Vítimas do massacre de Realengo são homenageadas com música e flores em memorial ao lado da escola nos dez anos da tragédia

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Em qualquer dia do ano, passar pelo memorial da Praça Anjos da Paz, no bairro de Realengo, e manter-se indiferente é uma experiência quase impossível. Neste dia 7 de abril de 2021, quando completam-se dez anos desde o massacre na Escola Municipal Tasso da Silveira, feito por um ex-aluno, que terminou com a morte das doze crianças e adolescentes, que hoje são representados em estátuas no jardim, o cenário era de homenagens e emoção na lembrança da data.

Ainda na terça-feira, flores foram colocadas nos monumentos por parentes, que, reforçando até o cuidado e a necessidade de se ter responsabilidade em tempos de pandemia, acrescentaram também máscaras às estátuas. Na manhã desta quarta-feira, integrantes de alguns grupos locais — e que surgiram com a união da comunidade após a tragédia — estiveram no local para prestar uma homenagem. Em pouco número e descaracterizados, por conta da Covid-19, eles promoveram atos simbólicos.

— No ano passado não pudemos fazer nada, soltamos apenas uns balões, e esse ano, nos dez anos da tragédia, nós não podíamos deixar passar em branco. A tragédia do Tasso, infelizmente, foi muito dolorosa para todos nós. Mas temos um legado importante, ela trouxe conscientização às pessoas sobre o bullying e outros temas importantes na escola — disse Luciana Bertolami, do coletivo Anjos de Realengo e que criou com os filhos a Trupe o Quintal Itinerante. — Hoje vieram dois grupos: o instituto Música Para a Vida, criado a partir da tragédia do Tasso, e o meu grupo Trupe Quintal Itinerante, uma família de palhaços que foca o seu trabalho no combate ao bullying e à violência na escola.

Moradora coloca flores em homenagem às crianças mortas na tragédia: cena se repetiu por várias vezes nessa manhã
Moradora coloca flores em homenagem às crianças mortas na tragédia: cena se repetiu por várias vezes nessa manhã Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo

Um músico com um trompete homenageou as vítimas com as canções “Amigo” e “Eu sei que vou te amar”. Outro membro de um dos coletivos, exatamente no horário da tragédia, tocou 12 vezes seu bumbo, em referência às vítimas.

— O meu filho foi criado com os alunos, não só as vítimas fatais, mas os que sobreviveram também. Nós éramos uma família. Ele veio homenageá-los com doze batidas no bumbo, no horário da tragédia. E, como não poderíamos trazer toda a trupe por conta a aglomeração, ele veio sozinho e descaracterizado.

Jovem do grupo de palhaços Trupe Quintal Itinerante tocou 12 batidas no bumbo em homenagem às vítimas, com quem cresceu junto
Jovem do grupo de palhaços Trupe Quintal Itinerante tocou 12 batidas no bumbo em homenagem às vítimas, com quem cresceu junto Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo

Criador do projeto Música Para a Vida, Jander Rafael, que esteve no local, afirmou que a ideia da iniciativa surgiu logo após o massacre: uma forma de, com a cultura, evitar que algo parecido com aquilo acontecesse de novo.

— O que bateu mais forte para mim foi não ter achado esse rapaz antes, e, de alguma maneira, não poder ter evitado tudo aquilo, mas decidimos que se dependesse de nós, não iria acontecer de novo — desabafou Jander. — A ideia do projeto surgiu porque eu tinha nas minhas aulas de música dois alunos que estavam no momento do atentado, e durante as minhas aulas, eles me relataram o caso. A partir daí decidi que precisava alcançar pessoas através da música e artes. Independênte das classes sociais decidimos fazer, e aos poucos, os frutos foram aparecendo. Hoje somos uma banda sinfônica, temos alunos nas forças armadas, dançarinas, alunos que nos tem como parte das suas famílias.

Nesta manhã, também apareceram Adriana Silveira e Andréia Tavares Machado, mães de duas vítimas da tragédia: Luiza Silveira, que morreu no ataque, e Thayane Tavares Monteiro, hoje com 23 anos, que acabou ficando paraplégica após ter sido ferida. Emocionadas, elas assistiram a homenagem e, ainda nesta quarta-feira, assistirão uma missa em homenagen às vítimas no Cristo Redentor.

Adriana Silveira, junto à estátua da filha, Luiza, que morreu na tragédia há dez anos
Adriana Silveira, junto à estátua da filha, Luiza, que morreu na tragédia há dez anos Foto: Márcia Foletto / Agência O Globo

Durante o tempo em que a reportagem esteve no local, vizinhos pararam para rezar, enquanto outros depositaram flores no memorial. Em silêncio, a escola Tasso da Silveira estava vazia, fechada por conta da pandemia.





Fonte: G1

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