Polícia vai usar imagens de câmeras de segurança para tentar esclarecer acusação de racismo no Rio

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A delegada da 14ª DP (Leblon), Natacha Alves de Oliveira, afirmou que vai usar imagens de segurança para esclarecer a acusação de racismo do qual teria sido vítima o instrutor de surfe, Matheus Ribeiro da Cruz, de 22 anos. Segundo ela, Mariana Spinelli relatou ter sido furtada minutos antes do episódio filmado por Matheus, as imagens vão esclarecer a dinâmica dos fatos. Nesta terça-feira, Matheus foi ouvido na delegacia. Intimada para comparecer na quarta, dia 16, a defesa de Mariana pediu para remarcar a oitiva para quinta, quando vai à delegacia acompanhada de Tomás de Oliveira, também envolvido no caso. A delegacia apura o crime de calúnia.

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— Parece que há uma série de coincidências que precisam ser esclarecidas. A bicicleta é do mesmo modelo e o cadeado é do mesmo modelo. As imagens vão ser importantes para entender melhor essa dinâmica. A gente sabe que existe racismo estrutural no Brasil. Isso é inegável. Mas nem sempre é o suficiente para se enquadrar no tipo penal — disse a delegada.

Ao sair da delegacia, Matheus contou que deu depoimento após ser orientado a dar um relato mais detalhado sobre o evento. Anteriormente, a ocorrência fora registrada pelo sistema virtual e remetida à 14ª DP. O estudante de educação física ressaltou que sua intenção não é obter ganhos pessoais, mas mostrar a questão do racismo na sociedade brasileira.

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— Quero com esse depoimento que as pessoas saibam que isso precisa ser levado a sério. Não quero que as pessoas levem o casal como sinônimo de racismo, pois não foi erro deles, foi um erro da sociedade — declarou Matheus.

Matheus Nunes com sua bicicleta elétrica Foto: Reprodução

No depoimento, o instrutor relata que deixou a sua namorada no Shopping Leblon e ficou na calçada da Avenida Afrânio de Melo Franco, aguardando e sentado na bicicleta elétrica. Após cinco minutos, ele relata que uma casal de jovens brancos o abordou, e o rapaz disse: “Você pegou essa bicicleta ali agora”. A menina que o acompanhava continuou: “Foi sim, essa bicicleta é minha”.

Assustado, Matheus precisou provar que se tratava de um engano. Ele disse ter se sentido pressionado pelos dois e com os olhares dos transeuntes e do segurança do shopping, temendo que o pior poderia acontecer. O estudante disse que o rapaz pegou o cadeado da bicicleta sem o seu consentimento e tentou destravar, mas não conseguiu. Em seguida, pediu desculpas, mas Matheus, irritado, pediu ao casal que se retirasse.

— Na hora a gente fica muito em choque e não entende o que está acontecendo. Se eu não fizesse o máximo possível para provar minha inocência ali, ele já teria certeza de que eu era culpado — disse.

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De acordo com a advogada criminalista Priscila Alves, a presunção de inocência, princípio do direito que entende que a pessoa é inocente até que se prove o contrário, ocorre de maneira inversa com as pessoas negras. Segundo a advogada, negros precisam provar o tempo todo para a população de sua inocência, desde os cidadãos comuns até as estruturas de justiça, a começar pelas polícias.

— Na época da Constituinte, nós não trabalhávamos com a questão do racismo estrutural. A sociedade, no entanto, se alimenta do esteriótipo do negro associado à marginalidade.



Fonte: Fonte: Jornal Extra