‘A gente fica pedindo a Deus pra não acontecer o que aconteceu com a minha família’, diz mulher que perdeu filhos há 1 ano na tragédia em Petrópolis


Chuvas na Região Serrana provocaram enchentes, deslizamentos de terra e causaram a morte de 235 pessoas em fevereiro de 2022. Dois corpos ainda não foram encontrados. Jussara Aparecida, moradora da Chácara Flora, perdeu os dois filhos após chuvas em Petrópolis
Reprodução/TV Globo
Um ano após a maior tragédia da história de Petrópolis, famílias relembram os momentos mais dolorosos da vida. As chuvas na Região Serrana provocaram enchentes, deslizamentos de terra e causaram a morte de 235 pessoas. São pais, filhos, avós, amigos e vizinhos que deixaram saudades.
Jussara Aparecida, moradora da Chácara Flora, perdeu os dois filhos em deslizamento de pedras — Giulia, de 18 anos e Anthony, de 2 anos.
“Esse um ano pra mim foi dos piores. Já passei tempos ruins, mas esse um ano foi um dos piores”, fala.
A avalanche de pedras também arrastou a cunhada grávida e os dois filhos dela.
“O que eu tinha, eu já perdi. Então, a gente fica olhando e só pedindo a Deus que bota a mão pra não acontecer o que aconteceu com a minha família”, pede.
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Lucas Rufino da Silva, de 20 anos, e o pai, Adalton Vieira da Silva, ajudavam uma vizinha que teve a casa alagada quando uma barreira invadiu o imóvel onde moravam.
“Quando cheguei em casa, meu filho tava na cozinha puxando a água do rodo. Falei ‘vem Lucas, vem’. ‘Pai, nós tá perdendo tudo’. E falei: ‘não tem problema não, filho. Vem, vem, vem, vem’”, lembra Adalton.
Adalton Vieira da Silva viu o filho ser arrastado pela enxurrada
Reprodução/TV Globo
A barreira levou o filho, e a enxurrada no pé do morro, a mulher e a filha pequena.
“Quando cheguei na frente da minha casa, só escutei o estouro lá em cima. Bum. A gente olhou pra trás e gritou ‘barreira, pai’. A gente correu contrário, eu só senti como se fosse uma rasteira nas pernas dele. Caiu, aquele negócio escuro passando na minha cara, eu caído dentro do mato’, disse.
Há um ano, além da dor, ele carregava a angústia de não poder se despedir do filho. O corpo de Lucas ainda não foi encontrado.
Heitor Carlos do Santos, de 61, também não foi encontrado. Ele estava num dos ônibus arrastados para dentro do Rio Quitandinha.
O marceneiro Leandro Rocha sempre foi um pai orgulhoso. Para matar a saudade do filho, transformou um pedaço da sala de casa em um memorial.
“[É uma forma] de manter as coisinhas dele, que ele gostava muito. Tudo direitinho, limpinho. Esse coelhinho, ele tinha um ano quando dei de presente pra ele. E ele tinha ciúmes desse coelhinho aqui. Essa roupinha dele também é de quando ele nasceu. Minha avó é que deu de presente”, lembra.
Leandro Rocha montou um memorial em casa com objetos do filho
Reprodução/TV Globo
Gabriel, de 17 anos, estava em cima de um ônibus que foi arrastado pela correnteza.
Na imagem, é possível ver o jovem de roupa preta tentando se equilibrar na lateral do ônibus, que acabou tombando com a força da água.
Gabriel estava em cim de um ônibus que foi arrastado pela correnteza
Reprodução/TV Globo
Foram sete dias até encontrar o corpo do filho. Gabriel morreu depois de ajudar a salvar passageiros desesperados. Leandro mobilizou voluntários e vasculhou o caminho que o rio percorre.
Leandro aprendeu a ser resiliente e hoje sabe que as histórias de perda representam omissão.
“A gente sabe que nós vivemos em uma geografia que é um ponto negativo. Nós estamos rodeados em montanhas, não é isso? Então, qual é nosso papel, qual é o papel das autoridades? Enfim, você ser resiliente ao local onde você está. [Faltou] mais comprometimento, obras preventivas, ação antecipada”, fala.
Gabriel Rocha, de 17 anos, uma das vítimas da tragédia em Petrópolis
Reprodução/TV Globo

Fonte: Portal G1