Polícia do Rio matou três ou mais pessoas em confronto uma vez por semana, em média, nos últimos quatro anos

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Foto: Operação da Polícia Militar no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, deixou nove mortos Foto: Marcia Foletto / Agência O Globo

RIO — Os nove corpos encontrados num mangue após uma operação do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo, no último fim de semana, representam uma situação rotineira nas ações policiais no Rio: as múltiplas mortes em confronto. Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), obtidos via Lei de Acesso à Informação, mostram que, entre janeiro de 2017 e junho de 2021 (último período disponível), 241 ocorrências tiveram três mortes ou mais em tiroteios entre policiais e suspeitos. O número é equivalente a um caso por semana, em média.

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Nesses confrontos com múltiplos homicídios, houve 853 mortes, ou 13% de todas as vítimas em ações policiais no período. Na última sexta-feira, o ISP divulgou os índices de criminalidade de outubro no estado. Nos dez primeiros meses de 2021, foram 1.215 mortes em tiroteios com agentes de segurança. O número está pouco abaixo daquele registrado em todo o ano passado, quando foram registrados 1.245 casos.

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Os dez registros com mais mortes em confronto ocorreram em áreas da capital, de Itaguaí e Itaboraí, municípios da Região Metropolitana, e de Angra dos Reis, na Costa Verde. A operação mais letal da história do estado — comandada pela Polícia Civil no Jacarezinho, em 6 de maio — aparece nos dados do ISP em mais de uma ocorrência (de acordo com os registros feitos pelas diferentes equipes que participaram da ação).

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O teólogo Rumba Gabriel, líder comunitário do Jacarezinho e idealizador do movimento popular de favelas, lembra com tristeza daquele dia, que, segundo ele, deixou sequelas nos moradores:

— Eles (os policiais) quiseram mostrar que tudo podiam. Quem tinha medo passou a ter muito mais. Até hoje as pessoas se sentem receosas.

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Operação contra a milícia

Em segundo lugar na lista, estão 12 mortos em Itaguaí, que, segundo a versão oficial, eram suspeitos de envolvimento com a milícia de Danilo Dias Lima, o Tandera, chefe da quadrilha que atua na Baixada Fluminense e em parte da Zona Oeste do Rio. Na ação, em 15 de outubro de 2020, o grupo abriu fogo contra equipes da Polícia Civil e da Polícia Rodoviária Federal (PRF) na Rodovia Rio-Santos. Os agentes dizem que foram atacados a tiros de fuzis, metralhadoras e pistolas.

— Nosso problema no país é não evitar o empoderamento das facções criminosas e deixar de investir em operações de qualidade. Uma operação bem feita tem dados de inteligência de investigação para surpreender criminosos em seus momentos mais frágeis, e em que mais se investe é em força, não em tecnologia. Se a operação deixou mortos é um indicador de que não foi bem-sucedida — diz o coronel da reserva Robson Rodrigues, antropólogo e pesquisador do Laboratório de Análise de Violência, da Uerj.

Na semana passada, estava previsto o julgamento do mérito da Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 635 no Supremo Tribunal Federal (STF). A pedido do ministro Alexandre de Moraes, entretanto, a sessão foi adiada para 2 de dezembro. A ADPF tem como objetivo restringir as operações policiais durante a pandemia.

— O índice de criminalidade que temos hoje é problema da União. É preciso haver emendas constitucionais para reorganizar a atuação policial. Não vemos um candidato à Presidência com políticas que transformem o modelo de atuação para todas as esferas de governo. Não adianta o Estado ou município atuarem separadamente. Para mim, sem uma transformação profunda, casos como esses vão acontecer sempre — reforça Rafael Medina, advogado criminalista e doutor em Direito Penal pela Uerj.

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Em nota, a PM afirmou que o estado teve o menor índice de homicídios dolosos no ano desde o início da série histórica, com queda de 5% em comparação ao período de janeiro a outubro 2020, e que seu objetivo é atuar de forma segura para a preservação da vida. Já a Polícia Civil diz que realiza ações baseadas nos pilares de inteligência, investigação e ação, e vê redução nos índices. Diz, também, que cumpre a decisão da ADPF 635.



Fonte: Fonte: Jornal Extra