‘Saiu a liminar do R’

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Mensagens encontradas pelo Ministério Público no celular do PM reformado Ronnie Lessa, acusado pelo assassinato da vereadora Marielle Franco, serviram de base para a deflagração da Operação Calígula, nesta terça-feira. A ação tem como objetivo combater a organização criminosa chefiada pelo bicheiro Rogério Andrade e seus tentáculos nas polícias Civil e Militar. Os diálogos, obtidos pelo EXTRA, revelam que Lessa chegou a ser sócio de Andrade num bingo na Barra da Tijuca, articulou a liberação de máquinas caça-níqueis com policiais civis e até comemorou uma decisão judicial que libertou o contraventor.

Em 23 de agosto de 2018 — quatro meses após o assassinato de Marielle e de seu motorista, Anderson Gomes —, Lessa escreveu para Carlos Eduardo de Almeida da Silva, o Kadu, seu comparsa e também alvo da ação desta terça-feira: “Saiu a liminar do R”. Depois do texto, o PM reformado postou um símbolo com duas mãos espalmadas para cima. Naquele mesmo dia, a Vara de Execuções Penais do Tribunal de Justiça do Rio decidiu libertar o bicheiro. “E ele sai quando?”, perguntou o interlocutor.

“Até hoje se o advogado dele trouxer o alvará. Acredito que frete um jato pra não demorar kkkkk”, respondeu Lessa. O bicheiro deixou o Complexo de Gericinó, onde estava preso na ocasião, no dia seguinte.

Ronnie Lessa (à esquerda) e Rogério de Andrade são os principais alvos da operação Calígula Foto: Agência O Globo

Em todos os depoimentos que já prestou à Justiça, Lessa negou sua relação com Rogério Andrade. No entanto, para o MP, os laços dos dois remontam a 2009, quando o PM foi alvo de um atentado a bomba que culminou na amputação de sua perna. Meses depois, Rogério foi alvo de outro atentado com o mesmo tipo de bomba, em que seu filho Diogo acabou morto. Na época, existia a suspeita de que os crimes se relacionavam e de que Lessa trabalhava como segurança do bicheiro.

As mensagens extraídas do celular de Lessa revelaram que os laços entre os dois permanecem fortes. Em 21 de abril de 2018, o PM reformado conta a outro comparsa que se aproximou do filho do bicheiro para a inauguração de um bingo no Quebra-Mar, ponto da praia da Barra da Tijuca que costumava frequentar.

“Estive com o filho do R. O R vai botar lá no Quebra Mar. Vai pegar os dois restaurantes. E ele que mandou me procurar, disseram pra ele que só eu resolvia isso lá”, escreveu Lessa. O comparsa o aconselhou: “Quando menos esperar vai cair no colo. Vê que só ajuda e não pede nada”.

Lessa disse ao interlocutor que conversou com o bicheiro através de Gustavo Andrade, filho de Rogério e sócio no bingo: “Falei com ele no zap ontem. Através do filho. Me agradeceu e quer encontrar pessoalmente semana que vem”. O interlocutor parece animado com o encontro: “Cara com certeza vai te dar um pedaço”.

Espaço Barra Gold era o nome do bingo de Lessa; na foto, panfleto da casa de jogos
Espaço Barra Gold era o nome do bingo de Lessa; na foto, panfleto da casa de jogos Foto: Reprodução

Em julho de 2018, Carlos Eduardo de Almeida da Silva, o Kadu, comparsa de Lessa e operador do bingo, envia um vídeo pelo aplicativo de mensagens para Lessa em que a inauguração da casa é anunciada. Segundo a filmagem, o cassino “espaço Barra Gold” teria 100 “máquinas de última geração”. Após o envio do vídeo, Kadu avisa a Lessa: “Inauguramos hoje. Quando você puder me encontrar me avise, quero te deixar a par de tudo que foi preparado e de como está a operação”.

Um dia depois da inauguração, no entanto, policiais do 31º BPM (Barra da Tijuca) fizeram uma operação no local e apreenderam as máquinas do estabelecimento. Por seu bom trânsito entre policiais civis, Lessa é designado pela quadrilha como responsável por negociar a liberação das máquinas da delegacia. Por cerca de dez anos, o PM trabalhou em delegacias, cedido à Polícia Civil. No final dos anos 1990 e início dos anos 2000, o empréstimo de policiais militares à Polícia Civil para trabalharem na investigação de crimes era uma prática comum. Os PMs “adidos”, como ficaram conhecidos, eram agentes conhecidos pela capacidade de criar contatos nas ruas que possibilitassem a captura de criminosos. Em 2011, após vários desses agentes serem acusados de corrupção, a prática foi proibida.

A partir do dia 15 de agosto, duas semanas depois da apreensão, Lessa passa a mandar mensagens para o delegado Marcos Cipriano e pede que ele o coloque em contato com a delegada Adriana Belém, que era titular da 16ª DP (Barra da Tijuca) à época — unidade onde estavam as máquinas. Numa das mensagens, Lessa marca um encontro entre ele, Cipriano e o inspetor Vinícius de Lima Gomez — apontado pelo MP como “receptor de propinas, agindo em favor de integrantes do alto escalão da Polícia Civil. Vinicius e Lessa trabalharam juntos em várias delegacias na época em que Lessa era um “adido”. “Meu comandante, hoje acabei chegando tarde, vamos marcar amanhã à tarde e aproveitar que o Vinicius vem pra matar a saudade”, escreveu Lessa, ao marcar o encontro.

Os diálogos revelam que Lessa participou de um encontro com Adriana Belém marcado por Cipriano num restaurante em frente à delegacia no dia 21 de agosto. Um mês depois, Lessa e um comparsa mandam caminhões para a frente da delegacia para buscarem as máquinas. “Meu amigo, os caminhões estão lá no local, pra avisar o amigo. Não tem ninguém pra acompanhar isso?”, pergunta o PM reformado a Leandro de Souza Barbosa, outro alvo da Operação Calígula ligado a Rogério Andrade. “Acho melhor somente o pessoal da 16ª DP e os caminhoneiros, pois não sabemos quem está lá”, respondeu Barbosa.

A operação cumpriu 29 mandados de prisão e 119 de busca e apreensão — quatro deles foram em bingos comandados pelo grupo. Na casa da delegada Adriana Belém, os agentes encontraram quase R$ 2 milhões em dinheiro vivo.



Fonte: Fonte: Jornal Extra