a história o padre inventor injustiçado

Há exatos 100 anos, acontecia a primeira transmissão oficial de rádio do Brasil. No dia 7 de setembro de 1922, a empresa Westinghouse International Company, usando a estação SPC, transmitiu o discurso do então presidente Epitácio Pessoa para as cidades de Niterói, Petrópolis e São Paulo. Na ocasião, o discurso comemorava os 100 anos da independência brasileira.

Contudo, a história do rádio no Brasil é mais antiga do que muita gente conhece. Inclusive, existem registros de que um brasileiro teria sido o responsável por fazer as primeiras transmissões radiofônicas do mundo.

O brasileiro injustiçado

Durante a década de 1890, vários inventores estavam desenvolvendo sistemas de comunicação sem fio — entre eles, o físico italiano Guglielmo Marconi. Em 1985, ele apresentou ao mundo o primeiro telégrafo, que permitia enviar mensagens de texto via ondas de rádio – por meio do Código Morse. Já a transmissão de voz por ondas de rádio seria demonstrada cerca de 10 anos depois, em 1914, também por Marconi.

Porém, segundo o biógrafo Hamilton Almeida, um padre gaúcho, chamado Landell Roberto de Moura teria feito isso antes mesmo do italiano.

Ao analisar jornais da época, Almeida sustenta que Landell – considerado um dos primeiros cientistas brasileiros – teria sido injustiçado pela história. De acordo com o biógrafo, o padre fez uma demonstração inédita e pública de uma transmissão de rádio no dia 16 de julho de 1899, ou seja, anos antes das experiências feitas por Marconi.

Mesmo tendo acesso a poucos recursos, o padre convidou empresários paulistas para a demonstração. A transmissão foi feita a partir do Colégio Santana, de onde ele era pároco, na zona norte da cidade de São Paulo, até a Ponte das Bandeiras, a quatro quilômetros de distância.

O aparelho de rádio construído pelo padre Landell Roberto de Moura. Imagem: Hamilton Almeida
O aparelho de rádio construído pelo padre Landell Roberto de Moura. Imagem: Hamilton Almeida

Entre as primeiras palavras ditas via rádio, estava o “Toquem o Hino Nacional!”, que, na época, ainda não tinha a letra, apenas uma melodia . Segundo os jornais da época, o público ficou boquiaberto. Teve gente que chamou o feito de “bruxaria”.

Uma nova demonstração documentada pela imprensa também teria sido feita no ano seguinte. Essas demonstrações pouco conhecidas no Brasil, e ainda sem reconhecimento mundial, foram abordadas no livro recém-lançado “Padre Landell: o brasileiro que inventou o wireless” (disponível aqui).

A patente desse primeiro aparelho de rádio foi registrada no Brasil e nos Estados Unidos, mas o padre não conseguiu comercializar o seu invento. Em 1906, o padre brasileiro chegou a solicitar uma ajuda ao governo de São Paulo para industrializar um sistema de rádio no país, mas o pedido acabou sendo arquivado.

Além do aparelho de rádio, Landell também foi visionário ao criar o termo “televisão”, em 1913, chegando, inclusive, a projetar o dispositivo, mas não chegou a construí-lo. Em 1928, Landell morreu sem o reconhecimento da sua contribuição para a história da radiodifusão mundial.

Registro da patente do rádio de Landell, nos Estados Unidos. Imagem: Hamilton Almeida
Registro da patente do rádio de Landell, nos Estados Unidos. Imagem: Hamilton Almeida

As primeiras emissoras de rádio no Brasil

Apesar de a primeira grande demonstração pública radiofônica no Brasil ter acontecido em 1922, o país já contava com emissoras de rádio.

Em 1919, por exemplo, estudantes radioamadores de física, no Recife, foram pioneiros ao criar a Rádio Clube de Pernambuco. Além da questão técnica, os recifenses demonstraram o poder do rádio como um veículo de comunicação de massa.

Esses estudantes tinham acesso facilitado a equipamentos estrangeiros, pela questão de a capital de Pernambuco ser uma cidade portuária. Segundo o pesquisador Luiz Maranhão Filho, eles adaptaram de forma artesanal transmissores de telegrafia sem fio para transmitir vozes, usando um microfone feito com uma lata de goiabada com “muitos furos de pregos e carvões magnéticos, estendidos em seu interior”.

No ano seguinte, era fundada a Rádio Sociedade do Rio Janeiro, quando as transmissões radiofônicas começaram de fato a ganhar força no país.

A importância do rádio nos dias de hoje

A invenção do telégrafo e do rádio foram as precursoras de muitas outras tecnologias em telecomunicações que surgiriam nas décadas seguintes, como a televisão, os telefones celulares e, até mesmo, as redes de internet wi-fi.

Apesar das muitas formas de se comunicar disponíveis na atualidade, o rádio ainda tem o seu valor, sendo um meio de comunicação de baixo custo e que tem a capacidade de alcançar grandes distâncias. Muito além de ser uma fonte entretenimento, o rádio também transmite notícias e informação.

No caso de grandes emergências, por exemplo, causadas por eventos da natureza extremos, as transmissões radiofônicas demonstraram ser uma fonte confiável e acessível para a população se informar, principalmente quando há falta de energia ou problemas em linhas telefônicas.

Além disso, o rádio é usado por pessoas presas no trânsito das grandes cidades para receber notícias sobre quais vias congestionadas evitar, ou para entreter motoristas nas estradas, quando não há rede móvel disponível.

Os aparelhos de rádio também são usados por populações de baixa renda vivendo em regiões isoladas, principalmente em países pobres – onde não há a oferta de outros meios de comunicação. Neste caso, as emissoras de rádio locais têm um papel fundamental no compartilhamento de notícias e conteúdos educacionais.

E, em países onde a liberdade de expressão é suprimida ou em regiões de conflito armado, o rádio continua a desempenhar um papel importante no compartilhamento de informações.

Fonte: Gizmodo