Área de atuação da milícia já supera a do tráfico na capital, mostra o ‘Mapa dos Grupos Armados do Rio de Janeiro’

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Uma pesquisa inédita, que mapeou grupos criminosos no Rio, revela que as milícias já dão as cartas em um quarto dos bairros da capital, que, somados, ocupam 57,5% do território do município e onde moram mais de 2 milhões de cariocas. Os bairros com ação criminosa somente de paramilitares têm uma área quase quatro vezes maior do que aqueles onde atua apenas o tráfico. De acordo com o “Mapa dos Grupos Armados do Rio de Janeiro”, as três quadrilhas de traficantes, somadas, agem em bairros que perfazem 15,4% da área total da cidade. O estudo é fruto de um convênio entre o Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (Geni) da UFF, o datalab Fogo Cruzado, o Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da USP, a plataforma digital Pista News e o Disque-Denúncia.

Os bairros em que somente a ação de milicianos foi registrada têm 686,75 quilômetros quadrados de área — o território total do Rio de Janeiro é de aproximadamente 1.200 quilômetros quadrados. Já as três facções do tráfico atuam, cada uma, em 11,4%, 3,7% e 0,3% da área do município. A área total dos bairros onde agem traficantes é de cerca de 185 quilômetros quadrados. Pouco mais de um quarto do território carioca (25,2%) está em disputa entre tráfico e milícia; e em apenas 1,9% não foi constatada a ação de qualquer grupo criminoso.

Para chegar aos resultados, os pesquisadores analisaram um total de 37.883 denúncias que mencionam a ação de milícias ou facções do tráfico de drogas, recebidas pelo Disque-Denúncia (2253-1177) no ano de 2019. A partir daí, seguiu-se uma triagem das denúncias para validação, compondo uma base de dados divididos entre os quatro grupos armados que agem no Rio (as três facções do tráfico de drogas e a milícia), usando três conceitos-chave: controle territorial, controle social e atividade de mercado.

O levantamento considerou a área total dos bairros. O mapa do crime será lançado oficialmente nesta segunda-feira (19), na abertura do 1º Seminário da Rede Fluminense de Pesquisas sobre Violência, Segurança e Direitos – Milícias, Grupos Armados e Disputas Territoriais no Rio de Janeiro.

O trabalho teve a participação do professor de Sociologia da UFF Daniel Hirata, coordenador do Geni. Segundo ele, era previsível um resultado que mostrasse força da milícia, mas não se esperava um domínio tão imponente.

— Para a gente foi impressionante, acima do que imaginávamos. Mesmo a milícia sendo o grupo armado mais recente, ao menos considerando o seu formato atual, ela conseguiu ampliar a extensão do seu domínio dessa forma — afirma Hirata.

O pesquisador destaca a qualidade dos dados do Disque-Denúncia, não só pelo volume, mas pelos detalhes — já que as fontes são os próprios moradores — e pela capilaridade. Para Hirata, a expansão das milícias é um tema que deveria ser mais abordado no período eleitoral, pois são quadrilhas que se aproveitam em grande parte do mercado legal e regulamentado pelo município, em especial o imobiliário e de transporte, para se alavancar financeiramente.

— As milícias se movem na penumbra entre a legalidade e a ilegalidade, o que justificaria um trabalho profundo de investigação — explica Hirata, que acrescenta que houve diversas menções à aliança entre milícia e uma das facções de tráfico nas denúncias. — Mas as milícias têm uma série de “vantagens” sobre o tráfico, como a diversificação de atividades, o mercado de proteção, com o discurso de segurança, que favorece a extorsão e a conivência de agentes e órgãos públicos. É uma combinação que ajuda a entender esse enorme controle territorial.

Promotor do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público do Rio, Fabio Correa analisa que, apesar de ainda existir sob a forma de células e franquias, a milícia caminha para um projeto de comando único no Rio.

— O projeto é se tornar uma estrutura só. Ao mesmo tempo em que a milícia é muito pulverizada, ela está em expansão, visando a um projeto de comando único. A sua origem histórica, na Baixada Fluminense, vem dos grupos de extermínio, em que o modelo de negócio se baseava em grupos que ora se separavam, ora se consorciavam. Já na Zona Oeste, vemos um cenário hoje mais uniforme, e é a partir daí que ela cresceu na direção da Baixada, cooptando ou se impondo aos grupos pré-existentes — explica o promotor, que participou em 2018 da Operação Freedom, uma das primeiras a atacar a atuação de milicianos em Itaguaí, local onde ocorreu o confronto da última quinta-feira (15), quando 12 suspeitos de integrarem um grupo paramilitar terminaram mortos.

Correa também destaca que a aliança com o tráfico de drogas beneficia os dois lados, pois enquanto o tráfico passa a vender em outros bairros, a milícia amplia sua fonte de renda. Por outro lado, o sociólogo da UFRRJ José Claudio Alves, especialista na pesquisa sobre grupos paramilitares, afirma que a milícia lidava com o tráfico de drogas desde o princípio de sua formação. Na sua opinião, a definição de “narcomilícia”, termo que vem se disseminando para ilustrar a aliança entre traficantes e milicianos, é impulsionada pelos próprios policiais, como forma de descolar a imagem da estrutura policial da milícia.

— O nascedouro da milícia é a estrutura da polícia, então lançar a imagem de “narcomilícia” joga no colo do traficante esse grupo organizado. E é isso que justifica uma operação que mata 12 pessoas, por exemplo. Nós nunca tivemos uma operação tão violenta contra a milícia — diz Alves. — As milícias fazem propaganda como se combatessem as drogas, mas na verdade sempre negociaram e operaram junto do tráfico.

O sociólogo afirma que são pelo menos 15 anos de expansão e consolidação dos grupos paramilitares, sem contar núcleos locais mais antigos, como em Duque de Caxias e Rio das Pedras. Sobre a geopolítica atual, ele destaca que Itaguaí é um vértice para dois corredores específicos, um da Zona Oeste (Jacarepaguá, Campinho, Campo Grande, Santa Cruz) e outro da Baixada (Magé, Duque de Caxias, Japeri, Belford Roxo, Queimados e Seropédica). Dentro desses corredores, há regiões ainda em disputa, mas com ascensão recente e notória da milícia, como Praça Seca e Nova Iguaçu.

— O Porto de Itaguaí é o vértice desses dois eixos e serve como estrutura que internacionaliza esse crime organizado, o lança para grandes negócios. É um ponto estratégico para contrabando de qualquer mercadoria ou drogas, fora o uso para lavagem de dinheiro no exterior, o que dificulta seu rastreamento, como fez a máfia italiana — explica o especialista.

Mais de 2 milhões de cariocas moram em bairros onde há atuação da milícia

Quando se analisa o número de cariocas que vivem em bairros com atuação de traficantes ou milicianos, os grupos paramilitares também já superam as facções do tráfico. Aproximadamente um terço (33,1%) da população do município do Rio, o equivalente a 2.178.620 habitantes, vive em áreas onde as milícias atuam.

Já o tráfico atua em bairros onde vivem 1.584.207 pessoas, ou 24% da população da cidade. Analisando-se cada uma das três facções, os números são os seguintes: 1.198.691 habitantes (18,2 %); 337.298 (5,1 %); e 48.218 moradores (0,7%). Cerca de quatro em cada dez cariocas —2.659.597 habitantes (41,4% da população) — residem em territórios ainda disputados pelas organizações criminosas.

O estudo também expandiu a análise para a Região Metropolitana. E o quadro não é muito diferente. Considerando o número de habitantes, mais uma vez a vantagem é dos milicianos, com 3.603.440 pessoas (29,2% do total de moradores dos municípios) vivendo em territórios onde os paramilitares atuam. A maior facção do tráfico tem hegemonia numa área habitada por 2.981.982 moradores (24,2% do total), seguida das outras duas facções, que agem em bairros com 445.626 (3,6%) e 48.232 (0,4%) habitantes. Pouco mais de 4,4 milhões de fluminenses (ou 36,2% do total de moradores da Região Metropolitana) residem em bairros que ainda são alvo de disputa entre milicianos e traficantes.

De acordo com o mapa, as milícias apenas são superadas quando o assunto é o número de bairros dos municípios da Região Metropolitana sob ação de cada grupo criminoso. Milicianos têm hegemonia em 199 bairros da região (21,8% do total de bairros), contra 216 (23,7%) da maior facção do tráfico; 27 da segunda maior facção (3%) e três do terceiro grupo de traficantes de drogas (0,3%). Outros 165 bairros (18,1% do total de bairros dos municípios da Região Metropolitana) permanecem alvo da disputa dos grupos armados.

Força-tarefa da Polícia Civil

Berço das milícias. A comunidade de Rio das Pedras, em Jacarepaguá: estudo mostra que território onde atuam grupos paramilitares supera em quase quatro vezes o das facções do tráfico Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo

A Polícia Civil criou uma força-tarefa para combater a milícia após dois assassinatos de candidatos a vereador em Nova Iguaçu. Os crimes, ocorridos nos dias 1º e 10 deste mês, teriam sido motivados por conta da disputa de territórios.

Durante a investigação, foi descoberta a movimentação da Zona Oeste para a Baixada Fluminense de milicianos que fazem parte do bando de Wellington da Silva Braga, o Ecko, um dos criminosos mais procurados do estado. Na última quinta-feira (15), agentes da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), da Polícia Civil, e da Polícia Rodoviária Federal (PRF) se posicionaram às margens de uma saída da Rio-Santos, em Itaguaí, para abordar um comboio de quatro carros com milicianos. Os bandidos dispararam e houve confronto. Doze suspeitos foram mortos. Entre as armas apreendidas com eles, havia três metralhadoras e cinco fuzis.



Fonte: Fonte: Jornal Extra

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