Quer esquecer que é Carnaval? Oito filmes que pegam na veia

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A Perseguição

Onde: GloboPlay

No filme enxuto e musculoso do diretor Joe Carnahan, Liam Neeson é John Ottway, que, em luto pela perda da mulher (não se sabe se por morte ou abandono), trabalha em uma refinaria no Alasca, patrulhando o entorno das instalações e abatendo os lobos e outros animais selvagens que possam atacar os funcionários. Ottway está a um passo do suicídio. Mas, quando o avião que transporta a ele e outros colegas para longe do local na estação do inverno cai na vastidão gelada, o instinto de sobrevivência prevalece. Apenas ele e mais seis homens (incluindo-se os ótimos Dallas Roberts, Frank Grillo e um quase irreconhecível Dermot Mulroney) saem vivos do desastre. Não têm comida, armas ou agasalhos apropriados nem fazem ideia de onde estão. Os lobos, porém, estão por toda parte.

(The Grey, 2011)– Imagem/Divulgação

No Fim do Túnel

Onde: Netflix, Looke

Joaquín (Leonardo Sbaraglia) é um cara amargo: está preso a uma cadeira de rodas, e essa nem de longe foi a pior das consequências do acidente que o vitimou. Joaquín não arruma mais a casa espaçosa em que mora em Buenos Aires, não lava a louça, não limpa o mato, não sobe mais ao andar de cima. Apenas desce ao porão, onde conserta computadores, fuma muito, faz um carinho no cão que está à morte. E, como passa por dificuldades financeiras, anuncia um quarto para alugar. Berta (Clara Lago), o vendaval que entra pela sua porta com as pernas de fora, cabelão caindo pelas costas, um jeito insolente de falar e com a filha pequena pela mão, não é a inquilina que ele tinha em mente – com uma mulher assim em casa, vai ser difícil ter sossego para se deprimir à vontade. Mas Berta nem dá a chance a ele de dizer não: em minutos, já se instalou ali com Betty, que tem 6 anos e não fala. Enquanto o trio começa a desenhar uma dinâmica familiar, lá embaixo, sob o piso do porão, um grupo de bandidos cava um túnel que vai levar até o cofre do banco vizinho à casa. Joaquín logo nota os ruídos mínimos criados pela escavação – e bola seu próprio plano. Mais um capítulo da série “vá fazer filme bom assim lá no vizinho”.

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(Al Final del Túnel, 2016)– Warner/Divulgação

Amor Bandido

Onde: GloboPlay

Melhores amigos, Ellis (Tye Sheridan) e Neckbone (Jacob Lofland), de 14 anos, descobrem num trecho do Rio Mississippi um barco encarapitado em uma árvore de uma ilha deserta, e veem que há alguém morando nessa nau aérea: Mud (Matthew McConaughey), um sujeito fustigado pela vida dura e tanto mais sedutor por ter algo de sinistro. Ellis se afeiçoa ao estranho, que é para ele uma versão mais misteriosa e rebelde de um pai (o seu próprio, interpretado pelo ótimo Ray McKinnon, é um pescador que está para perder o meio de vida, a casa e a mulher). Mud aos poucos enreda os garotos em uma história duvidosa sobre homens maus que o perseguem e uma namorada com queda para se envolver com quem não deve (Reese Witherspoon, em breve e explosiva participação). Ainda que este terceiro longa do diretor Jeff Nichols não seja tão estupendo quanto o anterior, O Abrigo, ele confirma aqui ser um talento à parte: a maneira como constrói seus personagens por meio de sua visão da natureza, seu senso de ritmo e de atmosfera e sua condução dos atores são excepcionais.

(Mud, 2012)– Califórnia/Divulgação

A Busca

Onde: GloboPlay

Imersos na fase mais hostil de sua separação, Theo (Wagner Moura) e Branca (Mariana Lima) sem querer colocam seu filho, Pedro (Brás Moreau Antunes), no meio do fogo cruzado. Numa tentativa de se retratarem, decidem jantar juntos no aniversário de 15 anos do menino – que não aparece. O amigo com quem ele supostamente estaria não sabe de nada. Informações desencontradas começam a surgir: Pedro vendeu seu computador; Pedro comprou um cavalo (!); um desconhecido liga do celular de Pedro e diz que o achou no acostamento de uma estrada. Enquanto Theo tenta refazer o trajeto do filho, o diretor estreante Luciano Moura exercita um controle admirável dos ritmos dessa busca: vai do frenesi crescente a uma virada e, dela, para um progressivo e inesperado desafogo. Toda a estrutura arquitetada pelo diretor, porém (e é pena que o desfecho não esteja totalmente à altura dela), depende de um único ponto de apoio: o desempenho de Wagner Moura, de uma coerência e convicção espantosas.

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(A Busca, 2013)– Downtown/Divulgação

Amaldiçoada

Onde: GloboPlay, Prime Video

Na igreja, de costas para o púlpito, a jovem muda Liz ouve pela primeira vez a voz do novo pastor, e seu semblante se transforma: é preciso fugir imediatamente, diz ela ao marido, que não compreende o desespero, nem quando ali mesmo uma mulher entra em trabalho de parto e Liz, que é a parteira local, perde a criança – ou, mais precisamente, escolhe perder a criança para salvar a mãe. Tornada ovelha negra do povoado do dia para a noite por incitação do pastor, Liz será a causa involuntária de várias desgraças. E, à medida que o filme retrocede no tempo, em capítulos que recebem nomes bíblicos, vê-se que o infortúnio vem de muito antes, e está sempre em seus calcanhares. Está, também, longe de terminar. Apesar do título e dos simbolismos religiosos, Amaldiçoada não é um terror; está mais para faroeste sombrio. Dakota Fanning dá uma bela performance como Liz, enquanto Guy Pearce pisa fundo na caracterização do pastor cheio de fogo e enxofre. Pontos também para a ambientação criada pelo diretor holandês Martin Koolhoven: nas cidades ou nas fazendas salpicadas nas pradarias e nas montanhas, os personagens tentam criar alguma ordem, mas o caos sempre emerge – nas mortes terríveis e inúteis, na lama da criação dos porcos, na neve que cobre tudo ou na secura do deserto.

(Brimstone, 2016)– Califórnia/Divulgação

O Homem da Máfia

Onde: GloboPlay, Prime Video, Paramount Mais

Dois marginais pé-de-chinelo têm uma daquelas ideias que, sob o efeito da heroína, parecem brilhantes. Vão assaltar um cassino clandestino da máfia, porque o cassino já foi assaltado antes e é inevitável que, nesta segunda ocorrência, a culpa caia em cheio sobre o gerente do lugar. Assim acontece – mas é óbvio que as coisas não vão parar por aí, e que a dupla terá deflagrado uma sucessão de eventos que se tornam cada vez mais complicados e assustadores. O diretor Andrew Dominik escolhe como pano de fundo para essa história a primeira campanha presidencial de Barak Obama: os americanos estão na lona com a crise financeira iniciada em 2008, perdendo o emprego, a casa e o horizonte – e a conduta de altíssimo risco que o mercado adotou e que levou a essa implosão não é ela também uma forma brutal de violência, pergunta o diretor? O Homem da Máfia exige atenção total, porque a história é tortuosa. Mas o roteiro é uma beleza, a direção é de uma segurança invejável e o elenco é um espetáculo; ninguém está menos do que sensacional. Mas, ainda assim, vou destacar Brad Pitt como o “faxineiro” da máfia, os soberbos Scoot McNairy e Ben Mendelsohn como os noias, e James Gandolfini. Se você acha que como Tony Soprano ele era de dar medo, então espere só para vê-lo aqui.

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(Killing Them Softly, 2012)– Imagem/Divulgação

A Qualquer Custo

Onde: Netflix

Chris Pine e Ben Foster são dois irmãos de personalidades contrastantes unidos em torno de um plano: na fenomenal sequência de abertura, eles já estão em plena maratona de roubo a banco. De cada agência nas cidadezinhas pelas quais passam, levam uma ninharia – só notas de valor baixo. Querem chegar rapidamente a uma determinada quantia e roubá-la toda da mesma instituição, o Texas Midland Bank. Toby (Pine), o irmão racional, articula o método. Tanner (Foster), o irmão explosivo, cuida da intimidação e da violência. No encalço deles está outra figura típica do faroeste: o velho homem da lei numa última missão. Marcus Hamilton, saborosamente interpretado por Jeff Bridges, é um tipo ardiloso. Prefere pensar a correr, e intui que os dois rapazes não são meros alucinado: têm um propósito muito definido. É hora então de parar de perseguir, decide Marcus, e montar uma armadilha. Antes tudo fosse tão simples. O diretor escocês David Mackenzie oferece aqui propulsão narrativa, tensão dramática, exuberância estilística e desempenhos marcantes. Além disso, ele absorve a cultura e a geografia do Oeste do Texas – terra de gado e de petróleo, de gente perdendo o rancho e de gente bombeando milhões da terra –, com o fascínio dos forasteiros: seu olhar tem um viço que contagia cada cena e cada interpretação. No estrondoso confronto final, tiros voam para todos os lados – e dois personagens transbordam de admiração e ameaça mútuas.

(Hell or High Water, 2016)– Califórnia/Divulgação

Segredos de um Crime

Onde: Netflix, GloboPlay

Na cena de abertura, com a câmera correndo pelo imenso armazém atrás do detetive Malcolm (Joel Edgerton) enquanto ele persegue um bando de criminosos, pode-se até ter a impressão de que este é um clássico filme de policiais versus bandidos. Mas o território deste suspense australiano escrito pelo próprio Joel Edgerton é outro: um tremendo dilema moral. Que, enquanto progride e se desdobra, vai arruinando vidas. Durante a batida no armazém, Malcolm toma um tiro. É salvo pelo colete a prova de balas. Mas, entre o hematoma e o susto, de noite ele exagera nos drinques. Dirigindo de volta para casa, ele sem querer dá um peteleco com o retrovisor do carro numa bicicleta, e fica atordoado quando percebe que o ciclista, um menino de 9 anos, foi ao chão com uma fratura no crânio. Malcolm chama a ambulância – mas, quando a atendente pergunta se ele foi parte do acidente, ele vacila e diz que não, que apenas achou o garoto. Esse é só o ponto de partida: daí para a frente, o rolo só aumenta, com a entrada na questão de dois outros policiais. O detetive veterano Carl (Tom Wilkinson) imediatamente entra em modo de controle de danos quando vê que Malcolm está envolvido. Já seu parceiro, Jim (Jai Courtney), um novato caxias, acha que a coisa toda não se encaixa, e não quer largar do osso – inclusive porque está encantado com a mãe da vítima. Tenso, cheio de eletricidade, valorizado pelos ótimos desempenhos centrais e muito bem dirigido.

(Felony, 2013)– Califórnia/Divulgação

Fonte: Jovem Pan