Moradores do Jacarezinho são agredidos ou ameaçados caso comprem botijões de gás fora da favela, diz polícia

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Após o EXTRA revelar, nesta segunda-feira, que o crime organizado já controla até 80% da venda de botijões de gás de cozinha no estado do Rio, segundo a Associação Brasileira dos Revendores de GLP (Asmirg), a Polícia Civil realizou hoje uma operação para combater a comercialização irregular do item na favela do Jacarezinho, na Zona Norte da cidade. A ação, comandada pela Delegacia de Defesa de Serviços Delegados (DDSD) e apoiada por outras unidades especializadas, identificou, após um trabalho de inteligência, três estabelecimentos que vendiam os botijões a preços bem acima dos praticados pelo mercado oficial.

De acordo com a polícia, investigações apontaram que os revendedores de gás que atuam na favela são obrigados a comprar botijões de um único fornecedor e a pagar uma taxa por item vendido aos traficantes que agem na região, fazendo com que os consumidores se deparem com preços muito elevados dentro da comunidade. Contudo, os moradores também são impedidos de comprar os botijões fora do Jacarezinho, o que chega a ocasionar episódios de violência ou grave ameaça por parte dos criminosos.

Na operação de hoje, dois suspeitos foram presos em flagrante por crime contra a ordem econômica, que é inafiançável. Os locais passaram por perícia, e dezenas de botijões foram apreendidos. Além das prisões, a Polícia Civil vai instaurar um inquérito para apurar a prática de monopólio na venda do gás no interior da favela. A DDSD afirma que realizará novas ações semelhantes nos próximos dias, “até que haja regularização da atividade e os moradores dessa comunidade possam pagar pelo botijão de gás o preço de mercado, sem qualquer tipo de majoração ilegal”.

Em um vídeo postado nas redes sociais, o secretário de Polícia Civil, Allan Turnowski, reforçou que a instituição vai agir para coibir o monopólio de traficantes e milicianos que controlam a venda de gás estado afora. O delegado afirmou que a principal linha de atuação da polícia para combater a prática terá foco em investigações de lavagem de dinheiro.

— Nessas comunidades controladas por traficantes e milicianos, normalmente há um monopólio na venda do gás. Só uma bandeira fornece para aquela área. Aí, o criminoso coloca um sobrepreço no valor do botijão, que é a taxa que a comunidade carente acaba pagando. O que a gente está fazendo é uma investigação de lavagem de dinheiro junto a esse monopólio, (permitindo) a abertura da livre concorrência, para acabar com a exploração dessas pessoas, que poderão pagar o preço oficial — discursou Turnowski.

Nesta segunda-feira, a Polícia Militar, através do Comando de Polícia Ambiental (CPAm), também interditou um local que comercializava ilegalmente o gás de cozinha na Muzema, na Zona Oeste da cidade. A comunidade, ao lado do próprio Jacarezinho, é a primeira a receber ações do recém-lançado Cidade Integrada, principal aposta do governado Cláudio Castro na área da segurança pública neste ano de eleições.

Ainda no contexto do novo projeto, o governo estadual anunciou que distribuirá um voucher para compra de gás nas duas comunidades. De acordo com o que foi divulgado, o auxílio deverá ser utilizado apenas em distribuidores regulamentados, de modo a “cortar a fonte de renda das quadrilhas”. Questionado pelo EXTRA, o governo não explicou como pretende fazer o controle do benefício recém-criado, o que tampouco foi esclarecido na apresentação oficial do programa, no último sábado.

Revenda ilegal de gás foi localizada pela PM na Muzema
Revenda ilegal de gás foi localizada pela PM na Muzema Foto: Divulgação

Ao menos R$ 25 milhões mensais

Os números do setor de gás de cozinha apontam o quão lucrativos podem ser os negócios ilegais. O Rio é responsável pelo terceiro maior mercado do país, atrás apenas de São Paulo e Minas Gerais. O estado conta com 1.815 revendas varejistas devidamente autorizadas pela Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), responsável por fiscalizar o setor. São pouco mais de 2 milhões de botijões comercializados todos os meses, dos quais ao menos 1,4 milhão, nas contas da Asmirg, fazem parte da cadeia controlada pelo crime organizado.

A pesquisa periódica da ANP aponta que, atualmente, o preço médio do botijão de 13kg em solo fluminense é de R$ 92,31. Já investigações da Polícia Civil indicam que a taxa imposta pelos bandidos costuma ser de, no mínimo, 20% sobre o valor original, o que faz com que, nessas áreas, o produto custe ao menos R$ 110, podendo ir a R$ 120 ou R$ 130. Uma matemática que resulta em um lucro bruto mensal superior a R$ 25 milhões com a prática criminosa no estado.

Além do voucher anunciado pelo governo do Rio, o governo federal também criou um benefício que tenta ajudar a população a combater os efeitos da inflação galopante sobre o preço do botijão. O Auxílio Gás, cuja primeira parcela está sendo paga este mês, vai favorecer, de acordo com o Ministério da Cidadania, 494.934 famílias fluminenses, que receberão R$ 52 cada para ajudar na compra do botijão, totalizando R$ 26 milhões.

Há o temor, porém, de que o alívio no orçamento das famílias acabe, no fim da linha, alimentando indiretamente os caixas das quadrilhas que controlam o negócio. Só com a primeira parcela do Auxílio Gás federal, entre R$ 18 milhões e R$ 20,6 milhões podem parar nos cofres de distribuidores ligados ou explorados pelos criminosos.

O problema ocorre, sobretudo, em favelas e áreas conflagradas, onde as quadrilhas agem cooptando vendedores clandestinos, impondo ágio sobre o preço normal, obrigando consumidores a pagarem mais caro pelo gás e até lavando dinheiro oriundo de outras práticas ilícitas. De acordo com a Asmirg, que reúne comerciantes do gênero de todo o país, a situação é especialmente grave na Região Metropolitana, que concentra 72,5% das famílias favorecidas pelo auxílio federal.



Fonte: Fonte: Jornal Extra