‘Eu só quero minha Rafa de volta’, diz avó de menina morta na porta de casa em Meriti

Rafaelly da Rocha Vieira, de 10 anos, morreu baleada em São João de Meriti Foto: Reprodução

Rosa Maria Pacheco perdeu na última noite a sua única neta, Rafaelly da Rocha Vieira, morta a tiro perto de sua casa, em São João de Meriti, na Baixada Fluminense. Na porta do Instituto Médico-Legal de Duque de Caxias, para onde foi levado o corpo da menina, a avó disse com a voz embargada o seu sentimento diante dessa situação.

— Não tenho palavras, eu só quero a minha Rafa de volta. Ela era minha única netinha. Não tenho palavras para descrevê-la, era uma ótima criança. É um momento muito difícil, ela era só uma criança. Completou 10 aninhos no dia 20, e agora… Cadê a Rafa? Eu só posso pedir forças — lamentou Rosa, que trabalha com serviços gerais.

Rosa Maria se desespera com a morte da neta Rafaelly
Rosa Maria se desespera com a morte da neta Rafaelly Foto: Lucas Tavares / Agência O Globo

Elza Alaíde, madrinha de Rafaelly, revoltou-se com mais uma criança morta a tiro no Rio de Janeiro:

— Virou uma coisa banal, uma criança ser morta na escola, dentro ou na porta de casa. Não foi só o caso da minha afilhada, isso agora virou regra, não é mais a exceção.

O enterro, segundo a madrinha, será amanhã no Cemitério da Vila Rosali, ainda sem horário definido.

Marido de Rosa, Wellington Ladislau conta que foi um choque saber da morte da menina, que ele viu nascer:

— A gente vê a violência pela televisão, e hoje quem chora somos nós — diz Wellington, que mora próximo ao local do crime, numa rua transversal à Avenida Getúlio de Moura, uma das principais vias do Centro de São João de Meriti.

Assim que souberam que a criança tinha sido baleada e levada para a UPA do Jardim Iris, os dois foram direto para o local:

— A gente estava em casa. Nós nos deslocamos para a UPA, mas dentro do carro já soubemos da notícia de que ela veio a óbito. Fomos ao local só para chorar e pedir Justiça a Deus — diz Wellington.

Demora na liberação do corpo

O corpo de Rafaelly foi liberado pouco antes de meio-dia. De plantão na porta do IML desde as 5h30, a família reclamou da demora no atendimento.

— Chegamos aqui e não tinha um legista. O corpo está sem refrigeração, é uma situação constrangedora. A gente fica de mãos atadas. Ficamos à mercê do órgão competente. Um funcionário falou que provavelmente umas 9h30 iria acontecer a liberação (que só ocorreu perto das 12h) — contou Wellington Ladislau.

João Luiz Silva, membro da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, esteve no IML com a família e afirma que vai enviar uma reclamação formal à Secretaria de Polícia Civil.

— Mesmo o corpo estando aqui desde o dia anterior, a família foi informada da chegada do legista só às 10h. Já é quase meio-dia e ainda não receberam nem o resultado da autópsia. Isso é uma violação do direito da família, que não pode viver o luto de forma digna, isso prolonga o sofrimento, com o descaso que o Estado trata as vítimas — afirma o representante da Comissão. — Não há de se falar em bala perdida, porque assim você trata como mera fatalidade e, no geral, essas balas sempre encontram os corpos pretos, pobres e da periferia.

A prima de Rosa, Lucimar Cotta, relata que a criança estava brincando quando foi atingida:

— Ela estava brincando no quintal, na rua Doutor Monteiro de Barros, esquina com a Getúlio de Moura, quando se assustou com os tiros e correu em direção à rua, quando foi baleada no tórax — explica.

Em nota, a Polícia Civil informa que a Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense (DHBF) investiga a morte de Rafaelly. Segundo testemunhas ouvidas, “um carro não identificado passou pela rua atirando” e, por isso, a investigação busca imagens de câmeras de segurança, além de realizar lutas diligências, para identificar a autoria dos disparos.

Já a Secretaria de Saúde de São João de Meriti, Rafaelly deu entrada na Upa de Jardim Iris às 19h40 desta quarta-feira, “vítima de lesão por arma de fogo”. A menina, que completou 10 anos no último dia 20, “teve parada cardiorrespiratória e todas as tentativas de salvamento foram realizadas, mas infelizmente, sem sucesso”.

A Polícia Militar informa que o 21º BPM (São João de Meriti) não fazia operação no local no momento em que Rafaelly foi atingida, mas que prestou auxílio no resgate após uma equipe que fazia patrulhamento no Centro da cidade ter sido abordada pelo condutor de um carro, “o qual informava que estava socorrendo uma pessoa ferida por disparo de arma de fogo”.

Menino morto em Meriti em 2020

Em julho de 2020, Ítalo Augusto de Castro Amorim, de 7 anos, estava brincando na porta de casa, na Rua Ceci, no Éden, quando foi atingido por um disparo. Ele chegou a ser levado para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) do bairro, mas chegou ao local morto.

De acordo com informações do 21º BPM (São João de Meriti), uma equipe do batalhão realizava um patrulhamento de rotina perto do local onde Ítalo estava quando foi atacada a tiros por traficantes. Um dos disparos teria atingido o menino. A Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense (DHBF) foi acionada para fazer uma perícia no local.

Fonte: Fonte: Jornal Extra