Especialista diz que falha no Enem de 2019 é ‘um dos erros mais graves’ da história

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O diretor de estratégia política da organização Todos Pela Educação, João Marcelo Borges, acredita que a falha na correção das provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) é “um dos erros mais graves da história” do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP). A falha afetou quase seis mil candidatos. “É a primeira vez que a gente tem um erro de correção de prova. Qualitativamente esse é um dos erros mais graves da história do Inep, porque ele afeta não exatamente aspectos logísticos ou de segurança do exame, como nas edições anteriores, mas o cerne desse instrumento, que é a correção”, afirma o diretor da entidade que produz pesquisas sobre a educação básica brasileira.

O erro na correção das provas afetou 0,15% dos 3,9 milhões de estudantes que prestaram o exame em novembro do ano passado. Esse número corresponde exatamente a 5.974 prejudicados. De acordo com o Inep, 95% dos casos se concentram nas cidades de Alagoinhas (BA), Viçosa (MG), Ituiutaba (MG) e Iturama (MG). João Marcelo acredita que, por mais que a perspectiva estatística do erro seja baixa, a falta de cuidado na gestão das provas coloca em dúvida não apenas o Enem, mas qualquer outra prova que o Inep faz, como o Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade).

“Se a gente olhar o problema pela perspectiva estatística, pode-se dizer que isso [0,15%] é pequeno. Mas a natureza qualitativa desse erro é difícil de menosprezar, porque coloca em dúvida a qualidade como um todo do Inep. Para os [poucos] afetados, o efeito do erro é total”, explica o especialista em Educação. O presidente do Inep, Alexandre Lopes, afirmou, nesta segunda-feira (20), que a pontuação de todos foi revisada. Ele explica que uma falha na gráfica fez com que provas fossem associadas a gabaritos trocados. O equívoco ocorreu no momento da transmissão das informações. Em razão disso, candidatos que fizeram a prova de determinada cor tiveram o gabarito corrigido como se ele fosse correspondente ao exame de outra cor.

PEGO DE “SURPRESA”

O diretor do Todos Pela Educação explica que toda prova tem dois lados fundamentais: quem responde (alunos) e quem corrige (banca examinadora). Um outro problema visto por João Marcelo é justamente o fato de os erros terem sido apontados apenas pelos alunos, e não pelo Inep. “Apesar de suas verificações internas, foi o volume de reclamações de estudantes que começou a ocorrer depois do anúncio dos resultados, na sexta-feira (17), que fez o Inep reconhecer o erro. Ou seja, o Inep foi pego de surpresa”, afirma João Marcelo. “É possível que em alguma medida isso [o erro] tenha a ver com o acúmulo de problemas e dificuldades na gestão do Inep ao longo de 2019 – foram quatro presidentes”, completa.

SEIS MESES VACANTE

João Marcelo lembra ainda que a Diretoria de Avaliação de Educação Básica, colegiado do Inep responsável pelo Enem, ficou mais de seis meses vacante, sem titular. Segundo o especialista, os técnicos apontavam problemas na preparação do Enem e, a partir disso, o Inep resolveu contratar, por dispensa de licitação, uma gráfica que não tinha experiência prévia na execução de um serviço tão grande, complexo e cheio de requisitos de sigilo e segurança. “É provável que essa mistura de coisas tenha gerado esse tipo de resultado”, acredita João Marcelo.

©Plantão dos Lagos
Fonte: Portal G1
Fotos: divulgação