Pesadelo dos pais
“Redes sociais são o principal fator responsável pelo aumento dramático da ansiedade e depressão entre jovens, especialmente meninas adolescentes.” – Jonathan Haidt
No seriado, “Adolescência” da Netflix, quando um garoto de 13 anos é acusado do assassinato de uma colega de classe, sua família, o terapeuta e o detetive responsável ficam se perguntando o que realmente aconteceu. Este seriado representa um dos maiores pesadelos dos pais: quando não conhecem seus filhos ou não são capazes de controlar seus impulsos sombrios.
A sociedade é rápida no gatilho em culpar os pais ou a escola, mas basta constatar famílias com filhos e alunos totalmente normativos para entender que, muitas vezes, se trata de exceções. Como conter ou tratar esses casos? Será a tecnologia a fonte de todos os males? Muitas das respostas podem ser obtidas ao ler o livro ou escutar podcasts com Jonathan Haidt, que estudou com profundidade este assunto. Aqui, quero trazer minha visão dentro do modelo de Cidade 5.0, que desenvolvemos na PRIME Society.
Em meu último artigo, abordei alguns valores básicos de como deve ser estruturada a área de educação dentro de uma Cidade 5.0. Por exemplo, a criação de internatos para os alunos que precisem de condições melhores do que aquelas possíveis em casa; integração da escola com instituições dentro da cidade para desenvolver experiências práticas como em hospitais, na segurança pública e na própria educação; e o desenvolvimento de habilidades como liderança, criatividade, execução, trabalho em equipe e autodidatismo. Clique aqui para acessar o artigo.
Adiciono um tema que na minha opinião é fundamental; grupos de ensino não devem preparar os alunos, mas sim desenvolver professores locais. Essa foi a grandeza da China ao querer absorver o conhecimento e desenvolver o seu próprio capital humano. Isso deve ser um pilar fundamental no desenvolvimento de uma comunidade forte, em vez de fazê-la sentir-se como cidadãos inferiores que dependem de apoio externo. Faz uma grande diferença quando um professor vem para seu bairro trabalhar, mas mora em outra cidade, em comparação com quando ele é seu vizinho, seus filhos estudam na mesma escola e você o encontra no parque no final de semana. Isso cria um vínculo de carinho e responsabilidade que pode mudar o rumo da educação das crianças.
Outra questão é a cidade em si. Ao culpar os pais e escolas, esquecemos que o ecossistema que sustenta o desenvolvimento educacional vai muito além deles. Perguntei a um ex-funcionário meu que veio da comunidade, qual foi o segredo para ele não se tornar um traficante de drogas, uma vez que muitos em sua volta eram. Ele apontou para a sua mãe. Mas, obviamente, se não houvesse qualquer exposição a drogas no bairro ou cidade, isso reduziria drasticamente as chances de crianças seguirem o caminho do crime – e a necessidade de ter uma mãe excepcional como a dele.
Ao conversar com um ex-funcionário de um centro de detenção juvenil no Brasil, o questionei sobre quantas crianças conseguiram ser “salvas”. A resposta foi: nenhuma. Todos voltam para o mesmo ambiente que os levou a cometer atos criminosos. Seres humanos em geral, e não só crianças, precisam de condições propícias para o seu desenvolvimento.
A estrutura da cidade é crucial nesse contexto. Instalações esportivas, movimentos juvenis como os escoteiros, um ambiente seguro onde as crianças possam se deslocar entre casas e apartamento dos amigos, atividades voluntárias e religiosas (se não extremas), clubes de leitura, facilidade de deslocamento entre escola e lar, apoio psicológico, atividades extracurriculares como arte, dança, luta, jogos (ex. xadrez), música e monitoramento regular da saúde (dentista, optometrista, nutricionista entre outros) são aspectos fundamentais.
Além do aluno, se a cidade for capaz de fornecer aos pais um trabalho com remuneração digna, um tempo de deslocamento reduzido entre casa e trabalho, acesso a serviços essenciais (saúde, lazer, supermercados, apoio social) a 15 minutos a pé, de bicicleta ou transporte público, – isso aumentará significativamente as condições para que sejam pais presentes e participativos na vida de seus filhos.
Outro ponto essencial é a capacidade de fornecer serviços de planejamento familiar, segurança pública da cidade composta por homens e mulheres da comunidade, opções de desenvolvimento profissional e de cuidados de saúde mental e física.
Ao ter uma dimensão holística do desafio, compreendemos a frase “it takes a village to raise a child” – e percebemos que as crianças precisam de um ecossistema favorável, que por sua vez, depende que os pais tenham acesso ao mesmo ambiente positivo.
Agora, imagine uma realidade onde meninas de 13 anos têm seu primeiro filho, cujo pai é desconhecido ou fugiu de suas obrigações parentais. O desafio da Cidade 5.0 é criar um ambiente harmônico que traga equilíbrio à sociedade para descontinuar a inércia da desgraça. Assim, concluímos que seria impossível mudar o fluxo desta correnteza ao tratar apenas de uma única dimensão social.
A Cidade 5.0 nasceu porque praticamente todas as iniciativas que buscam combater os males da pobreza focam em uma única variável, como educação, saúde ou esporte. Isso, obviamente, acontece porque criar uma cidade planejada do zero, com todos os serviços integrados 360 graus em volta do cidadão é extremamente complexo – porém longe de ser impossível. Cada uma dessas iniciativas tem uma filosofia própria, orçamento limitado e o desconhecimento de outros aspectos que compõem a sociedade.
Porém, se queremos uma sociedade melhor, precisamos tratar de todos os aspectos civilizatórios que podem ‘dar errado’ – uma gestão completa de riscos. Caso contrário, estaremos apenas enxugando gelo, como de fato vem acontecendo. O fato que existem casos de sucesso, como Shenzhen, na China, ou Dubai, nos Emirados, mostram que a solução existe. O que precisamos é unir esforços para implementá-la e começar a criar Cidades 5.0, para erradicarmos a pobreza, um município por vez – ou muitos pais vão continuar descobrindo que seus piores pesadelos podem se tornar realidade.
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No dia 28 de maio, a Prime Society realizará, em São Paulo, o evento “Cidade 5.0 – Quando a Erradicação da Pobreza é um Bom Negócio”, para dar início a essa transformação e buscar soluções concretas para um problema que assombra o Brasil há séculos. Participe e seja parte da mudança!
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Portal iG
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