Com três mortes em 12 dias, avenida no Recreio registra uma multa por excesso de velocidade a cada 12 minutos

0
16


Taxista aposentado, acostumado a rodar pelas ruas da cidade, Cláudio Leite da Silva, de 57 anos, repetia, no fim da madrugada desta segunda-feira, o ritual de todos os dias: pedalar uma distância de até cem quilômetros para, nas palavras dele, “cuidar do corpo e da mente”. Pouco antes das 6h, a duas quadras da casa de Cláudio, no Recreio dos Bandeirantes, Zona Oeste do Rio, a bicicleta de fibra de carbono, apropriada para entusiastas do esporte, virou um amontoado retorcido sob o carro do capitão do Corpo de Bombeiros João Maurício Correia Passos, de 36 anos. Jogado longe com o impacto, o ciclista morreu na hora.

O atropelamento reforça uma estatística de alto risco da Avenida Lúcio Costa, que liga a Barra da Tijuca e o Recreio, palco de outro acidente há menos de duas semanas, quando o jogador de futebol Marcinho atropelou e matou um casal de professores ao dirigir em alta velocidade. Segundo a CET-Rio, a via registrou, em 2019 e 2020, 84.656 multas por excesso de velocidade, uma média de 116 autuações diárias flagradas pelos 18 radares espalhados, nove em cada sentido, por pouco mais de 16 quilômetros. É como se, em média, um motorista extrapolasse o limite de 70 km/h a cada 12 minutos ao passar pela via. Testemunhas relatam que era esse o caso do bombeiro que matou Cláudio.

— Esse tipo de acidente é corriqueiro e frequente aqui na região. Mesmo com radares, é possível notar quem anda acima da velocidade. Principalmente no fim da madrugada, hora em que saímos para pedalar — lamenta Eduardo Augusto, amigo de Cláudio e também ciclista.

O taxista aposentado Cláudio Leite da Silva, de 57 anos, morreu após ser atropelado por um carro Foto: Arquivo pessoal

A irresponsabilidade de quem trafega pela região reflete-se nos dados sobre mortes em acidentes. Informações do Instituto de Segurança Pública (ISP) mostram que, de janeiro a novembro de 2020, nas áreas da 16ª DP (Barra da Tijuca) e da 42ª DP (Recreio), bairros cortados pela Lúcio Costa, ocorreram 37 homicídios culposos no trânsito, estatística que inclui tanto atropelamentos quanto colisões. O número representa um aumento de 32,1% em relação ao mesmo período do ano anterior. E, desde 2008, quando teve início a Operação Lei Seca, o total só foi tão alto em 2009 e 2013.

A escalada nas mortes, mesmo em um período com menos carros nas ruas em virtude da pandemia, coincide com a pausa nas blitzes de Lei Seca, suspensas de 19 de março até 7 de outubro de 2020 por conta da Covid-19. Mesmo assim, segundo os responsáveis pela operação, 797 motoristas foram flagrados dirigindo alcoolizados na Barra e no Recreio no ano passado, um percentual de 8,13% em relação às 9.804 abordagens. Em 2019, sem interrupções nas operações, foram 1.979 pessoas flagradas pelo bafômetro nos dois bairros, 5,4% do total de motoristas parados pelos agentes.

— As fiscalizações presenciais, como a própria Lei Seca, atuando de acordo com um mapa de acidentes, são um instrumento mais eficaz para conter essas ocorrências do que intervenções na via em si, como incluir quebra-molas ou mais sinais — explicou o professor Alexandre Rojas, do Departamento de Trânsito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

O casal de professores Maria Cristina e Alexandre
O casal de professores Maria Cristina e Alexandre Foto: Reprodução / Agência O Globo

Minutos antes de atropelar Cláudio, João Maurício foi filmado por câmeras de segurança de um posto de gasolina comprando bebidas alcoólicas na loja de conveniência. Outro vídeo, registrado por uma testemunha e entregue à polícia, mostra o bombeiro sem camisa, aparentemente desequilibrado, segurando um copo e uma garrafa de uísque pela metade, da mesma marca da que foi encontrada dentro do carro.

Do posto na Avenida Gláucio Gil, transversal à Lúcio Costa, ele saiu cantando pneus em direção à orla, conforme atestam relatos. Preso em flagrante horas depois do atropelamento, João foi autuado pelo crime de homicídio por dolo eventual, quando se assume o risco de matar, além de embriaguez ao volante e fuga do local, já que não parou para prestar socorro.

— Está virando moda atropelar, matar, fugir e dizer que estava com medo de ser linchado — afirmou o delegado Alan Luxardo, responsável pelas investigações, referindo-se ao fato de que Marcinho usou a mesma justificativa que o bombeiro.

Mini Cooper do jogador Marcinho passou por perícia no pátio da 42ªDP (Recreio)
Mini Cooper do jogador Marcinho passou por perícia no pátio da 42ªDP (Recreio) Foto: Fabiano ROcha

Revoltados com os constantes acidentes na região, grupos de ciclistas estão convocando um ato público em memória de Cláudio para o próximo dia 16, a partir das 6h30, saindo de Curicica até o Recreio. O taxista aposentado será sepultado hoje à tarde, no Cemitério Jardim da Saudade, em Sulacap. Dias antes de morrer, na última sexta, Cláudio gravou, sobre a bicicleta que tanto amava, um vídeo em que dizia falar “diretamente do paraíso”. Em meio às tradicionais palavras de motivação, um pedido: “Bebam com moderação”.

Bombeiro teria causado acidente que deixou a mulher deficiente

Há uma semana, no dia 5 de janeiro, o bombeiro João Maurício chegou a ser preso em flagrante por violência doméstica, mas foi solto no dia seguinte mediante cumprimento de medidas de restrição. Na ocasião, a mulher do militar, que é cadeirante, afirmou à polícia ter perdido a mobilidade das pernas após um acidente de trânsito ocorrido em 2018. Segundo ela, o marido, com quem é casada há 14 anos e tem dois filhos, estava ao volante depois de beber.

Ela contou que, no início do ano, João desferiu tapas e socos em seu rosto e disse que “queria arranjar uma mulher de verdade”, referindo-se ao fato de a companheira estar na cadeira de rodas. Em 2018, o bombeiro foi absolvido, por falta de provas, de outra acusação de violência doméstica.

capitão do Corpo de Bombeiros João Maurício Correia Passos
capitão do Corpo de Bombeiros João Maurício Correia Passos Foto: Reprodução

Em outro registro feito em 17 de dezembro de 2020, o sogro do bombeiro relatou que João vinha agredindo um dos filhos, de apenas 5 anos. Ele afirmou que também soube, pela filha, que o menino costumava ter cabeça inserida em um balde com fezes e urina, utilizado pela mãe.

Com o documento vencido desde 2018, o HB20 dirigido por Cláudio na hora do atropelamento estava em situação irregular.

Segundo o Corpo de Bombeiros, o capitão responde a um Conselho de Justificação, que pode culminar em expulsão, “por condutas inapropriadas, incluindo atos de violência doméstica”. Atualmente lotado na Diretoria de Assistência Social, espécie de “geladeira” da corporação, ele recebe um salário de R$ 12 mil.



Fonte: Fonte: Jornal Extra

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui