Rodas de samba do Rio planejam a sua volta após sete meses proibidas

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Sem rodas de samba desde março, quando aglomerações foram proibidas para conter o avanço da pandemia do novo coronavírus na cidade, as principais rodas de samba do Rio começam a planejar sua volta, após a prefeitura autorizar a inclusão desses eventos na fase 6B de retomada das atividades. Elas haviam ficado de fora na divulgação da última etapa de flexibilização, anunciada na quinta-feira, mas, após protestos de sambistas, a prefeitura voltou atrás e decidiu permitir as rodas.

Os eventos terão de seguir regras como capacidade reduzida, distanciamento social e uso de máscaras por músicos e frequentadores e que não tenham pista ou espaço para dança, entre outras.

Depois de segunda-feira à noite o samba voltar a ecoar ontem na Pedra do Sal, reunindo centenas de pessoas — a grande maioria sem máscara —, outras rodas já têm calendário de retorno. O compositor Moacyr Luz, que comanda o Samba do Trabalhador, planeja para o feriado de Finado (2 de novembro) o retorno da tradicional roda de samba que acontece toda segunda-feira no Clube Renascença, no Andaraí. O evento que recebe uma média de 1 mil pessoas a cada realização, vai voltar com capacidade de público reduzida, distanciamento social, exigêcia do uso de máscara e higienização das mãos, segundo Luz.

— Foi a coisa mais sensata (a permissão das rodas). É uma manifestação carioca. Vejo pelo Samba do Trabalhador, evento que tem a simpatia da cidade e atrai turistas de outros estados. É inadmissível permitir outros gêneros, como o rock’n roll, e proibir rodas da samba — criticou o músico, que disse ter feito na semana passada uma apresentação em São Paulo já dentro das regras do chamado “novo normal” — Era para um público reduzido, sem pista de dança e com as pessoas dançando nas suas mesas. É possível fazer, tudo vai se adaptando.

Outra roda de samba que já programou o retorno, também com promessa de se adaptar ao chamado “novo normal”, é o Samba da Feira, que até o começo da pandemia acontecia aos sábados na Praça do Trem, no Engenho de Dentro, sempre com um convidado especial, já tendo recebido artistas como Maria Rita, Diogo Nogueira, Tiee e Belo, entre outros, com público entre 2.500 a 3 mil pessoas. A volta, prevista para o próximo dia 17, será mais simples, apenas com a banda de base do evento.

— A gente está com uma saudade imensa. Brinco com meus familiares e amigos que esse período de pandemia é igual ao da amamentação em que tiram o leite da criança. A gente está com muita saudade do público e do evento em si. Desde pequeno frequento as rodas e ficar sem samba e sem sentir aquela energia é muito difícil. Mas foi necessário e, apesar de a gente saber que não vai voltar cem por cento, a expectativa é de fazer um trabalho sério como sempre e se adequar e planejar para atender às normas — afirmou Mário Castilho, um dos organizadores do evento.

Castilho diz que não vê dificuldade em adequar a roda às normas exigidas, no que diz respeito ao distanciamento social e redução de público. O maior desafio vai ser controlar a empolgação das pessoas, diz:

— Claro que vai ser uma novidade, porque o samba tem muito da questão da energia, com o público ali colado junto, se abraçando e se beijando. Mas, é um novo normal que com certeza a galera do samba vai se adequar. A gente está preparando algumas modificações. O Samba da Feira é hoje a maior roda de samba do Rio de Janeiro, é um evento semanal, e com certeza os holofotes vão estar todos voltados para a gente. Queremos fazer um trabalho bacana e servir como exemplo até mesmo para que a prefeitura não volte atrás — acrescentou.

Cacique de Ramos vai esperar mais

Já os organizadores de outra tradicional roda de samba da cidade, a do Cacique de Ramos, que em 2021 completa 60 anos, preferem apelar para a cautela e ainda não anunciaram uma possível data para o retorno. Bira Presidente, que aos 83 anos está no grupo de risco da Covid-19 e já perdeu vários amigos para a doença, acha que o momento ainda está complicado. Sua principal preocupação, além do pessoal envolvido na realização do evento (acima de 30, incluindo músicos, técnicos e pessoal de apoio), é com o público, entre 5 mil e 6 mil pessoas que não pagam ingresso para entrar no evento que acontece sempre aos domingos, na quadra de Ramos.

— Estou vivendo um momento de muita preocupação. Tenho responsabilidade pelo que assumi com o Cacique de Ramos, que é um local onde vão muitas famílias. O fator principal do Cacique é o convívio. É uma continuação da casa da maioria das pessoas que querem descontrair e levar filhos. É uma média de 5 mil a 6 mil pessoas e de dez a 20 ônibus de excursão.Vem todo domingo, principalmente no dia da feijoada (o terceiro do mês). A gente sente muito porque ali é uma descontração familiar mesmo. Como explicar a essas pessoas que nem todos vão poder entrar? — indagou.

A Prefeitura informou que o papel da Vigilância Sanitária é fiscalizar o cumprimento das medidas higiênico-sanitárias, mas não explicou como isso será feito no caso das rodas de samba. Mas, recomendou que denúncias de desobediências às normas sejam encaminhadas por meio da Central 1746.

Um levantamento da prefeitura aponta para a existência de 213 rodas de samba em toda a cidade, que geram trabalho e renda para cerca de 4 mil músicos. Esses eventos integram o Calendário Oficial das Rodas de Samba Carioca, uma resolução conjunta assinada pelas secretarias de Cultura, Fazenda e Desenvolvimento, Emprego e Inovação, que regulamenta o decreto 43.423, de julho de 2017. A iniciativa teve o objetivo de dispensar a necessidade de alvará e estabelecer locais, datas e horários para esse tipo de evento.

Pedra do Sal

Na reestreia da roda de samba da Pedra do Sal, na segunda-feira à noite, os grupos de pagode tocaram num palco improvisado na Rua São Francisco da Prainha, que faz parte do corredor cultural. O point principal, onde fica o paredão rochoso, não foi usado por ser um espaço menor e mais fechado.

Para tentar reduzir o escopo do evento, os organizadores também diminuíram o número de barraquinhas de comida e bebida, de 60 para 25. Por volta das 20h, o cantor Jefferson Oliveira dos Santos, de 36 anos, um dos organizadores, pediu ao microfone:

— Vamos cooperar usando máscaras e mantendo distância segura!

O apelo, no entanto, não funcionou. Com cerveja ou caipirinha nas mãos, a esmagadora maioria dos frequentadores sambou sem o acessório como se não houvesse amanhã.

Para quem trabalha no evento, a retomada foi um alívio. O percussionista Júnior Duarte, de 38 anos, morador da Gamboa, fez entregas por aplicativo nos últimos seis meses para sustentar a família. Ontem, ao voltar a cantar e tocar na Pedra do Sal, não conteve a emoção:

— Foi um tempo muito difícil. Quando as rodas foram proibidas, perdi todos os trabalhos como músico. Cheguei a pegar cesta básica para ter o que comer. Mas o samba não morre nunca, graças a Deus, e estamos aqui de novo.

Vendedora de espetinhos há 5 anos no evento, Jackeline Mayara da Silva, de 36 anos, usa máscara e tem álcool gel
Vendedora de espetinhos há 5 anos no evento, Jackeline Mayara da Silva, de 36 anos, usa máscara e tem álcool gel Foto: Fabio Rossi / Extra

Vendedora de espetinhos há 5 anos no evento, Jackeline Mayara da Silva, de 36 anos, criou um protocolo para a sua venda de churrasco.

— Vou usar máscara o tempo todo e passar álcool gel em mim e nos clientes — diz ela, que preparou 250 espetinhos para a noite, bem menos do que os 400 que vendia antes da pandemia.

Entre o público, não parecia haver preocupação com o contágio de Covid-19. A estudante Martha Telles, de 22 anos, estava acompanhada de três amigas, as quatro sem máscaras, apesar de nem todas estarem com copo de cerveja na mão.

— Com essa aglomeração não adianta nada ficar com máscara. Isso aqui está que nem a praia, no fim de semana — disse, rindo.

No acesso à Pedra do Sal, um carro da Polícia Militar com dois policiais montava guarda. O EXTRA não viu, no entanto, presença da Guarda Municipal ou de agentes da Vigilância Sanitária do município.





Fonte: G1

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