Sem carnaval, baluartes, músicos e musas de escolas de samba vão viajar ou se preparar para 2022

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Neste carnaval em que, pela primeira vez, a Sapucaí não é palco para a constelação de sambistas, qual será o nível de nostalgia dos artistas que por décadas são sinônimo do brilho da festa? Nas próximas noites, serão muitas as emoções de Neguinho da Beija-Flor, de mestre Ciça, Rosa, da musa Viviane e do patrono de todos, Monarco. Longe do Sambódromo, essas estrelas enfrentarão o desafio de equilibrar saudade e esperança de um 2022 com vacina e o ziriguidum mais afinado do que nunca para compensar um ano sem o delírio da Apoteose.

Neguinho da Beija-Flor, com o “coração sangrando”, passará o carnaval longe do Sambódromo, em Macaé
Neguinho da Beija-Flor, com o “coração sangrando”, passará o carnaval longe do Sambódromo, em Macaé Foto: Guito Moreto / Extra

Para Neguinho, que não deixou de pisar na Avenida nem quando enfrentava um câncer, a distância da Passarela é como ficar longe de parte considerável da vida. Até o casamento do intérprete foi diante do Setor 1. Ele, que já se apresentou em temporais e sob o sol do meio-dia para buscar títulos para sua escola, foi o primeiro a admitir que não poderia haver folia nem em julho. Mas diz que está com o “coração sangrando”:

— Desta vez, é luto mesmo. Nem sei como vou amenizar a falta dos momentos que sempre foram os melhores da minha vida. O carnaval é meu tudo, meu ganha-pão, minha história, o tempero do meu viver. Mas, infelizmente, estamos em meio a uma pandemia.

Antes de se isolar na casa de um amigo em Glicério, região serrana de Macaé, onde Neguinho vai trocar as notas de samba pelas cartas do buraco e jogar também conversa fora, quis deixar um presente para os fãs da escola de Nilópolis. Gravou os dez sambas que continuam no concurso da agremiação para o carnaval do ano que vem. E adianta que o lançamento será dia 17 para o público escolher seus favoritos ao longo dos próximos meses de distanciamento social.

— Vai ser a disputa mais longa da história — diz o puxador, que põe todas suas fichas na vacina para tudo voltar ao normal.

Monarco, outro astro da festa, vai tomar sua dose hoje. O baluarte de 87 anos, que desfila na Portela desde 1947, ironicamente será imunizado no Sambódromo, onde funciona um posto de vacinação. Junto, vai levar a esperança de voltar aos shows, suspensos desde março, de dar aquele abraço afetuoso nos filhos e netos, de reencontrar a rapaziada para um cafezinho no Bar do Júlio, na quadra da Portela; de rever amigos de todas as horas como Zeca Pagodinho, Jorge Aragão e Nei Lopes, e de comemorar de novo com a velha guarda nas feijoadas. Por enquanto, confessa, anda desanimado, seguindo à risca o confinamento. Mas o ano sabático imposto pela pandemia pode trazer bons frutos.

— Estou vivendo na janela. Passo o maior tempo deitado no sofá, dou uma caminhada no playground, por orientação do médico, e tenho tirado do baú algumas músicas antigas, para mexer numa letra ou numa melodia. No carnaval, não vai ser diferente. Depois de me vacinar, volto para casa, com minha mulher, à espera de dias melhores.

A rainha de bateria do Salgueiro, Viviane Araújo, vai viajar. E vai levar na bagagem a saudade de quem, há 26 anos, é aplaudida pela plateia do primeiro ao último passo na Avenida. Assim como Monarco, no entanto, não é apenas desses minutos de esplendor que ela sente falta. Há um vazio também do samba que se vive o ano inteiro, ensaios na quadra ao lado de seus mestres de bateria, Guilherme e Gustavo, dos ritmistas e dos amigos.

— Eu era quase a primeira a chegar e a última a sair. Quem me conhece sabe que aquilo é um amor incondicional. Tenho tentado suprir essa falta em casa, reunindo os amigos mais próximos para ouvir samba e assistir a desfiles — conta a rainha.

A carnavalesca Rosa Magalhães é outra que aderiu a essas recordações de antigas folias. Neste fim de semana, que no passado seria de correria para pôr a Imperatriz Leopoldinense na briga pelo campeonato, ela vai rever antigos carnavais na internet e acompanhar lives sobre escolas de samba. Com meio século de carnaval, Rosa não parou de pensar num próximo desfile. Mergulhou em pesquisas para homenagear o carnavalesco Arlindo Rodrigues e anotado tudo num “cadernão”. Até o clima que pretende levar para a Sapucaí pós-coronavírus, ela já imagina:

— A Imperatriz vai ser a primeira a desfilar no Grupo Especial. O povo estará enlouquecido. Vai ser um grande alívio — afirma Rosa.

Conhecida também por ter os cabelos sempre coloridos, ela já sabe o que fará quando puder frequentar a rua novamente:

— Vou ao cabeleireiro, porque meu cabelo estava um horror, e eu mesma cortei, sem dó nem piedade. Por enquanto, estou longe de tudo, como numa prisão domiciliar, mas sem tornozeleira nem culpa no cartório.

Mestre Ciça, que comanda a bateria da campeã Viradouro, tenta manter o bom humor. Mas o sambista, acostumado a levantar as arquibancadas com suas bossas e paradinhas, teve dias de “tristeza sem fim”. Ele perdeu um irmão para a Covid-19. E, na madrugada em que fevereiro chegou, teve um crise de choro, olhando a cidade pela janela de casa, no Estácio, onde mora. Era como se passasse em sua cabeça um filme sobre quase 50 anos de carnaval, 34 deles como mestre de bateria:

Mestre Ciça, que perdeu um irmão para a Covid-19, relata “tristeza sem fim”
Mestre Ciça, que perdeu um irmão para a Covid-19, relata “tristeza sem fim” Foto: Guito Moreto / Extra

— Estou sofrendo porque sou apaixonado. Sem a Sapucaí, não sou ninguém. Dou minha vida ali. Às vezes reclamava um pouco de que estava cansado. Nunca mais vou repetir isso — diz ele, acrescentando que, no momento, só desfila de máscara, em caminhadas em que sobe as ladeiras do Morro de São Carlos e cruza as esquinas onde nasceu a primeira escola de samba.





Fonte: G1

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