Sem água, moradores do Rio usam fonte pública, reservatório de piscina e apelam para carro-pipa

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A dona de casa Eva Maria de Carvalho, de 55 anos, tem precisado sair de casa todos os dias e carregar dois baldes d’água de uma fonte no Largo do Pedregulho, em Benfica, Zona Norte do Rio. São cerca de 400 metros até o local onde ela consegue buscar a água que vai ser utilizada para cozinhar, tomar banho e beber. Com problemas de abastecimento que atingem pelo menos 17 bairros do Rio, além da cidade de Nilópolis, na Baixada Fluminense, moradores têm se virado para cumprir as atividades em casa.

— É muito sacrifício. Eu estava indo na casa de parentes tomar banho e trazia água de lá para abastecer em casa. Agora, venho aqui todos os dias para encher os baldes. Isso é um absurdo. Eles não cumprem com a obrigação do abastecimento, mas nós temos que pagar a conta todo mês. É tudo muito errado – conta a dona de casa.

O comerciante João Vicente Sobrinho, de 49 anos, é dono de um bar em Benfica, na Rua São Luiz Gonzaga. Ele acreditou que o momento seria de retomada profissional. No entanto, os últimos dias são de sufoco.

— Passei meses com o meu bar fechado e sem trabalhar. Passada parte dessa crise, vem agora a Cedae para complicar nossa vida. Essa água aqui da fonte é para lavar as louças, usar no vaso sanitário e limpar o chão. Para cozinhar e beber, eu compro água todos os dias. Foram mais de R$ 200 nos últimos 15 dias — conta ele, que carrega, com ajuda da bicicleta, 30 baldes por dia.

Na Rua Marechal Aguiar, em Benfica, os moradores também estão sem receber água nas torneiras há duas semanas. A professora Fátima Bastos, de 66 anos, tem usado a água armazenada na piscina para amenizar o problema. Mesmo assim, as dificuldades ainda são muitas: a mãe de Fátima, com 89 anos, precisa de cuidados médicos com atendimento de home care.

— As enfermeiras chegam à minha casa e não podem tomar banho, o que deveria ser o certo devido à pandemia de Covid-19. Olha o risco que estamos correndo — alerta Fátima, que revela ainda a dificuldade para comprar carro-pipa. — Os preços subiram, quase dobraram. E mesmo assim o tempo de espera está maior. Às vezes, acertamos a compra e logo depois a empresa liga e cancela. O carro-pipa gratuito da Cedae está sendo prometido para daqui a cinco dias úteis. Nós não temos como esperar.

Apesar do desabastecimento na rua, um funcionário da Cedae esteve no local para realizar a medição dos hidrômetros. Na casa do técnico em eletrônica Rafael Garcia, de 38 anos, a pia cheia de louças acumuladas é o retrato da falta d’água.

— É até vergonha dizer, mas ontem (quinta-feira) eu não consegui tomar banho. Não tinha uma gota d’água. Tenho dois filhos pequenos e é ainda mais complicado. Já fiquei acordado uma madrugada inteira para ver o horário em que a água ia cair. Foi 4h30, e durou cerca de 20 minutos só. E para piorar ela veio um fio, fraquinha.

Clínica da família sem água

Caminhão-pipa da Cedae abastece clínica da família que está sem água
Caminhão-pipa da Cedae abastece clínica da família que está sem água Foto: Diego Amorim / Agência O Globo

No bairro São Francisco Xavier, Zona Norte do Rio, a Clínica da Família Dona Zica está sem fornecimento regular de água há cerca de dez dias. Desde então, segundo funcionários, a Organização Social (OS) que administra a unidade comprou dois carros-pipa. Mas no início da tarde desta sexta-feira, foi um caminhão da Cedae que descarregou 15 mil litros de água na cisterna da clínica.

— A água cai durante poucos minutos do dia e mesmo assim ela vem sem força nenhuma, aí não conseguimos armazenar. Estamos usando carro-pipa desde então — conta uma funcionária, sem se identificar.

De acordo com um motorista da Cedae, cada equipe tem feito entre três e quatro viagens por dia com caminhões de capacidade de 10 e 15 mil litros. Esse é o máximo de entregas que a estatal consegue fazer por conta do tempo excessivo para realização do serviço, que às vezes pode demorar até três horas.

Gabinete de crise e solução em 23 dias

Em meio a uma pandemia de Covid-19 e ao calor, a falta de água é em razão de um problema na Elevatória do Lameirão. O reparo da Cedae se estende por mais de uma semana. O problema afeta um milhão de pessoas. Com três motores fora de operação, a elevatória trabalha com 75% de sua capacidade. A Cedae tem feito manobras para tentar não deixar áreas do Rio desabastecidas, como uma espécie de rodízio. Contudo, moradores indicam que a medida tem sido ineficaz. A previsão de normalização do serviço é em até 23 dias.

O Ministério Público do Estado (MPRJ) e a Defensoria Pública pressionaram a Cedae a respeito da transparência das medidas adotadas para minimizar os efeitos. Diante desse movimento, a companhia anunciou a criação de um gabinete de crise para tratar das medidas para minimizar os impactos dos problemas na elevatória.





Fonte: G1