PF mira Banco Digimais, de Edir Macedo, e bloqueia R$ 670 milhões em investigação sobre fraudes financeiras

Operação Miragem apura suspeitas de manipulação contábil, ativos superavaliados e operações irregulares; caso atinge banco associado ao fundador da Igreja Universal, denominação nascida no Rio de Janeiro

A Polícia Federal deflagrou a Operação Miragem contra o Banco Digimais, instituição financeira controlada pelo ‘bispo’ Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus. A ação, autorizada pela Justiça Federal em São Paulo, cumpriu mandados de busca e apreensão, quebrou sigilos bancário e fiscal de investigados e determinou o bloqueio e sequestro de bens e valores de até R$ 670 milhões.

Segundo a PF, a investigação apura crimes contra o Sistema Financeiro Nacional. Relatórios do Banco Central apontaram indícios de que demonstrativos contábeis e registros regulatórios teriam sido manipulados para esconder a real situação financeira da instituição, aparentar solvência diante dos órgãos de controle e viabilizar operações consideradas suspeitas.

O caso atinge em cheio um dos braços empresariais ligados a Edir Macedo, personagem central da história religiosa, midiática e política do Brasil nas últimas décadas. Embora o líder religioso não tenha sido alvo de mandado de busca por residir no exterior, a Justiça autorizou bloqueio de bens ligados ao caso. O banco, por sua vez, afirma colaborar com as autoridades e nega irregularidades, e a assessoria de Macedo garante que ele não participa na gestão da instituição.

A investigação aponta que o Digimais teria utilizado mecanismos semelhantes aos que ficaram conhecidos no caso Banco Master, outro escândalo recente do sistema financeiro nacional. De acordo com as apurações divulgadas pela imprensa, a PF vê semelhanças no uso de ativos superavaliados, operações contábeis complexas, emissão de CDBs com remuneração elevada e estruturas que poderiam criar uma aparência de solidez maior do que a real.

Um dos pontos centrais da apuração envolve créditos judiciais e outros ativos que, segundo os investigadores, teriam sido adquiridos por valores muito inferiores e depois registrados nos balanços por cifras muito mais altas. Reportagens apontam que direitos creditórios comprados por cerca de R$ 71 milhões teriam passado a ser contabilizados por mais de R$ 741 milhões após sucessivas reavaliações. Para a PF, esse tipo de operação poderia inflar artificialmente o patrimônio da instituição.

A Polícia Federal também investiga a possível superavaliação de outros ativos, entre eles títulos antigos, terrenos e carteiras de automóveis. O objetivo, segundo os investigadores, seria reforçar o balanço do banco e permitir uma captação maior de recursos no mercado, especialmente por meio de CDBs. A suspeita é grave porque, no sistema financeiro, a confiança do investidor depende justamente da correção das demonstrações contábeis e da fiscalização regulatória.

A Operação Miragem também reacendeu o debate sobre o Fundo Garantidor de Crédito, o FGC. Segundo reportagens, a venda do Digimais ao BTG Pactual estaria relacionada à necessidade de uma injeção bilionária para cobrir déficits da instituição. Para os investigadores, havia risco de que prejuízos decorrentes de eventual má gestão fossem empurrados para o sistema de proteção financeira criado para resguardar correntistas e investidores.

O Digimais já vinha tentando mudar de mãos. Em abril, o BTG Pactual anunciou acordo para adquirir a instituição. Antes disso, em 2025, houve uma tentativa de venda para grupo liderado por Maurício Quadrado, executivo que havia passado pelo Banco Master. O negócio acabou não avançando. A sucessão de tentativas de venda, somada à investigação da PF, reforça a percepção de que o banco atravessava uma situação delicada.

Outro capítulo constrangedor voltou à tona com a operação: o episódio envolvendo a “socialite” Val Marchiori e um Porsche Cayenne branco. Reportagens lembraram que o ex-CEO do banco teria facilitado a aquisição do carro de luxo para a empresária, em um caso que acabou judicializado. O automóvel foi penhorado e levado a leilão por determinação da Justiça de São Paulo para abatimento de dívidas. O episódio, que já era embaraçoso para a imagem do banco, reaparece agora em meio à apuração sobre favorecimentos, concessões de crédito e práticas de antigos executivos.

A crise também ganhou contornos políticos em São Paulo. O governador Tarcísio de Freitas passou a ser cobrado por parlamentares da oposição devido ao credenciamento do Banco Digimais para operar crédito consignado junto a policiais militares paulistas. O banco foi habilitado em agosto de 2025, com validade até 2030, para atuar no sistema estadual de consignações. Críticos afirmam que, à época, a instituição já apresentava sinais de dificuldade financeira.

O governo paulista respondeu que não houve contratação direta nem escolha discricionária, mas sim credenciamento público em um sistema existente há mais de uma década, com mais de uma centena de instituições habilitadas. O Palácio dos Bandeirantes afirmou ainda que o Digimais atenderia aos requisitos exigidos no momento do credenciamento, inclusive perante o Banco Central, e que avalia medidas cautelares.

Para o Rio de Janeiro, o caso tem uma conexão evidente. A Igreja Universal do Reino de Deus nasceu na capital fluminense, em 1977, a partir da pregação de Edir Macedo nos subúrbios cariocas. O movimento que começou em espaços modestos, com origem associada ao Méier e depois à Abolição, transformou-se em uma das maiores denominações neopentecostais do país, com presença internacional, forte atuação política, rede de comunicação e negócios em diferentes áreas.

Quase cinquenta anos depois, um dos empreendimentos financeiros associados ao fundador da Universal aparece no centro de uma investigação federal de grande repercussão. Para um grupo que construiu sua expansão pública apoiado em mensagens de fé, prosperidade, confiança e vitória, a associação de seu banco a suspeitas de manipulação contábil, rombo bilionário e bloqueio de centenas de milhões de reais representa um desgaste difícil de ignorar.

É importante registrar que as investigações ainda estão em curso e que não há condenação relacionada aos fatos apurados na Operação Miragem. Também é necessário distinguir responsabilidade empresarial, controle acionário e gestão operacional. A própria Universal afirma que Edir Macedo não integra a administração executiva nem participa da gestão operacional, financeira ou contábil do Digimais.

Mas o fato jornalístico permanece: o banco ligado ao fundador da Igreja Universal entrou na mira da Polícia Federal em uma investigação que combina suspeitas de fraude financeira, questionamentos regulatórios, tentativas frustradas de venda, pressão política em São Paulo e episódios de luxo e favorecimento envolvendo antigos executivos.

O que começou no Rio como uma denominação religiosa de subúrbio tornou-se um dos maiores impérios religiosos e empresariais do país. Agora, um de seus braços financeiros terá de responder às perguntas da Polícia Federal, do Banco Central, do mercado e dos clientes.

O outro lado

A Universal divulgou a seguinte nota de esclarecimento:

“Em relação às investigações envolvendo o nome do Banco Digimais, informamos que o Bispo Edir Macedo não integra a administração executiva nem participa da gestão operacional, financeira ou contábil da instituição.

A condução das atividades é de responsabilidade exclusiva dos executivos e profissionais legalmente habilitados para responder perante os órgãos reguladores. Reiteramos nossa plena confiança na lisura das apurações conduzidas pelas autoridades competentes. Os advogados acompanham o processo de perto para garantir a rápida elucidação da verdade.

Infelizmente, não podemos expressar a mesma confiança em alguns veículos de notícias que historicamente, há décadas, alvejam o Bispo Macedo e a Igreja Universal com notícias falsas, tendenciosas e maldosas.

Acima de tudo, e sempre, confiamos em Deus.

UNIcom – Departamento de Comunicação Social e de Relações Institucionais da Universal”

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