Relembrando Jean Paul Belmondo – Diário do Vale

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Morto aos 88 anos, ator francês deixou sua marca na história do cinema

Aventura: Rumo a Amazônia em “O homem do Rio”

Na segunda-feira passada, véspera de feriado, o mundo do cinema recebeu a notícia da morte do grande astro do cinema francês, o inimitável Jean Paul Belmondo. Ele morreu em casa, aos 88 anos, de causas naturais. Estava praticamente aposentado e sua última grande aparição em público foi em 2017, quando ele recebeu o prêmio César, o Oscar do cinema francês, pelo conjunto de sua obra. E numa semana em que a única estreia no circuitão é um filme de terror barato, o “Maligno”, nada como relembrar a obra e os tempos deste simpático ator. Que filmou no Brasil, mais precisamente no Rio de Janeiro, um dos maiores sucessos de sua carreira, a comédia de ação “O homem do Rio”.

Pode-se dizer que Jean-Paul Charles Belmondo já nasceu no mundo das artes. Seu pai, Paul Belmondo era um escultor consagrado. A mãe, Sarah Rainaud Richard uma artista plástica. O ano era 1933 e Belmondo cresceu nos subúrbios de Paris sem muito interesse pelas artes. Suas paixões na juventude eram o boxe e o futebol. Chegou a se tornar lutador profissional, mas desistiu da carreira ao ver os estragos que uma luta causara em seu rosto. Tentou matricular-se no Conservatório de Paris onde foi rejeitado pelos professores. Um deles chegou a dizer que “o senhor Belmondo nunca fará sucesso com sua cara de desordeiro”. Mas foi a “cara de desordeiro” que chamou a atenção do grande mestre do cinema francês, o lendário Jean Luc Godard.

Godard tinha criado um movimento chamado “Nouvelle vague” semelhante ao Cinema Novo brasileiro. Eram filmes rodados com câmera na mão, iluminação natural e roteiros improvisados, que procuravam se contrapor as superproduções do cinema norte-americano. Em 1960 Godard colocou Belmondo no papel principal de “Acossado”, um filme sobre um marginal fugitivo e sua namorada. O roteiro foi sendo escrito à medida em que as cenas eram filmadas e Belmond se ajustou perfeitamente as improvisações do diretor. O filme foi um sucesso no mundo inteiro e o ex-boxeador virou astro. Fez outros filmes com Godard, como “O demônio das 11 horas” em 1965, já consagrado mundialmente.

Apesar do sucesso, Belmondo se ressentia de ser considerado um ator de filmes “cerebrais”, feitos para um público intelectual. Uma vez ele disse: “Se eu apareço pelado num filme ninguém reclama. Mas se eu saltar de um helicóptero os críticos resmungam”. E foi em busca de um cinema mais popular que Belmondo se associou a um diretor que o tornaria ainda mais conhecido. Phillippe de Broca. Com de Broca, Belmondo estrelou uma série de comédias de ação, começando com “O Homem do Rio” (de 1964), filmado no Rio de Janeiro e numa Brasília ainda em construção. Era o tipo de filmes que o Dwayne Johnson faz hoje em dia.

No filme Belmondo é um aventureiro francês que vem ao Brasil salvar sua namorada, a bela Françoise Dorleac. Que foi sequestrada por bandidos e levada para Brasília e depois para a Amazônia. A chamada no cartaz aí embaixo já diz tudo: Paraquedas, jacarés,assassinos,mulheres. Você acha que é fácil?Só para um grande aventureiro como eu”. Em uma cena inesquecível o francês pega um taxi no Largo da Carioca no Rio de Janeiro e diz para o motorista. “Vamos pra Brasília”. No lugar de leva-lo ao aeroporto o motorista pega a estrada para Teresópolis. Subindo a serra dos Orgão Belmondo pergunta. “Já estamos chegando em Brasília?” E o motorista responde: “É logo ali na frente”. Esse clima absurdo e bem humorado fez com que o ator repetisse a dobradinha com o diretor em outros filmes semelhantes, como “As fabulosas aventuras de um chinês na China”. E que culminaram em “O Magnífico” de 1973. Onde Belmondo interpreta um escritor de romances de espionagem que persegue um amor impossível na realidade e na ficção.

Desconhecidos pela geração atual, os filmes de Jean Paul Belmondo chegaram a ser relançados em DVD na década passada. Hoje, com o fim dessa mídia, eles estão disponíveis nos canais de streaming, principalmente aqueles especializados em clássicos do cinema europeu e francês. E vale a pena procurar por eles.

 

Jorge Luiz Calife

O Magnífico: O choque da fantasia com a realidade





Fonte: Diário do Vale