Policia Civil faz operação contra receptadores de celulares roubados; Carminha Jerominho é alvo

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A Polícia Civil, através da Delegacia de Roubos e Furtos de Carga (DRFC), desencadeou uma operação, nesta quinta-feira, contra receptadores, em sua maioria, de alguns dos 600 aparelhos de telefone celular, avaliados em R$ 3,2 milhões, que foram roubados em março do ano passado, numa ação criminosa no terminal de cargas do Aeroporto Internacional do Galeão. Ao todo, até o momento, 17 pessoas foram detidas e levadas à sede da especializada, na Cidade da Polícia. Entre elas, a ex-vereadora Carminha Jerominho, e dois policiais militares, um do 9ºBPM (Rocha Miranda) e outro do 22ºBPM (Maré), que foram conduzidos pela Corregedoria da Polícia Militar para prestar esclarecimentos. Três donos de lojas foram presos por receptação qualificada. Até o momento, cerca de 250 aparelhos foram recuperados.

Um dos alvos da operação foi a ex-veradora Carminha Jerominho, filha de Jerônimo Guimarães Filho, o Jerominho, apontado como líder de uma das maiores milícias do estado. Pela manhã, policiais bateram à sua porta, mas não a encontraram. Ela foi localizada na casa de uma vizinha. Carminha é uma das 13 pessoas que foram identificadas com celulares da carga roubada no Galeão. Ela não foi detida em flagrante por não estar com os aparelhos, que ela disse ter comprado para o pai e para a mãe. No entanto, foi conduzida à delegacia para prestar esclarecimentos. Cerca de uma hora depois, o tio, Natalino José Guimarães, também acusado de liderar uma milícia ao lado do irmão, esteve na delegacia, onde entregou os dois celulares.

— Eles estão fazendo o trabalho deles, a gente não tem que questionar o trabalho da polícia, eu comprei de fato dois celulares numa loja, em Campo Grande, tá tudo direitinho no extrato do cartão, parcelado, a polícia bateu que são os aparelhos e a gente tem que vir aqui prestar depoimento — explicou Carminha na chegada à Cidade da Polícia.

Natalino, irmão de Jerominho, e a sobrinha, Carminha Jerominho, na Cidade da Polícia Foto: Fabiano Rocha / Agência O GLOBO

Pouco antes de entregar os celulares à polícia, Natalino disse estar tranquilo quanto à situação envolvendo Carminha.

— Minha sobrinha pagou o telefone direitinho e vai explicar aqui aos policiais, não tem nada demais, ninguém roubou nada, ninguém matou ninguém, ninguém fez nada — disse o ex-deputado estadual.

A ex-vereadora também explicou o motivo de estar na vizinha e não em casa no momento em que os policiais civis bateram à sua porta. De acordo com ela, sua filha de 10 anos estava nervosa:

— A minha irmã me ligou dizendo que tinha uma busca e apreensão e eu fui levar a minha filha à casa da vizinha, porque ela estava extremamente nervosa, só tem 10 anos de idade, o delegado viu o estado dela, e eu estava tentando tranquilizá-la, ela não me deixava sair. E eu pedi à vizinha para que chamasse o delegado para que ele visse porque eu não estava conseguindo sair. Eu vim de forma voluntária, não tem mandado para me conduzir até aqui, mas eu quero explicar tudo direitinho. Eu comprei (o celular) por preço normal.

Apesar de ter afirmado que foi à delegacia por livre e espontânea vontade, a polícia afirmou, no entanto, que a ex-vereadora foi conduzida a prestar depoimento. Após ter entregado os dos dois celulares, de modelo iPhone 11, e ter pago fiança, Carminha agora responderá em liberdade pelo crime de receptação, que prevê até 1 ano de cadeia.

Lojas emitiam notas fiscais falsas

Após a operação, o diretor do Departamento-Geral de Polícia Especializada, o delegado Felipe Curi, falou sobre a importância de o consumidor perceber e não comprar estes produtos oriundos de roubos.

— Nós sabemos que existem inúmeras lojas e sites em que são comercializados esses aparelhos de telefone, muitas vezes por preços muito inferiores aos que são praticados no mercado. Às vezes, um aparelho que você compra numa loja custa R$ 5 mil e, às vezes, você encontra por R$ 3 mil, R$ 2 mil reais. A pessoa tem que desconfiar disso. Porque a procedência certamente é duvidosa. No mínimo, criminosa. Quem adquire esse tipo de aparelho está cometendo o crime de receptação, está fomentando essa cadeia criminosa, para que mais roubos sejam praticados e, aí, mais aparelhos sejam colocados no mercado. Dessa forma, a cadeia criminosa vai se retroalimentando — disse.

Entre os 17 detidos, estão três lojistas, presos por receptação qualificada. Nestas lojas — uma no Centro, uma em Campo Grande e uma no Shopping Carioca — a polícia descobriu que os responsáveis pelos estabelecimentos, não só adquiriam ilegalmente esses celulares roubados, como também os revendiam usando notas fiscais falsas. Os três foram presos em flagrante e responderão por receptação qualificada, que não cabe fiança, e tem pena de 3 a 8 anos de reclusão.

— Com o prosseguimento das investigações, os três comerciantes ainda podem responder por associação criminosa, falsificação de documento e uso de documentos falsos — disse o delegado Vinícius Domingos, titular da DRFC, que comandou a ação. — Eles, de forma ostenstiva, falsificam documentos para dar uma aparência lícita a esses aparelhos. Num dos casos, uma das pessoas conduzidas se tornou até vítima de estlionato de uma dessas empresas.

Lojista preso e material apreendido em loja no Centro do Rio: notas fiscais falsas eram emitidas a clientes
Lojista preso e material apreendido em loja no Centro do Rio: notas fiscais falsas eram emitidas a clientes Foto: Divulgação

O delegado acrescenta que é essencial que o consumidor preste atenção aos cuidados mínimos na hora de comprar esses aparelhos celulares, e ressalta a responsabilidade de quem finge não saber a origem dos aparelhos, mesmo observando, por exemplo, valores muito abaixo dos praticados no mercado.

— Grande parte dos conduzidos vão responder por receptação porque não se atentaram ao fato de pediir nota fiscal, algo simples, mas muito importante para frear essa cadeia criminosa. A DRFC vem atuando contra os ladrões, contra os revendedores formais ou informais e contra o público que deliberadamente não toma os devidos cuidados para adquirir esses aparelhos e retroalimentar essa cadeia criminosa. O destinatário final tem que ter a consciência de que não tendo o devido cuidado, ele está manchando sua mão com sangue dos policiais, dos motoristas e dos civis, que são vítimas dessas quadrilhas especializadas que atuam em rodovias estaduais e federais e, como bem dito, nesses centros de distribuição — disse Domingos.

Sobre o crime que originou a operação, no Galeão, que aconteceu no dia 7 de março do ano passado, há quase um ano, o delegado Vinícius Domingos destacou o quanto a ação mostra a sofisticação desses criminosos, e revelou que a polícia investiga a participação interna de funcionários em casos como este, que só poderiam ser executados de tal maneira por meio de informações privilegiadas. As investigações sobre o caso no aeroporto ainda estão em andamento, mas a polícia já sabe que o crime foi cometido uma quadrilha especializada que é financiada pelo tráfico de drogas do Complexo da Maré.

— Esse crime demonstra mais uma vez que se tratam de quadrilhas especializadas. Ninguém chegaria ali num caminhão, numa área que é pra fazer carga e descarga, num galpão em que se sabia que havia uma grande quantidade de celulares, sem nenhuma informação. Eu não posso antecipar parte da investigação aqui, mas aquela operação contou com pelo menos quatro criminosos armados, que só não foram em maior quantidade porque certamente tinham informações privilegiadas. Mas essa mesma quadrilha atua em rodovias, no Arco Metropolitano e demais rodovias. A gente coíbe isso, mas eles atuam com oito, às vezes até 20 criminosos. Em alguns casos, até com carros caracterizados de empresa ou caminhões com o mesmo logotipo que os originais.

O rastreamento e a localização dos aparelhos roubados em áreas de milícia, sobretudo na Zona Oeste, abriram os olhos dos investigadores, também, para a possibilidade de influência da milícia nessa rede criminosa.

— Sabemos que a cadeia de distribuição dos aparelhos passou para bairros como Campo Grande, Rio das Pedras, Curicica, outros sub-bairros de Jacarepaguá, Paciência e Itaguaí, que são bairros onde reconhecidamente há um controle de grupos milicianos, o que nos leva a crer que há uma participação, se não ao menos na encomenda, numa distribuição desses aparelhos, porque seria muita coincidência. A polícia apura isso — contou.

Celulares revendidos em sete regiões

A operação foi montada com base em dados coletados em duas apurações sobre quadrilhas especializadas em roubos de cargas — especificamente aquelas que miram telefones celulares de última geração. De acordo com a polícia, os aparelhos eram revendidos a moradores dos bairros de Campo Grande, Sepetiba, Paciência, Curicica, Tanque e Rio das Pedras, na Zona Oeste, e de Itaguaí, na Baixada Fluminense.

A ação foi batizada de Operação Cegueira Deliberada. Agentes da DRFC e de mais 12 unidades especializadas e unidades do interior participam da ação. Os agentes visam a cumprir mandados de busca e apreensão em vários bairros do Rio e no município de Volta Redonda, no Sul Fluminense. Todos os presos vão responder pelo crime de receptação.

O nome da operação é uma referência ao fato de que muitos dos receptadores de celulares alegam que não conheciam a origem ilícita dele, mas deixam de verificar, de forma deliberada, esse fator. Eles não pedem a nota fiscal e dados dos vendedores. A DRFC disponibilizou o número (21) 2202-0510 para denúncias.



Fonte: Fonte: Jornal Extra

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