Inspetor ‘agiu em favor do alto escalão da Polícia Civil’, diz MP; Justiça determina instalação de tornozeleira eletrônica

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De acordo com o Ministério Público do Rio (MPRJ), diversos agentes das polícias Civil e Militar atuaram em benefício do bicheiro e contraventor Rogério de Andrade e do policial reformado Ronnie Lessa para que eles não fossem punidos por seus crimes e envolvimento com contravenção. Inclusive no jogo do bicho. O que chamou a atenção dos promotores foi a participação do inspetor Vinícius de Lima Gomez. Ao contrário do informado anteriormente pelo EXTRA, o agente é lotado no serviço de transportes da Polícia Civil, na Praça da Bandeira. Anteriormente ele atuou na 7ª DP (Santa Teresa). A denúncia do MP classifica Vinicius como receptor de propinas e “pilar central de um dos acertos corruptivos firmados” com a Polícia Civil, para permitir a reabertura e o funcionamento de uma casa de ilegal de jogos de azar, no Quebra-Mar, na Barra da Tijuca.

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O juiz Bruno Monteiro Rulière, da 1ª Vara Criminal Especializada da Capital, não decretou a prisão de Vinícius. O magistrado aplicou ao inspetor penas como a instalação de uma tornozeleira eletrônica e a suspensão por 180 dias das funções na Polícia Civil, além da proibição de manter contato com os outros investigadores. Determinou ainda que as sanções sejam informadas ao atual secretário da Polícia Civil, Fernando Antônio Paes de Andrade Albuquerque.

Em 31 de março deste ano, promotores do MP fizeram buscas na casa do policial. Na ocasião, os agentes recolheram vários documentos e equipamentos eletroeletrônicos. De acordo com o MP, “a parceria entre Rogério de Andrade e Ronnie Lessa para a prática de ações criminosas é apontada nas denúncias como antiga, havendo elementos de prova de sua existência ao menos desde 2009”.

Segundo o MP, “os diálogos transcritos às folhas 303/305 evidenciam que o réu Vinicius de Lima Gomez ostenta uma peculiar proximidade tanto com os supostos criminosos atuantes no Estado do Rio de Janeiro, quanto com agentes públicos que ocuparam o alto escalão da Polícia Civil fluminense. (cite-se Relatório Informativo Gaeco nº 022/2022). No material probatório, há um volume relevante e muito significativo de dados que confere plausibilidade à afirmação do MP de que o denunciado Vinicius é personagem emblemático, especialmente porque flutua com peculiar destreza entre os dois polos de uma conturbada e inexplicável relação de proximidade existente entre a polícia e o crime organizado”.

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“A luz de cognição sumária, o policial civil Vinicius figurou como pilar central de um dos acertos corruptivos firmados com a PCERJ, com o escopo de permitir a reabertura da já citada casa ilegal de jogos de azar, situada na localidade conhecida como “Quebra-Mar”, na Barra da Tijuca, e seu consequente livre funcionamento”, informa a denúncia.

Ainda segundo os promotores, “a organização estabeleceu acertos de corrupção estáveis com agentes públicos integrantes de diversas esferas do Estado, principalmente ligados à Segurança Pública, incluindo tanto agentes da Polícia Civil, quanto da Polícia Militar do Rio”. Nesta esfera, integrantes da organização, membros da Polícia Civil, mantinham contatos permanentes com outros policiais corruptos, pactuando o pagamento de propinas em contrapartida ao favorecimento dos interesses do grupo liderado por Rogério. Por outro lado, oficiais da Polícia Militar serviam de elo entre a organização e Batalhões de Polícia, que recebiam valores mensais para permitir o livre funcionamento das casas de aposta do grupo.

Agente do MPRJ em um bingo na Barra da Tijuca Foto: Divulgação/MPRJ

Não há mandado de prisão contra Vinícius, mas o juiz Bruno Monteiro Rulière, da da 1ª Vara Criminal Especializada, determinou medidas cautelares, como: “comparecimento bimestral em juízo, entre os dias 1 e 10, para informar e justificar atividades, bem como o comparecimento a todos os atos do processo, sempre que regularmente intimado, devendo informar ao juízo eventual mudança de endereço; proibição de ausentar-se da comarca sem prévia autorização judicial; proibição de manter contato com os demais acusados, ainda que por interposta pessoa, bem como de acesso a endereços vinculados aos demais acusados; monitoração eletrônica; e suspensão/vedação ao exercício das funções públicas junto a Polícia Civil do Rio de Janeiro por 180 (cento e oitenta) dias, sem prejuízo de reavaliação da necessidade de manutenção da medida a qualquer momento”.

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‘Vantagens indevidas’

Também de acordo com a denúncia, “em data imprecisa, mas certo que no período compreendido entre 24 de julho de 2018 e 17 de outubro de 2018, na cidade e comarca do Rio de Janeiro, o ora denunciado Vinicius de Lima Gomez, vulgo VN, agindo de forma consciente e voluntária, previamente ajustado e em unidade de desígnios com outros agentes públicos ainda não identificados, solicitou e recebeu, para si ou para outrem, direta ou indiretamente, ainda que fora da função de policial civil do Estado do Rio de Janeiro, mas em razão dela, vantagens indevidas, bem como aceitou promessa de tais vantagens, em consequência das quais retardou e deixou de praticar atos de ofício, ou os praticou infringindo os seus deveres funcionais. Nas condições de tempo e local acima consignadas, o denunciado Vinicius, no exercício da função pública de Policial Civil e em razão dela, ao lado de outros agentes estatais ainda não identificados, mas certamente a ele superiores, recebeu vantagens indevidas, bem como aceitou promessas de tais vantagens, oriundas de integrantes da organização criminosa”.

Em um destes episódios, o delegado Marcos Cipriano intermediou encontro entre Ronnie Lessa, Adriana Cardoso Belém, então delegada de Polícia titular da 16ª DP (Barra da Tijuca), e o inspetor de polícia Jorge Luiz Camillo Alves, braço direito de Adriana Belém, culminando em acordo que viabilizou a retirada em caminhões de quase 80 máquinas caça-níquel apreendidas em casa de apostas da organização criminosa, tendo o pagamento da propina sido providenciado por Rogério de Andrade.

O policial civil aposentado Amaury Lopes Júnior foi denunciado como o elo do grupo com diversas delegacias
O policial civil aposentado Amaury Lopes Júnior foi denunciado como o elo do grupo com diversas delegacias Foto: Reprodução

Na mesma linha de atuação, foi denunciado como integrante do grupo o policial civil aposentado Amaury Lopes Júnior, elo do grupo com diversas delegacias; enquanto o inspetor Vinícius de Lima Gomez foi denunciado como receptor de propinas, agindo em favor de integrantes do alto escalão da Civil.

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Em nota, a Civil destacou que “ambos os delegados alvos da operação não tem cargos na Polícia Civil atualmente. Adriana Belém está afastada de licença e Cipriano trabalhando em outra instituição e que “a Corregedoria solicitará acesso às investigações para dar andamento aos processos administrativos necessários”.

O advogado Bruno Castro, que defende Ronnie Lessa, divulgou a seguinte nota: Soubemos pela imprensa do ocorrido. Nós ainda vamos nos inteirar do que está acontecendo. Saber se há alguma acusação, qual acusação e quais os elementos que subsidiam ela. Por enquanto, não temos como nos posicionar. Estamos no escuro.

A defesa de Rogério Andrade, representada pelo advogado Ary Bergher, também se manifestou por nota: Essa operação além de não deixar demonstrado a necessidade da prisão cautelar do Rogério, se mostra claramente uma afronta ao STF que acaba de conceder o trancamento de uma ação penal contra ele. Isso vem ocorrendo desde juízes como o De Sanctis, Marcelo Bretas e Sérgio Moro, que tentam burlar as decisões do STF.



Fonte: Fonte: Jornal Extra