Dívida com Adriano da Nóbrega pode ter motivado execução de ex-policial civil, revela escuta

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Uma ligação telefônica interceptada pela polícia indica a participação do miliciano Adriano da Nóbrega e de seus comparsas na execução de um ex-policial civil. A conversa que põe a quadrilha do ex-capitão do Bope sob suspeita aconteceu às 18h16 de 27 de julho de 2019 e teve como participantes Tatiana Magalhães da Nóbrega, irmã de Adriano, e o ex-PM Valdemi Gomes Júnior, o Cabeça, segurança e homem de confiança da família do miliciano. No diálogo, os dois falam sobre a insatisfação de Adriano com um homem que não havia pago uma dívida que tinha com o ex-PM relativa a um “carro grandão preto”. Poucas horas depois, Marcelo da Silva Rangel, apontado como integrante da milícia de Curicica ligado a Adriano, foi executado a tiros dentro de uma picape preta na Zona Oeste do Rio.

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A conversa começa com Cabeça perguntando a Tatiana “com quem está aquele carro grandão preto”. A irmã de Adriano responde que “está com aquele menino da Barra (da Tijuca) que andava com ele”, uma referência a Adriano, segundo o relatório das escutas elaborado pela Polícia Civil. Como, na época, o miliciano estava foragido, seus comparsas evitavam falar seu nome nas ligações.

Carro da vítima

Em seguida, Tatiana acrescenta que “ele comprou o carro obrigado”. Segundo os investigadores escreveram no relatório, “pelo teor da ligação, entende-se que o atual dono do carro teria sido obrigado a comprar, provavelmente devido a alguma dívida, e que essa transação teria sido efetuada em uma concessionária, pois o veículo teria sido financiado”. Cabeça, então, revela que o novo dono do carro “está fazendo pirraça e não está pagando” o veículo. Tatiana diz que “ele ficou puto”, numa nova referência a Adriano. O interlocutor responde que o carro “está com busca e vai rodar”.

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No final do diálogo, Tatiana pergunta se “não seria bom ele saber que não está pagando”. O segurança afirma que “daqui a pouco aquele moço vai saber e vai contar pra ele” — se referindo a Adriano. O relatório das escutas, obtido pelo EXTRA, faz parte da investigação que culminou na Operação Gárgula, que prendeu, na semana passada, comparsas que passaram a controlar os bens de Adriano após sua morte.

Num dos aparelhos, peritos encontraram uma rara selfie feita por Adriano
Num dos aparelhos, peritos encontraram uma rara selfie feita por Adriano Foto: Reprodução

O ex-policial civil Marcelo Rangel — expulso da polícia em 2004, após ser acusado de um duplo homicídio junto com PMs que integravam um grupo de extermínio — foi morto a tiros em frente à estação do BRT Asa Branca, em Curicica, quando saía de um bar para atender um telefonema dentro de seu carro no fim da noite do dia 27 — ou seja, menos de cinco horas após o diálogo grampeado. Quando o policial abria a porta do veículo, um outro automóvel parou ao seu lado, e vários homens fizeram disparos. Ele morreu no local.

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Testemunhas afirmaram que a vítima havia recebido várias ligações antes do crime, mas não atendeu o celular. Com o ex-policial civil, foi apreendido um envelope com dinheiro, que não foi levado pelos atiradores, o que reforça a suspeita de execução. Segundo o relatório da Polícia Civil sobre as escutas, o crime pode “estar ligado ao fato comentado por Cabeça e Tatiana, pois Marcelo estava em uma picape preta, além do fato de que, segundo informações de inteligência recebidas, Marcelo seria integrante da milícia que atua na região de Curicica e possuiria ligação com Adriano e seus comparsas”. O crime, no entanto, continua sendo investigado pela Delegacia de Homicídios.

Capitão Adriano foi morto durante operação da PM da Bahia
Capitão Adriano foi morto durante operação da PM da Bahia

Decisões em xeque

Outra escuta que faz parte do relatório coloca em xeque as decisões da Justiça que absolveram Adriano ao longo de sua vida. Na ligação, feita apenas dois dias após a morte de Adriano numa operação policial na Bahia, em 9 de fevereiro de 2020, Tatiana, sua irmã, afirma que “o jogo do bicho pagou a absolvição dele“.

Tatiana não especifica quando esse suposto pagamento aconteceu, mas diz que “o tribunal pediu dinheiro a Adriano” a uma mulher que não foi identificada pelos investigadores da Polícia Civil e do MP do Rio. O ex-PM foi absolvido de dois crimes pelos quais respondeu, em 2007 e 2012.

Durante a conversa, Tatiana também revela quem seria o responsável por angariar o dinheiro que teria financiado a absolvição de seu irmão: o pecuarista Rogério Mesquita, amigo e sócio do bicheiro Waldomiro Paes Garcia, o Maninho, morto em 2004. Pouco depois do homicídio, quando estourou uma guerra na família do contraventor por seu espólio criminoso, Rogério Mesquita foi responsável por recrutar Adriano para trabalhar para contravenção.



Fonte: Fonte: Jornal Extra