Liderança dividida pode ser positiva na escola, diz pesquisa da FGV


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Um estudo conduzido pela Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getulio Vargas (FGV EBAPE) ressaltou a significativa importância da liderança nas escolas na melhoria do desempenho dos estudantes. A pesquisa identificou que escolas com estruturas de liderança descentralizadas e horizontais, onde as decisões são compartilhadas entre a equipe de professores, tendem a apresentar melhores resultados acadêmicos.

O efeito positivo é ainda mais acentuado quando o diretor da escola é reconhecido como um líder transformacional, capaz de inspirar, motivar e guiar a equipe em direção a uma visão clara para o futuro.

O estudo envolveu visitas a aproximadamente 20 escolas públicas no Rio de Janeiro e contou com a participação de 142 escolas e 423 professores. Foi desenvolvido um aplicativo para coletar dados sobre o perfil dos diretores, a tomada de decisões compartilhadas e outros aspectos relacionados à liderança nas escolas.

A pesquisa concluiu que uma liderança compartilhada, combinada com uma liderança transformacional, tem um impacto positivo no desempenho escolar, medido pelo Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb).

A liderança compartilhada envolve a tomada de decisões que não está exclusivamente nas mãos de um líder, mas pode ser compartilhada por um grupo de trabalho. No entanto, a pesquisa enfatiza que essa liderança compartilhada é mais eficaz quando combinada com a liderança transformacional do diretor.

O estudo destaca a importância de escolher diretores capacitados em liderança e promover espaços e mecanismos que facilitem o compartilhamento de decisões nas escolas. Os resultados dessa pesquisa têm implicações que podem ser aplicadas em diversos setores, não apenas na educação, e destacam a relevância da liderança nas organizações públicas.

Para entender melhor o estudo e seu impacto, o Portal iG – Último Segundo entrevistou o coordenador do estudo, o professor Filipe Sobral.

Abaixo a entrevista:

IG – Como surgiu a ideia de fazer a pesquisa?

Filipe – Na maioria das vezes as discussões sobre a melhoria da educação no Brasil destacam fatores como infraestrutura, abordagens pedagógicas e gestão do processo de aprendizagem. Nós acreditamos que existe um outro elemento, muitas vezes subestimado, crucial para o sucesso educacional: a estrutura de liderança nas escolas. Partimos da premissa de que a liderança não é apenas um elemento periférico, mas um catalisador poderoso que pode verdadeiramente fazer a diferença no aprendizado dos estudantes. Nossa pesquisa buscou preencher uma lacuna significativa na compreensão dessas dinâmicas de liderança, examinando de perto como a liderança impacta diretamente o desempenho acadêmico dos alunos. Ao considerarmos a liderança como uma prioridade nas políticas de educação, abrimos portas para práticas que estimulam o envolvimento coletivo, promovem a participação nas decisões e, finalmente, elevam a qualidade do ensino.

O Brasil é um país com enormes desafios na gestão da Educação. Por exemplo, menos de 60% dos jovens de 19 anos de idade no Brasil têm ensino médio completo e cerca de 2 milhões de crianças entre os 11 e 19 anos não estão frequentando a escola segundo a UNICEF. Quando olhamos para o ranking Pisa de desempenho em Matemática, o Brasil está na 53ª posição entre 65 países. No entanto, conforme mencionado anteriormente, as discussões sobre educação no Brasil frequentemente ignoram ou subestimam o papel da liderança do diretor no desempenho escolar. Acreditamos que a estrutura de liderança das escolas pode fazer a diferença e ajudar a melhorar esses indicadores.

IG – Vocês fizeram a pesquisa em escolas do Rio de Janeiro. Como é possível associar a realidade das escolas fluminenses com as de outros estados?

Filipe – Nossa pesquisa teve foco no município do RJ, mas as premissas são as mesmas para todas as outras escolas em outros estados e municípios! Claro que as escolas do Rj têm as suas particularidades, mas acreditamos que a liderança é um elemento essencial no desempenho das escolas.

IG – Quais cuidados os professores e diretores precisam tomar para que suas lideranças não pareçam imposições aos alunos, dando a sensação de autoritarismo?

Filipe – Nosso estudo teve como objetivo mostrar como uma estrutura de liderança compartilhada (na qual os professores participam e têm possibilidades de colaborar na gestão da escola) pode ter efeitos positivos no ambiente escolar e desempenho da escola. Essa estrutura de liderança que chamamos de liderança compartilhada é a antítese do autoritarismo.

IG – Há um ponto na pesquisa que fala sobre a possibilidade de ser prejudicial a liderança compartilhada. Como dosar para que o impacto seja positivo?

Filipe – Os resultados da pesquisa comprovaram os efeitos positivos da liderança compartilhada no desempenho escolar das escolas pesquisadas, medido pela nota do IDEB. E isso acontece porque a equipe de professores se sente mais empoderada. Quando os professores têm influência na tomada de decisões escolares e têm participação significativa no desenvolvimento profissional e crescimento da escola, isso leva a uma maior sensação de empoderamento da equipe, que juntamente com um direcionamento claro dado por um líder transformacional se traduz em um desempenho superior. Através dessa autonomia, a equipe de professores empoderada trabalha mais e busca encontrar melhores processos para elaborar provas e atividades, o que pode promover que seus alunos tenham um melhor desempenho educacional.

Contudo, estudos mostram que nem sempre essa liderança compartilhada será positiva. Alguns estudos demonstram os efeitos negativos neste tipo de abordagem, pois se diversos indivíduos quiserem liderar ao mesmo tempo, sem um alinhamento estratégico, pode haver conflito entre eles e faltar uma direção clara acerca dos processos. Apesar de a liderança compartilhada demonstrar um potencial, este estudo constatou que ela é mais efetiva no desempenho escolar quando o diretor possui um perfil de líder transformacional. Este tipo de liderança é embasado na capacidade de um diretor, por meio de uma visão para o futuro da organização, ser capaz de desenvolver e estimular os funcionários em prol de um determinado objetivo comum. Quando falamos em um líder transformacional, estamos falando de alguém que consegue ter uma visão clara sobre o futuro da sua organização, e que consegue compartilhar essa visão com o quadro de funcionários. Constatamos que sozinhas a liderança vertical transformacional e a liderança compartilhada têm efeitos limitados, mas, se combinadas, há um aumento no desempenho da escola, que se traduz em melhor desempenho dos alunos e consequentemente, melhores notas no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb).

IG – Saindo da escola, como alunos e professores podem levar os ensinamentos desse tipo de liderança para o dia a dia?

Liderança faz diferença em muitas esferas da vida. Seja na motivação e envolvimento da equipe, seja promovendo o desempenho, o que podemos afirmar é que a estrutura de liderança certa faz a diferença!!! No caso das escolas públicas, nosso estudo mostra que promover uma estrutura de liderança compartilhada junto com diretor transformacional traz resultados muito positivos.



IG Último Segundo