Na Netflix etc.: 5 histórias bem contadas

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O Impossível

Onde: Prime Video, Looke

A recriação do tsunami que atingiu o Sudeste Asiático em 26 de dezembro de 2004 é um prodígio tecnológico que, no entanto, nunca se apresenta como tal: o que ele conjura é a realidade física brutal de ser arrastado por uma massa d’água gigantesca que não para de avançar, impelindo seres humanos contra galhos, carros, ferragens e os escombros que rodopiam em velocidade espantosa. É uma guerra pela vida sujeita a uma infinidade de lances aleatórios que nada têm a ver com força ou vontade – o tronco que oferece alguns instantes de pausa, a sorte de não bater a cabeça e desmaiar. No caso de Maria Bennett, separada do marido e dos dois filhos menores pelo turbilhão, o mais decisivo desses lances é a visão de seu filho mais velho, Lucas, que corre com ela no meio da espuma barrenta, ora mais perto, ora mais longe. O que o diretor catalão Juan Antonio Bayona faz do caso verídico da família apanhada por um desastre de proporções apocalípticas é cinema de primeira grandeza,apoiado na sobriedade dos sentimentos e na intensidade de sua linguagem visual. E, não menos crucial, sobre as atuações magníficas de Ewan McGregor como Henry, o pai da família, Tom Holland, como Lucas, e em particular Naomi Watts, como Maria.

The Impossible, 2012– Paris Filmes/Divulgação

Coco Antes de Chanel

Onde: GloboPlay, Telecine

A estilista francesa Coco Chanel (1883-1971) já foi inúmeras vezes retratada, mas sempre em sua forma final: a cáustica, severa e independente inventora do tailleur, libertadora da forma feminina e criadora do mais duradouro de todos os conceitos do chic – aquele que dita que silhueta, tecido e caimento são os únicos adornos necessários. Não é essa, entretanto, a protagonista da diretora Anne Fontaine. Começando da infância em um orfanato, o filme recria com recursos disciplinados uma experiência sensorial a que Coco (Audrey Tautou) demorou a dar importância: sua sensibilidade ao apelo das cores, das texturas e da simplicidade. Recria também seu temperamento confrontador e – esse é o dado inesperado – sua absoluta falta de rumo. E mostra como esses traços confluíram durante o período em que ela se aboletou no castelo de seu amante, o dândi Étienne Balsan (o excelente Benoît Poelvoorde), que costumava esconder Coco de seus amigos, por achá-la meio insignificante. Para afrontá-lo, ela invadia as festas em trajes masculinizados, fazendo com que, ao lado dela, as outras mulheres parecessem enfeites de bolo. A cena em que ela dança com seu outro amante (Alessandro Nivola) também é uma beleza: em meio a uma montanha de fitas, laços e laçarotes, o primeiro de todos os “pretinhos básicos” já surge incomparável. Coco Antes de Chanel termina no momento em que ela de fato começou a se encontrar. Deixa de fora, em suma, tudo de que já tanto se falou.

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Coco Avant Chanel, 2009– Warner/Divulgação

O Médico Alemão

Onde: GloboPlay, NOW

Em 1960, Lilith (Florencia Bado) está se mudando com os pais e os irmãos para Bariloche, onde vão reabrir a hospedaria da família. Um alemão pede para segui-los na estrada: ele não conhece o caminho e está intrigado com Lilith, que tem 12 anos mas, baixinha, aparenta ter 9 – embora exiba proporções notavelmente harmoniosas, anota ele em sua caderneta. O estrangeiro (o espetacular Àlex Brendemühl), que diz ser médico e se chamar Helmut Gregor, tem em Bariloche vários conhecidos alemães, que o tratam com deferência. É de Lilith, porém, que ele se aproxima. Quer medicá-la com hormônios para que cresça e também cuidar de sua mãe, grávida de gêmeos. A essa altura, já está claro para o espectador que o homem é na verdade Josef Mengele, “o anjo da morte” do campo de extermínio de Auschwitz, onde realizava experimentos tétricos com judeus – gêmeos eram seu interesse especial. Baseado num episódio real da longa trajetória de fuga e exílio de Mengele (que morreu afogado em Bertioga, no litoral paulista, em 1979), o filme da diretora Lucía Puenzo é primoroso no ritmo controlado e na audácia com que apresenta a face simpática de seu protagonista à família de Lilith.

Wakolda, 2013– Imovision/Divulgação

Fome de Poder

Onde: Netflix, NOW

Cinquentão e sempre sozinho, na estrada, tentando vender suas invenções, Ray Kroc (Michael Keaton) teve uma revelação que quase se poderia caracterizar como espiritual, não fosse ela tão mercantil: ao observar a eficiência inédita com que a pequena lanchonete californiana dos irmãos Dick e Mac (Nick Offerman e John Carroll Lynch) atendia à fila de fregueses, ele viu o futuro. Nada da demora e dos pedidos trocados dos drive-ins tão em moda na década de 50; uma vez franqueada, a cozinha cientificamente planejada dos irmãos McDonald ganharia o mundo e mudaria o jeito americano de comer. E, assim, Kroc se pôs primeiro a seduzir o cordato Mac e o renitente Dick para formar uma sociedade, e depois a tirar deles, cláusula por cláusula de contrato, sua criação. Interpretado com energia frenética por Keaton, o próprio Kroc avisa: sua história trata mais de persistência e inclemência do que de sucesso.

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The Founder, 2016– Diamond/Divulgação

Horizonte Profundo: Desastre no Golfo

Onde: Netflix, Looke, Telecine

Mike Williams (Mark Wahlberg), pai de família bem casado, é o engenheiro de manutenção elétrica da plataforma de sondagem de petróleo Deepwater Horizon, que está estacionada no Golfo do México, na costa da Louisiana. Assim como seu chefe (Kurt Russell) e seus colegas, ele está está ressabiado e temeroso: a Deepwater está em más condições de conservação, a perfuração está indo depressa demais e os executivos da British Petroleum, ou BP, insistem que a plataforma seja removida antes de os testes garantirem que o poço está selado. O time de trabalho quer que, na dúvida, tudo seja feito como manda a cartilha. A BP, ao contrário, decide que parar é frescura. E, claro, bum: em abril de 2010, a Deepwater foi pelos ares, deixando onze mortos e provocando o maior vazamento de óleo cru da história americana. Para compreender a mecânica da catástrofe e sentir o horror que o pessoal enfrentou, o filme dirigido por Peter Berg é nota dez. Da apresentação da situação à maneira como controla o ritmo e o cuidado com que filma, atento à veracidade dos detalhes, Berg dá uma pequena aula não só sobre plataformas marítimas, mas também sobre como fazer um bom filme de entretenimento a partir de um desastre sem desrespeito nem sensacionalismo.

Deepwater Horizon, 2016– Paris Filmes/Divulgação

Fonte: Jovem Pan