiência e, potencialmente, a tão almejada monetização, ou seja, ganhar dinheiro com publicidade.
Um administrador de um dos canais analisados pela reportagem resumiu sua estratégia de forma direta: “O conteúdo é usado apenas para monetizar. Depois que monetiza, é trocado o nicho”.
O YouTube disse à BBC News Brasil que, após análise, tomou medidas contra canais e vídeos por violarem suas diretrizes, mas não especificou quais conteúdos foram removidos.
A reportagem refez a análise após o posicionamento da empresa e constatou que cerca de 10% dos canais identificados saíram do ar.
A plataforma afirmou que qualquer material que viole suas diretrizes e políticas é removido assim que é identificado.
“Além disso, tomamos medidas contra canais que desrespeitam nossos termos de forma recorrente ou grave, o que inclui a desmonetização ou o encerramento da conta”, disse o YouTube.
“Estamos em constante evolução dos nossos sistemas de análise humana e automatizada para identificar e remover conteúdos que tentem explorar nossa plataforma para obter lucro por meio da promoção de violência ou da sexualização de grupos protegidos.”
Produção em larga escala em busca de dinheiro
Os vídeos que erotizam a escravidão no Brasil fazem parte de um mercado dedicado à produção de conteúdo em larga escala com uso de inteligência artificial, chamado, por alguns especialistas, de AI Slop, termo usado para descrever material barato, repetitivo e produzido em série.
Este tipo de vídeo é publicado, em sua maioria, em páginas conhecidas como canais dark ou sem rosto (faceless), modelo de produção de conteúdo para redes sociais em que seus criadores não aparecem nas produções. O YouTube não informa publicamente quem administra cada canal.
A BBC News Brasil tem documentado os impactos desse fenômeno em diferentes áreas, como nos vídeos de IA hipnotizantes e de baixa qualidade voltados para crianças e falsos médicos de IA, que usam avatares hiperrealistas para assustar idosos e vender suplementos milagrosos.
Também mostrou quem são as pessoas por trás de canais deste tipo, que muitas vezes acreditam que poderão faturar alto com vídeos feitos com IA, como anunciam os gurus deste mercado. Mas poucos lucram, de fato, segundo especialistas.
Os canais não serão identificados nesta reportagem para não contribuir para a popularização de conteúdos que podem ser considerados ofensivos, racistas, enganosos, segundo especialistas que assistiram ao conteúdo coletado.
Formato importado dos EUA tem terreno fértil no Brasil

A BBC News Brasil apurou que esse tipo de conteúdo começou a surgir com mais frequência há cerca de dois anos em canais do YouTube criados nos EUA.
Para Souza, os vídeos podem encontrar audiência justamente por recuperar esse repertório conhecido. “Essas histórias repercutem com o que já existe de crença. É meio que eu querer escutar a mesma música novamente”, diz o pesquisador. “Então, para mim, tem um lugar de racismo aqui de reforçar essa imagem de qual é o lugar eternamente de pessoas negras no Brasil, o lugar do escravo, do escravizado. Esse tipo de conteúdo me ofende em uma dimensão coletiva.”
‘Uso para monetizar. Depois, troco de nicho’
A maior parte dos canais analisados não informa publicamente quem está por trás das páginas. Em um deles, porém, a BBC News Brasil conseguiu identificar o responsável e falar com ele.
A BBC News Brasil localizou o responsável a partir de uma busca online pela imagem usada no perfil do canal.
O retrato levou às redes sociais de Diego Souza, criador de conteúdo que reúne quase 1 milhão de seguidores no Instagram e vende cursos sobre como ganhar dinheiro com vídeos de fofocas e notícias nas redes sociais.
Os vídeos mais populares de seu canal tentam atrair os espectadores com imagens de capa que mostram homens negros sem camisa ao lado de mulheres brancas e frases sugestivas.
“O conteúdo é usado apenas para monetizar. Depois que monetiza, é trocado o nicho”, disse Diego.
Nicho é como os criadores de conteúdo no YouTube se referem aos temas de um canal desse tipo. No seu caso, publicações mais recentes do canal passaram a tratar de artistas e casos policiais. Questionado sobre o risco do material ser considerado ofensivo ou preconceituoso e as implicações éticas da estratégia, Diego afirmou que não conseguiria formular uma opinião, pois esse não era o conteúdo principal de seu trabalho.
Para verificar que tipo de publicidade era exibida junto aos conteúdos, a reportagem criou uma nova conta no YouTube e acessou os maiores canais analisados. Durante o teste, identificou anúncios em inglês de ao menos quatro empresas, em vídeos que estavam no ar há dois anos. Uma delas, de Vancouver, no Canadá, afirmou à BBC News Brasil que não tinha conhecimento de que sua publicidade estava sendo exibida junto a esse tipo de conteúdo e que não havia selecionado especificamente aquele canal ou vídeo.
Segundo a companhia, após ser informada pela reportagem, tomou medidas imediatas para revisar e ajustar as configurações de suas campanhas publicitárias. Outra empresa, uma multinacional da área da saúde, disse que não tinha conhecimento da exibição dos anúncios. Afirmou que direciona suas campanhas para públicos “com interesse em temas de saúde, bem-estar e qualidade de vida”, que o canal citado foi bloqueado e que exigiu esclarecimentos da plataforma.
‘Vídeos recriam mitos sexistas e racistas sobre a escravidão’
Uma das características em comum é que esses canais apresentam histórias fictícias como se fossem narrativas históricas ou “baseadas em fatos históricos”.
Um dos canais em português identificados pela BBC News Brasil tem 23,4 mil inscritos e quase 1 milhão de visualizações. O vídeo mais popular ultrapassa 100 mil visualizações e está no ar há pelo menos oito meses.
A trama acompanha Eulália Mendes de Albuquerque, que seria casada com um rico proprietário de escravos e passaria a se relacionar sexualmente com um deles, Tomé. O vídeo chega a afirmar que “arqueólogos da USP” teriam descoberto a ossada desses personagens.
Uma busca pelo nome da personagem mostra que o mesmo enredo é reproduzido em textos e vídeos de páginas semelhantes, sem qualquer fonte histórica, inclusive em inglês. A reportagem não encontrou registro documental que comprove a existência dos personagens ou do episódio descrito. Procurada, a Universidade de São Paulo (USP) também não encontrou tal informação. Nenhum dos quase 300 comentários publicados sobre o vídeo questiona a veracidade da história ou dos personagens.
“Bom trabalho e obrigado pelo belo vídeo”, diz um espectador.
“Sinto muito por Tomé e Eulália”, afirma outro.
A BBC News Brasil pediu a historiadores que comentassem, de forma geral, o teor desses vídeos.
Para Keila Grinberg, professora da Universidade de Pittsburgh, nos EUA, esses conteúdos recriam mitos antigos sobre a escravidão. “São mitos profundamente racistas e sexistas”, afirma.
Para Grinberg, a mistura de invenção e aparência documental é um dos principais problemas. “O que o vídeo cita também pode ser inventado.” Ela afirma que o público precisa aprender a perguntar como uma informação histórica foi produzida: se os personagens existiram, que documentos registram o episódio e quais outras fontes podem confirmar a narrativa.
“Ele [o aluno] aprende história quando vê uma novela, com o pai e a mãe. Aprende história de várias maneiras. Isso é bom. O complicado é conseguir distinguir uma mentira repetida mil vezes”, afirma.
‘É um apelo à sexualização e à erotização nas relações escravistas e nas relações interraciais’
As imagens e os títulos de alguns desses vídeos constroem uma representação específica das pessoas escravizadas. Homens negros aparecem frequentemente sem camisa, musculosos, acorrentados ou em posições de submissão. Mulheres brancas são apresentadas como sedutoras, perversas ou dominadas pelo desejo.
Lorena Telles, professora do Departamento de História da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e pesquisadora do Núcleo de Pesquisa e Formação em Raça, Gênero e Justiça Racial do Afro-Cebrap, assistiu a alguns dos vídeos coletados pela BBC News Brasil. Ela afirma que o material transforma um passado de exploração e violência em histórias de romance e desejo.
“É um apelo à sexualização e à erotização nas relações escravistas e nas relações interraciais”, afirma. Nos vídeos, reforça Telles, os homens negros aparecem frequentemente musculosos, com o corpo exposto e associados a uma suposta potência sexual. Para ela, essa representação retoma estereótipos racistas que apresentam homens negros como reprodutores e “máquinas sexuais” e, em algumas narrativas, como estupradores.
“O homem branco aparece como todo-poderoso e a mulher branca como completamente anulada, submissa ou diabólica”, diz. Telles pesquisa a história de mulheres negras, africanas e descendentes, relações de gênero, maternidade e escravidão no século 19, além do trabalho doméstico no pós-abolição.
Para ela, alguns desses vídeos, ambientados em fazendas de café no século 19, transformam relações marcadas por exploração do trabalho, torturas físicas, estupros, separação de famílias, lutas pela liberdade e muita opressão em “historietas” sobre paixões entre senhores, mulheres brancas escravistas e pessoas negras escravizadas.
Canais copiam histórias em busca de visualizações
A reportagem identificou que parte desses canais recicla as mesmas histórias. Algumas versões mantêm personagens, datas, locais e situações de violência. Outras transferem a narrativa para diferentes países e alteram nomes e detalhes, preservando a mesma premissa. Um dos exemplos mais difundidos conta a história de um coronel que teria permitido que sete homens escravizados mantivessem relações sexuais com sua esposa.
A versão mais popular, publicada com o título “O coronel que dividia a esposa com 7 escravos”, teve mais de 1,5 milhão de visualizações e recebeu mais de 1,5 mil comentários. O YouTube sinaliza o uso de IA no material. Segundo o vídeo, o episódio teria ocorrido em Minas Gerais, em 1864. A narração apresenta nomes de personagens, propriedades e acontecimentos específicos, mas não indica fontes sobre o caso.
Variações do enredo foram publicadas por mais de 30 outros canais, segundo pesquisa da BBC News Brasil. Em alguns casos, o título é repetido quase palavra por palavra. Em outros, a história é transportada para outros países, com mudanças nos personagens e na data, mantendo a promessa de revelar um episódio desconhecido da escravidão.
Os comentários mostram que o público recebe o material de maneiras diferentes. Alguns espectadores consideram a narrativa plausível. “Acredito sim. Toda vida existiram belos canalhas”, escreveu um usuário. Outros questionam a origem das informações. “Quem registrou esses detalhes?”, perguntou uma pessoa, referindo-se às datas, aos personagens e às circunstâncias descritas na narração.
Há também espectadores que identificam o conteúdo como ficção ou produto de inteligência artificial. “Agora histórias fictícias estão bombando”, escreveu um usuário. Outro resumiu: “ChatGPT tá criativo mesmo.”
‘Plataformas não deveriam monetizar ou recomendar esse conteúdo’
A pesquisadora Fernanda Rodrigues, que estuda a regulação de inteligência artificial, defende que vídeos que configurem discriminação, discurso de ódio ou violência contra a mulher deveriam ser removidos. Na sua visão, os canais identificados pela reportagem se apresentam como produtores de conteúdo educativo ou histórico para usar o sofrimento de pessoas negras para atrair audiência.
Rodrigues afirma ainda que a circulação desses vídeos pode influenciar a forma como crianças e adolescentes compreendem a escravidão. “A gente perde a noção se aquele conteúdo é problemático”, diz Rodrigues, que é coordenadora de pesquisa do Instituto de Referência Internet e Sociedade (Iris).
O YouTube afirmou à BBC News Brasil que reconhece que alguns temas podem ser profundamente sensíveis ou controversos e que seu objetivo é “equilibrar a manutenção de uma comunidade segura com a defesa da liberdade de expressão dentro dos limites das nossas políticas”. A empresa disse que mídias sintéticas que violam as diretrizes da comunidade existentes, como assédio, discurso de ódio ou desinformação, que possam causar danos no mundo real, estão sujeitas à remoção, “independentemente de estarem rotuladas ou não” (como IA).







