app de encontro supera restrições contra LGBTQIA+ na China


Do encerramento de contas em mídias sociais à proibição de aplicativos de namoro, o governo chinês impõe cada vez mais barreiras a iniciativas LGBTQIA+. Mas uma empresa de tecnologia consegue sobreviver a essas investidas, a BlueCity, dona do app Blued.

Com sede em Pequim, ela tem banheiros neutros, mascotes de unicórnios e sala de reunião batizada de Oscar Wilde. Tudo isso graças a uma curiosa estratégia: atua com uma mistura de aplicativo de encontros para homens gays e bissexuais e farmácia e hospital online focados em saúde sexual.

O carro-chefe da BlueCity é o app Blued, lançado em 2012 pelo ex-policial chinês Ma Baoli, que funciona de forma semelhante ao popular Grindr. Na época, Baoli dividia seu tempo entre a corporação e o blog Danlan.org, que assinava sob um pseudônimo. Mas a popularidade do site acabou tirando-o do armário publicamente e forçando sua saída da corporação.

Uma década mais tarde, o Blued é o maior do gênero no mundo, com mais de 60 milhões de usuários registrados usuários na China e em países como Índia, Vietnã, Filipinas, Coreia do Sul, Brasil e outros. No caso brasileiro, o app desembarcou em 2020, mas, embora tenha uma conta ativa no Twitter, não repetiu o sucesso chinês. Para efeito de comparação, o Grindr conta com 11 milhões.

Foco na saúde sexual

A diferença fundamental entre o app chinês e o Grindr é justamente o aspecto da saúde sexual. Desde sua criação, o Blued é operado em paralelo com uma organização sem fins lucrativos voltada à pesquisa e prevenção do HIV, que fechou diversas parcerias com o governo chinês.

Em 2019, também ganhou uma área especial chamada “He Health”, que também pode ser baixada como um app separado. Trata-se de uma farmácia digital e uma espécie de hospital online que oferece os seguintes serviços:

  • Recebe receitas online
  • Oferece serviços de teleconsultas
  • Oferta de tratamento para ISTs (Infecções Sexualmente Transmissíveis) e disfunção erétil de forma discreta
  • Além de kits para o diagnóstico do HIV, distribui medicamentos como PEP (a ser ingerido depois de uma possível exposição ao vírus) e o PrEP (remédio que evita sua transmissão).

He Health realiza entregas em mais de 50 cidades chinesas. O site de tecnologia sem fins lucrativos Rest of World aponta esse enfoque em saúde como uma das principais razões para a sobrevivência da BlueCity no inóspito ambiente tecnológico chinês.

“A empresa ainda consegue administrar um negócio na China porque se posiciona principalmente como uma plataforma de promoção da saúde, em vez de uma plataforma gay”, disse Lik Sam Chan, professor de comunicação da Universidade Chinesa de Hong Kong, em entrevista ao site Rest of World.

O Blued diluiu os elementos sexuais de seu negócio para se promover como uma plataforma de promoção da saúde. Lik Sam Chan, da Universidade de Hong Kong

O cerco se fecha?

Além de manter o Blued no ar, a BlueCity conseguiu a proeza de expandir seus negócios. Em 2020, abriu capital na Nasdaq, bolsa de valores em Nova York, e foi listada por US$ 85 milhões. Ainda comprou o app de namoro lésbico chinês Lesdo e a rede social Finka, para gays e bissexuais mais jovens.

Também vem sendo reconhecida por importantes órgãos internacionais. Em 2021, foi uma das vencedoras do primeiro Public Health Innovation Challenge, lançado pela OMS (Organização Mundial de Saúde).

“[O aplicativo] aproveita plataformas de mídia social e de encontros para promover intervenções que abrangem avaliações de necessidades, promoção de saúde, serviços de consulta e extensão, avaliações de risco de infecção por HIV e serviços de teste online”, resumiu a entidade sobre a empresa.

Isso não significa, no entanto, que a BlueCity esteja 100% imune a boicotes. No início de 2021, anunciou o encerramento das operações do BluedBaby, serviço que conectava casais gays chineses a barrigas de aluguel nos Estados Unidos e no Canadá. No mesmo ano, em meio ao aumento da proteção de dados imposta pelo governo chinês, passou a proibir o bloqueio de capturas de tela e gravações no Blued.

Mas a maior perda foi a saída de Ma Baoli dos cargos de CEO e presidente do conselho no segundo semestre do ano passado.

“Transformamos ideais em realidade e tornamos possível algo impossível”, escreveu ele em um post de despedida no WeChat, serviço de mensagens instantâneas desenvolvido da gigante de tecnologia chinesa Tencent.

Ao que tudo indica, o motivo foi a dificuldade de se administrar uma plataforma LGBTQIA+ em um país como a China. Agora, sem seu criador na liderança, ainda não se sabe por mais quanto tempo o Blued deve sobreviver – e como.



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