Retrato da precariedade nos hospitais universitários do Rio, Fundão admite operar com 200 leitos abaixo do que poderia

Houve um tempo em que o Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, da UFRJ, na Ilha do Fundão, era referência em atendimento à população fluminense. Mas, hoje, tornou-se o retrato da precariedade que atinge os hospitais universitários federais do Rio. No prédio de quase 50 anos, depósitos de sucatas, lixo e restos de materiais se acumulam onde deveria haver pacientes sendo cuidados e médicos trabalhando. No 11° andar, por exemplo, cerca de 42 camas — em boas condições — padecem sem uso. E quem precisa de atendimento, sofre com a falta de profissionais e leitos fechados: o próprio hospital admite operar com 200 vagas a menos do que poderia.

A situação não difere muito dos seis hospitais federais administrados pelo Ministério da Saúde no Rio. Como mostrou O GLOBO, eles têm mais de 450 leitos fechados, enquanto a média mensal de internações caiu 18% com relação a 2019, antes da pandemia. No Fundão, a aposentada Leonila Tardin, de 70 anos, é paciente do hospital há duas décadas. Moradora da Pavuna, ela conhece bem a realidade degradante da unidade. Ela começou a frequentá-la em 2012, para fazer um tratamento de hepatologia, procedimento que segue realizando nos dias atuais. Leonila já perdeu as contas de quantos exames fez no hospital ao longo do tempo. Já o número de consultas que deixou de fazer, está na ponta da língua e dos encaminhamentos.

— Estou tentando marcar ginecologista há um ano. Eles dizem que não tem vaga e que não tem médico. Tento marcar também o otorrino, e a resposta é sempre a mesma. Além disso, estou aguardando por uma tomografia desde 2020. Até hoje, não consegui. Esse hospital já foi bom. Antigamente, em 2005, eu chegava aqui e conseguia ser atendida logo. Agora, se a minha consulta está marcada para às 10h30, eu preciso chegar aqui no mínimo às 7h para conseguir pegar uma ficha, mesmo estando marcada. As filas viram o quarteirão. E como os elevadores vivem quebrando, sou obrigada a machucar meu joelho subindo escadas até o 4° andar, onde geralmente eu me consulto — desabafou a aposentada esta semana.

Leonila é paciente há duas décadas do Hospital do Fundão
Leonila é paciente há duas décadas do Hospital do Fundão Foto: Marcia Foletto / Agência O Globo

A redução do número de leitos contribui para esse cenário. De acordo com o Censo Hospitalar Público do Rio, às 19h30 desta quinta-feira eram 143 deles fechados (41% dos 345 que deveriam estar disponíveis à população). Quase a totalidade deles estava bloqueada por falta de médicos e enfermeiros.

Segundo a unidade, no auge da pandemia, o hospital alcançou a marca de 320 leitos aptos a serem ocupados por pacientes. Mas atribui essa quantidade à verba suplementar do Ministério da Saúde destinada ao combate ao coronavírus. Atualmente, cerca apenas de 200 leitos estão ativos, mas a unidade reconhece que há potencial para se chegar a 400, desde que haja recursos humanos adequados.

“A redução de leitos já vem acontecendo desde dezembro de 2021, com o fim do repasse dessa verba suplementar. À época, a direção-geral, articulada com as esferas federal, estadual e municipal, conseguiu um aditivo para manter os contratos de cerca de 450 profissionais até o fim de agosto de 2022”, explicou o hospital.

A infraestrutura tampouco ajuda. Nas escadas de emergência do hospital, principal área de circulação dos pacientes e médicos residentes, há pisos soltos e paredes descascadas. No teto, buracos com cerca de 40 centímetros deixam à mostra fios, encanação e o forro envelhecido. Nos elevadores, há portas arrancadas e fios desencapados. Pelos corredores da unidade, que já sofreu pelo menos três incêndios, há extintores sem sinalização.

O que diz a administração da unidade

O hospital garante que toda a sua estrutura elétrica e hidráulica corresponde à década em que ele foi projetado. E põe a culpa da demora nos reparos na complexidade das instalações. Segundo a unidade, em outubro foi ativada uma nova subestação como parte das ações de modernização elétrica. No entanto, o que ainda pode ser visto são fios desencapados e andares sem energia.

Quanto às verbas para manter o Clementino Fraga Filho (HUCFF), a administração do hospital afirma que é uma unidade de saúde, ensino e pesquisa vinculada à UFRJ. “Apesar disso, a Universidade não é sua única fonte de financiamento. A maior parte dos recursos da unidade é oriunda do Sistema Único de Saúde (SUS), cuja verba é destinada ao custeio das atividades assistenciais do Hospital. O aporte de recursos da UFRJ investidos no HUCFF é destinado ao pagamento de limpeza, vigilância e orçamento participativo”, diz a administração em nota.

Além disso, esclarece que o pagamento de cerca de 600 prestadores de serviços — denominados extraquadros — é feito com os créditos orçamentários e os recursos financeiros descentralizados pela Pró-Reitoria de Planejamento, Desenvolvimento e Finanças (PR3/UFRJ).

“Para este mês, os créditos orçamentários e os recursos financeiros descentralizados pela PR3/UFRJ ao HUCFF já estão destinados. Desta forma, ainda não há impacto dos cortes no atendimento aos pacientes”, afirma o diretor-geral Marcos Freire.



Fonte: Portal G1