Rio Ônibus obtém liminar judicial para suspender greve de rodoviários; BRT tem operação parcial


Passageiros dos corredores do BRT não conseguem usar o transporte na manhã desta terça-feira em razão da greve dos rodoviários. Na noite desta segunda-feira, o Sindicato dos Rodoviários do Rio de Janeiro aprovou uma paralisação por tempo indeterminado de motoristas e cobradores. O Rio Ônibus conseguiu uma liminar judicial, ainda nesta madrugada, para proibir o movimento, sob risco de multa. Apesar da decisão, o BRT começou o dia sem circulação nos três corredores — Transolímpico, Transoeste e Transcarioca. Sem os articulados, a Mobi.Rio realocou 70 ônibus comuns que rodam na Avenida Cesário de Melo para operar no eixo do BRT Transoeste entre Santa Cruz e Alvorada. Esses ônibus são alugados, e a mudança permitiu a reabertura do trecho da Cesário de Melo. Os coletivos de linhas normais, segundo o Rio Ônibus, estavam com 50% de circulação às 8h.

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O Rio Ônibus, sindicato que representa os consórcios do transporte rodoviário na cidade, conseguiu uma liminar judicial no início da madrugada desta terça-feira que proíbe realização da greve decretada por rodoviários na cidade do Rio sob pena de multa diária de R$ 200 mil ao Sindicato dos Rodoviários caso a determinação seja descumprida. Em Campo Grande, na Zona Oeste, às 5h30, era normal a circulação de ônibus no terminal rodoviário. No entanto, a estação do BRT Campo Grande estava fechada. Passageiros dizem que nenhum articulado circula desde a meia-noite.

— Eu trabalho em Paciência e não tenho outra opção de transporte público para chegar lá se não for o BRT. Estou vendo se consigo alguma carona com amigos que vão até lá de carro. Cheguei à estação e me deparei com as portas fechadas — diz Gabriel Fernandes, de 21 anos, morador de Campo Grande que às 5h50 tentava encontrar uma solução para ir trabalhar.

Sem o sistema BRT funcionando, pontos de onibus comuns ficam lotados
Sem o sistema BRT funcionando, pontos de onibus comuns ficam lotados Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo

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De acordo com o Rio Ônibus, cerca de 50% da frota está em circulação no início da manhã desta terça-feira na cidade. A tendência é que esse número aumente à medida que mais carros forem colocados nas ruas. A previsão é de que a circulação aumente para 60 por volta das 9h. Porém a situação só deve ser normalizada à tarde porque muitos rodoviários ainda desconhecem a liminar que proíbe a greve. Houve piquetes na entrada e próximo a algumas garagens. O sindicato das empresas tem pedido que os rodoviários voltem aos postos de trabalho.

— Nós sabemos do cenário que a categoria atravessa e já estamos em tratativa com a prefeitura do Rio na busca de soluções para resolver os problemas das empresas, dos rodoviários, da própria prefeitura e, principalmente, da população do Rio de Janeiro, que merece um transporte melhor — diz Paulo Valente, porta-voz do Rio Ônibus.

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BRT funciona parcialmente com ônibus comum

O funcionamento do sistema BRT vai das 4h à meia-noite. Na primeira hora de operação desta terça, ninguém apareceu nas garagens do BRT. Os pátios estavam lotados de articulados estacionados. A Mobi.Rio chegou a tentar contato com rodoviários para pegá-los em casa, mas muitos desligram os celulares ou não atenderam as ligações. Às 6h30, o sistema começou a realocar ônibus comuns para atender o trecho do corredor Transoeste entre Santa Cruz e Alvorada, na Barra da Tijuca.

— A maior paralisação que a gente está vendo, de novo, é no BRT. Enfim, mais uma vez muito estranhamente nenhum motorista do BRT apareceu. O que a gente está buscando é colocar esses diretões. A gente está vendo nas imagens (mostradas pela TV Globo) esses diretões fazendo ali uma busca nas principais (estações), na Transoeste, que é de fato o BRT com maior distância, então você precisa mais desses diretões. A gente vem fazendo um esforço para que esses ônibus possam atender à população. Mas é óbvio que, numa situação dessa, você tem um serviço que já não está bom, muito prejudicado — disse o prefeito do Rio, Eduardo Paes, em entrevista ao “Bom Dia Rio”, da TV Globo, nesta terça-feira.

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Há pouco mais de um mês, no dia 25 de fevereiro, motoristas do sistema BRT fizeram uma paralisação e não tiraram os ônibus articulados da garagem. Assim como hoje, a prefeitura recorreu a coletivos comuns para atender à população, mas a frota não foi o suficiente para evitar superlotações nas estações. A volta ao serviço só aconteceu após um acordo firmado com o Sindicato dos Rodoviários e o município, que envolveu a garantia de não demitir os líderes da paralisação por justa causa e a promessa de reajuste de salários dos rodoviários conforme o que for determinado por futuro dissídio coletivo da categoria.

Saga para chegar ao trabalho

Pelas ruas de Campo Grande e também no terminal rodoviário, linhas municipais como 867 (Campo Grande x Estrada da Ilha), 397 (Campo Grande x Candelária), 846 (Campo Grande x Rio da Prata) estão circulando normalmente. O pedreiro José Ailton, de 46 anos, mora em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, e não sabe o que fazer para chegar ao trabalho na Barra da Tijuca, já que utiliza três linhas do BRT.

— São três ônibus até eu chegar ao meu trabalho. Já deixei o meu patrão avisado que talvez eu não consiga chegar. Vamos ver se, ao longo da manhã, as estações do BRT abrem. Caso contrário, eu vou ter que voltar para casa. Não tem outra solução.

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A empregada doméstica Elisabete Nicácio, de 52 anos, pega quatro conduções para chegar ao trabalho, na Barra da Tijuca, na Zona Oeste. Ela mora em Seropédica, na Baixada Fluminense, e fez uso de uma linha intermunicipal até Campo Grande, onde embarcou na linha 38 até a estação do BRT Magarça, encontrando-a fechada às 6h. Sem ter como seguir viagem, tirou uma foto e mandou para a patroa como justificativa por não ter ido trabalhar nesta terça-feira.

— É o sufoco da gente, o sufoco de todo trabalhador. Quando não é ônibus lotado, é a falta dele impedindo a gente de ir para o trabalho. Não posso pagar mais caro em outro transporte sem a patroa autorizar.

Do lado de fora da estação, dezenas de passageiros tentavam encontrar um jeito de se deslocarem. Mototaxistas oferecem o trajeto até o Recreio dos Bandeirantes por R$ 20. Vans, que geralmente cobram uma tarifa normal, nesta terça-feira estão exigindo R$ 15 dos passageiros. Nem os carros de aplicativos é solução fácil.

— Fiz uma estimativa e está dando quase R$ 80 até a Barra da Tijuca, numa viagem que geralmente daria, no máximo, R$ 30. É muita gente pedindo, o preço sobe, né? — comparou Elisabete.

Na Avenida Niemeyer, passageiros tentam embarcar em ônibus que já chegam lotados
Na Avenida Niemeyer, passageiros tentam embarcar em ônibus que já chegam lotados Foto: Arquivo pessoal / Dan Delmiro

Na Zona Sul, na Avenida Niemeyer, tem ônibus circulando, mas isso não garante o embarque de quem aguarda nos pontos. Isso porque os coletivos já chegam lotados à região. O intervalo para ver um dos veículos varia de 25 a 45 minutos de espera, conta o morador Dan Delmiro:

— Na Avenida Niemeyer os ônibus estão circulando, mas passando direto dos pontos, porque estão vindo lotados. Aqui o pessoal já sofre com questão de ônibus, que não tem ônibus para Botafogo nem nada, ainda mais nesse horário.

Decisão judicial fala em serviço essencial

A decisão a favor do Rio Ônibus foi assinada pela desembargadora Edith Maria Correa Tourinho, presidente do Tribunal Regional do Trabalho da Primeira Região (TRT-1). O texto aponta que, como serviço essencial, sindicatos, empregadores e trabalhadores ficam obrigados, de comum acordo, “a garantir, durante a greve, a prestação dos serviços indispensáveis ao atendimento das necessidades de toda comunidade”

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O Rio Ônibus alega que o movimento não resolverá o problema da classe e agrava a atual crise de mobilidade no Rio. Segundo o porta-voz Paulo Valente, o reajuste de salários exigido pela categoria depende de ações externas, já que três dos quatro consórcios se encontram em recuperação judicial. Além disso, o Rio Ônibus apela para que profissionais não façam adesão à paralisação e assumam os seus postos de trabalho, atendendo a população até que haja resultados dos diálogos mantidos com a prefeitura na busca por soluções.

— O Rio Ônibus e os consórcios que ele representa estão empenhados em colocar toda a frota em operação nas ruas. A greve é ilegal, é preciso que a categoria compareça às garagens para trabalhar normalmente no Rio — ressalta Valente.

Passageiros se ajeitam como podem para embarcarem em ônibus durante greve dos rodoviários
Passageiros se ajeitam como podem para embarcarem em ônibus durante greve dos rodoviários Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo

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Motoristas são buscados em casa

O presidente do Sindicato dos Rodoviários, Sebastião José, afirma que profissionais da categoria, que estão nas garagens, estão sendo buscados em casa pelas empresas para que voltem ao trabalho e que há relatos de alguns sofreram ameaças para saírem com os ônibus das garagens sob pena de sofrerem sanções e até demissão. Segundo Sebastião José, o sindicato ainda não foi notificado sobre a liminar que colocaria fim na greve.

“As empresas estão usando a liminar como forma de impor o retorno dos profissionais, porém o sindicato ainda não foi comunicado oficialmente da liminar. Assim que isso ocorrer, iremos convocar uma assembleia para comunicar a categoria a decisão judicial. Isso já era esperado por parte das empresas, que trata a categoria como gado e sem nenhuma sensibilidade em relação às necessidades da categoria”, diz o presidente do sindicato em trecho de nota.

Estágio de mobilização

O Rio entrou em estágio de mobilização por conta da greve e da possibilidade de chuva moderada nas primeiras horas da manhã desta terça-feira, que trazem risco de ocorrências de alto impacto na cidade. Por conta disso, a prefeitura do Rio orienta aos cariocas a trabalharem de casa. Caso tenha necessidade de ir presencialmente, a orientação é evitar o horário de pico do Metrô, das barcas, dos trens e do VLT. Em nota, a prefeitura ainda diz que está tomando as providênciais judiciais para “assegurar a prestação do transporte público pelos motoristas e pelas concessionárias”.

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O MetrôRio informa que, em caso de necessidade, vai estender o horário de pico para atender a demanda da população. O Metrô na Superfície (MNS) funciona normalmente. Já a Supervia destaca que segue monitorando a movimentação de clientes nas estações e que poderá incluir trens extras caso necessário.

Ônibus passa lotado pela Avenida Niemeyer, na Zona Sul do Rio
Ônibus passa lotado pela Avenida Niemeyer, na Zona Sul do Rio Foto: Arquivo pessoal / Dan Delmiro

Sindicato pede compreensão dos usuários

Em assembleia na noite de segunda-feira (28), cerca de 450 motoristas e cobradores decidiram pela greve após a categoria considerar total descaso dos empresários em relação a apresentação de propostas sobre o dissídio. Além disso, o Sindicato dos Rodoviários cita que os trabalhadores estão há mais de três anos sem nenhum reajuste, seja de salário, tickets ou cesta básica, e que, durante todo esse tempo, o grupo enfrenta empresários por melhoria.

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O presidente do sindicato, Sebastião José, pediu compreensão da população e disse que ela também tem sido prejudicada.

— Desde setembro de 2021, nós tentamos negociar a recomposição do piso salarial da categoria e da cesta básica, mas sem ter nenhuma proposta encaminhada pelos empregadores. Assim, os trabalhadores não aguentam mais atuar em condições precárias. A greve está decretada. Por isso, pedimos a compreensão da população para essa nossa luta, população essa que tem sido prejudicada com o sucateamento e a falência do transporte público, que é de péssima qualidade para nós e usuários.

Uma nova assembleia foi convocada para esta terça-feira (29), às 14h, na sede do sindicato, em Rocha Miranda, Zona Norte do Rio, caso a proposta seja apresentada.

— Intransigência e falta de sensibilidade por parte deles (empresários) falou mais alto e, com isso, quem acaba pagando a conta, além de motoristas, são os usuários que já convivem com a precariedade dos ônibus. Jamais presenciei um quadro tão tenebroso no transporte público como esse de agora — lamentou o sindicalista.





Fonte: G1