Autoria como redução de danos ao discurso de ódio


O ódio é um afeto e como tal tem direito a plena cidadania entre outros afetos, emoções e sentimentos.

Daí que seja vã e, no limite, perniciosa toda tentativa de eliminar afetos, principalmente quando olhamos para nossa história de perseguições a afetos de extração sexual, ou aos afetos intensificados, tais como:

  • A soberba (orgulho excessivo);
  • A avareza (apego excessivo a bens);
  • A inveja (geralmente traduzida pelo desejo de impor tristeza ao outro);
  • A gula (desejo exagerado de comer ou beber);
  • A luxúria (apego demasiado aos prazeres);
  • E finalmente a ira, ou seja, ódio furioso, que ultrapassa certos limites, geralmente traduzidos pela ofensa, desrespeito, agressão ou violência.

Vê-se assim que os pecados chamados capitais são apenas uma indicação que dá continuidade à concepção aristotélica de que a virtude está entre dois vícios, ou dois exageros.

Pouco se discute, mas nesta mesma linha se poderia inferir a existência de outros pecados capitais, não do exagero, mas de inibição ou da falta de intensidade.

  • A falta de autorrespeito, ou de amor-próprio, na acepção de Rousseau é o oposto exagerado do orgulho e da vaidade.
  • O desperdício é a falta de cuidado com os bens.
  • A inveja “boa” apareceria quando entendemos que a inveja é apenas um outro nome para o desejo, o desejo de avançar rumo a algo ou alguém em que localizamos nossos exemplos, heróis e ideais.
  • A anedonia, principal sintoma de depressão, nada mais é do que o excesso da falta de luxúria.
  • Assim como a anorexia pode ser um nome para a falta de gula.

Mas como chamar então a pessoa que tem um déficit crônico da capacidade de experimentar ódio?

Sangue de barata, complacente ou leniente não são de fato boas opções porque elas podem indicar apenas a incapacidade de orientar seu ódio para o outro, cujo sinônimo possível seria a covardia.

Mas isso não é verdade, nem na semântica da palavra nem na lógica das relações.

É certo que nossa moralidade contemporânea lida muito melhor com os excessos sexuais do que, por exemplo, a exageração do ódio e da hostilidade. Disso somos levados à existência de uma cultura crescente do que Lacan chamava de amódio (hainamoration), pela qual o amor converte-se em ódio justificado, geralmente combinado com identificações coletivas, mas também com combinações ligadas ao sexo, como no clássico “bom uso erótico da cólera”.

Quero crer que isso acontece por um motivo genérico que chamo de “doping de afetos”, ou seja, o ódio é um afeto que desperta certos efeitos sobre o vivente: ficamos mais presentes, mais atentos, mais dispostos para a ação e mais concentrados quando estamos com ódio.

Pense naquele sujeito “possuído” por um videogame de ação, envolvendo tiros, assaltos e morticínios e como eles nos envolvem, como se estivéssemos vivendo um thriller de ação e combate.

Ora, o componente “motivacional” do ódio como agressividade transformada foi descoberto há muito tempo pelos departamentos de recursos humanos, particularmente sensíveis à noção de “capital humano”.

Ou seja, criar um clima de ódio, inclusive de ódio contra o chefe, contra a concorrência, contra seu colega de baia, ódio contra quem quer tirar seu emprego, se você não performar direito, que pode te avaliar mal na próxima reunião de feedback, que pode te envolver numa falsa aliança no próximo BBB gerencial, tudo isso “é do jogo” e foi naturalizado como receita básica onde mais ódio equivale a mais performance, tal como teria sido imortalizado por Gordon Geeko em “Wall Street” (1987) e sua sequência “Wall Street – O Dinheiro Nunca Dorme” (2010), ambos dirigidos por Oliver Stone.

Lembremos que Michael Douglas era o protagonista obsceno do filme cujo subtítulo é “Money Never Sleeps” (“O Dinheiro Nunca Dorme”), alusão que corrobora a ideia de que indução de ódio e principalmente a autoindução de ódio permite jornadas mais longas de dedicação, sem cansaço, como se fossemos retirando forças que não sabemos direito de onde elas emanam, quando nos consideramos em meio a uma guerra, batalha ou luta. O contraponto aqui é naturalmente “Clube da Luta”, onde Edward Norton torna-se dependente de um curioso jogo onírico de auto-hetero-agressões.

Se o que chamamos mais recentemente de “discurso de ódio” não se reduz a eventos agressivos de externalização crítica, instrumental ou errática de ódio, mas a um tipo específico de dependência, na qual prazer e dopagem concorrem para criar protagonismos, ainda que imaginários, podemos supor a existência de estratégias de redução de danos, análogas ao que as melhores práticas consensuadas para reduzir efeitos nocivos das dependências.

Se a comparação é aceitável, isso sugere que no discurso de ódio ocorre uma espécie de perda de modulação social deste afeto, uma desregulação do seu sistema de mediações.

Isso pode ocorrer em função de um efeito digital muito simples: monetização.

Se o ódio engaja, coletiviza e intensifica, ele obviamente se traduzirá pela elevação do nível de atratividade digital.

Claro que a violência ostensiva e obscena causará repulsa a quem for apresentado a ela, mas isso significa apenas que a dosagem foi elevada demais para o começo do percurso.

Disso se pode ver como os algoritmos fazem sua parte na reposição dos afetos. Neste quesito, o ódio e o sexo se diferenciam dos outros cinco “afetos cardeais”, pois eles escalam de um gradiente incomparável com, digamos, outros hits parade digitais como: causação de inveja exibicionista, sorvete ostentação, orgulho humilhação ou consumo padrão devastação.

Por isso a luta contra o discurso de ódio guarda proximidades com as estratégias públicas para enfrentamento de dependências em geral, não apenas as químicas, mas pensemos nas dependências de jogo (eletrônico ou não), de pornografia (digital ou não) e de reconhecimento do outro (narcísica ou não).

Ora, esta fissura (craving), causada pelo ódio, escala na razão direta em que o outro se “inumaniza”, em uma pessoa-tipo, e na razão inversa pela qual o próprio sujeito se empodera pelo anonimato.

É a figura emergente do “ninguém”, equivalente do “todo-mundo” que age sob perfil falso, nome fantasia ou subterfúgio de responsabilidade ou implicação.

Por isso também em meio ao ataque de ódio aquele que revela aspectos pessoais do ofensor —sua família, suas postagens nada obsequiosas, seu local de trabalho ou sua comunidade de referência— costuma ser vigorosamente protegido pela turba.

Por isso responder ao discurso de ódio, especialmente quando a reação é “uma oitava abaixo” ou “algumas gramas de parcimônia a menos” costuma despertar ainda mais raiva.

É o caso também do pedido de desculpas que será interpretado com tentativa de “passar o pano” e neutralizar a verdadeira intenção do discurso, ou seja, gozar através do ódio.

Como se vê, o discurso de ódio é uma forma de “sair de si” e deixar de responder por suas próprias palavras. Elas se tornam impróprias, impessoais e logo inconsequentes.

Mas o pior é que o anonimato suspende o circuito de regulação de afetos, pelos quais meço minhas palavras, pondero meu tom ou avalio as implicações do que digo. Afinal é isso que define um discurso e o diferencia da simples fala, alocução ou pronunciamento, a saber, o efeito de retorno do que se diz sobre aquele que fala em uma generalização tendente ao esquecimento pelo anonimato.

Ser autor é condição para possuir autoridade, logo poder perdê-la.

Daí que o antídoto que coloco aqui em discussão chame-se autoria ou perda do anonimato.

Aquele que usa o anonimato, tolerado largamente pelas grandes companhias digitais, facultando e estimulando que menores de idade participem sob nomes falsos, premiando perfis falsos para agredir outros, possa perder sua condição de anonimato, lhe sendo facultado participar do debate público, presumido em certas configurações digitais apenas e tão somente com seu nome próprio.

Ninguém está sendo propriamente punido por usar o próprio nome na esfera pública, mas nos acostumamos de tal maneira com as facilidades presumidas do anonimato digital que nos esquecemos de seus efeitos deletérios, psíquicos e sociais.



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