quatro servidores que realmente trabalham para o bem do povo

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Servidores exemplares, que se entregam pelo bem da administração pública. Eles estão por toda parte. É o professor de Xadrez, que tenta dar um xeque-mate nas dificuldades enfrentadas por alunos carentes de uma escola cercada por favela e os torna campeões no esporte e na vida; a professora de Ciências, que aposta tudo no ensino público de qualidade; enfermeiros, que apesar das dificuldades da rede pública, buscam fazer a diferença na vida dos pacientes e de seus familiares, entre tantos outros. Esses são os verdadeiros guardiões do Rio.

Diferentemente dos “Guardiões do Crivella” , como ficou conhecido o grupo que faz plantões na porta de hospitais municipais para impedir o trabalho da imprensa e as denúncias dos parentes dos doentes, eles nem sempre ganham salários polpudos como o de Marcos Paulo de Oliveira Luciano, apontado como chefe e que recebe R$ 18 mil. Porém, todos têm em comum o amor à profissão e ao serviço público.

Doutora na sala de aula

Toda a vida escolar de Lucineia Alves, de 49 anos, moradora do Andaraí, foi na rede pública. Há 16 anos lecionando em escolas do município do Rio, a professora ainda acredita ser possível um ensino público de qualidade. E tem trabalhado para isso. Com mestrado e doutorado em Biologia Celular e Molecular pela Fiocruz e pós-doutorado em Neurociência pela UFRJ, além de vários livros publicados e diversos prêmios no magistério, desde março é lotada na Escola Municipal Orsina da Fonseca, na Tijuca.

A professora de Ciências, que valoriza as atividades práticas em sala de aula, lamenta as limitações enfrentadas na pandemia pelos alunos, que não têm computador em casa nem acesso à internet. Ela acredita que, quando as aulas presenciais voltarem, será preciso fazer um diagnóstico do aprendizado e um nivelamento.

Lucineia, que até o começo o ano atuava na Escola Municipal Olímpica Carioca Juan Antonio Samaranch, em Santa Teresa, inscreveu um projeto num edital da Faperj de olho no prêmio de R$ 22 mil para equipar o laboratório da escola e aposta na educação para transformar vidas. Uma de suas metas é incentivar o interesse das alunas pela Ciência, como forma de ampliar a participação feminina na área.

— Ser professora é querer que o aluno tenha um mundo um pouco mais amplo, uma visão de vida um pouco melhor. Amo o que faço apesar de todas as dificuldades e da falta de valorização — diz a professora, que, apesar de ser doutora em Ciências, não recebe gratificação pelo título e tem vencimentos líquidos em torno de R$ 6 mil.

Enfermeira Luciene: trabalho para dar qualidade de vida aos pacientes
Enfermeira Luciene: trabalho para dar qualidade de vida aos pacientes Foto: Acervo pessoal

Enfermeira faz “ponte” com a família

Trabalhar como enfermeira era o sonho de infância de Luciene Amaral, de 42 anos, e realizado há 12. Há seis, ela trabalha na emergência do Hospital Municipal Miguel Couto, no Leblon, onde coordena a equipe da sala amarela. Acostumada a atender nos plantões dezenas de pacientes com os mais diferentes traumas e problemas de saúde, a profissional aposta na aproximação dos parentes como forma de amenizar o sofrimento dos doentes e contribuir para uma recuperação mais rápida.

— A gente conversa com eles, explica o estado do paciente e os leva até ao médico para serem orientados sobre os procedimentos a serem realizados, inclusive depois da alta, com o paciente em casa, para que possam ter uma qualidade de vida sem precisar ficar retornando ao hospital por deslizes que no final podem alterar o seu estado de saúde — explica.

Mesmo com as restrições de visitas, por conta da pandemia, na quinta-feira ela permitiu que um filho visse por cinco minutos a mãe de 89 anos, internada após sofrer uma queda. Antes disso, como a idosa sentia muita saudade, a enferemeira chegou a usar o próprio telefone para colocar os dois em contato. Atitude simple, mas que para a profissional faz toda a diferença.

— Por conta da pandemia, não dá para liberar (a visita) para todo mundo. Mas existem esses casos mais delicados, e é claro que isso ajuda na melhora de seu quadro. Ela ficou feliz porque viu o filho e ele saiu satisfeito também — conta.

No Miguel Couto, Luciene coordena uma equipe de quatro técnicos de enfermagem. Ela diz que promove a aproximação dos familiares com o hospital por se colocar no lugar do parente.

— Se estivéssemos do outro lado, esperaríamos que agissem da mesma forma — diz.

Professor de xadrez Antônio Manoel Holanda: orgulho de dedicação aos alunos, transformados em campeões no esporte
Professor de xadrez Antônio Manoel Holanda: orgulho de dedicação aos alunos, transformados em campeões no esporte Foto: Antonio Scorza

Xeque-mate nos obstáculos

O professor Antônio Manoel Lima de Holanda, de 62 anos, ensina os segredos do xadrez aos alunos das turmas do 6º ao 9º ano do ensino fundamental da Escola Municipal Olímpica Carioca Juan Antonio Samaranch, em Santa Teresa, numa região cercada por cinco favelas. Mais do que ensinar as estratégicas movimentações de peças no tabuleiro, o mestre tem contribuído para dar um xeque-mate na falta de oportunidade de jovens carentes e formar uma legião de campeões no esporte e na vida.

Graças às habilidades conquistadas no esporte, quando concluem o fundamental, os alunos são cobiçados por escolas de elite da rede privada, que buscam competidores hábeis para conquistar medalhas nos campeonatos, em troca de bolsas integrais. Como o xadrez é conhecido por estimular o raciocínio, não são raros os que conquistam as primeiras colocações em concursos para escolas militares e unidades de ponta da rede pública, como o Pedro II. Dos 15 alunos que se formaram com o professor no ano passado, 12 foram para os melhores colégios da cidade:

— Ensino xadrez para que se tornem cada vez melhores jogadores e tenham bons resultados nas competições. Mas meu objetivo maior, meu projeto de vida, é fazer com que estejam nas melhores escolas do Rio — diz o professor.

Ele chegou em 2013 à escola de Santa Teresa, vocacionada para o esporte. Logo no primeiro anomostrou, conseguiu que seus alunos conquistassem o 3º lugar na categoria xadrez no Intercolegial, competição anual que reúne algumas das melhores escolas do Rio. O primeiro troféu de campeão veio no ano seguinte e se repetiu até 2019.

A competição foi suspensa em 2020 por conta da Covid-19, mas os organizadores promoveram uma disputa virtual com quatro escolas consideradas as melhores na categoria. O professor foi obrigado a recusar o convite, porque a maioria dos alunos não tem computador com webcam em casa, um dos requisitos exigidos dos participantes.

Muitos de seus ex-alunos já participam de campeonatos da Federação de Xadrez do Estado do Rio. Beatriz Camporez, a segunda mulher árbitra da modalidade no Rio, aprendeu as primeiras jogadas com o professor.

Ana Lúcia, chefe de enfermagem do Andaraí: “Agradeço a Deus, sempre quis ser enfermeira”
Ana Lúcia, chefe de enfermagem do Andaraí: “Agradeço a Deus, sempre quis ser enfermeira” Foto: Acervo pessoal

Humanização na “porta de entrada”

Todo paciente que chega no Hospital Municipal do Andaraí tem que passar pela equipe da chefe de enfermagem Ana Lúcia Torres, de 50 anos. Pelo menos nos seus dias de plantão. Ela atua na classificação de risco, ou seja, é quem faz a triagem, indicando para qual setor o paciente será encaminhado, se para a sala azul, verde, amarela ou vermelha, de acordo com a gravidade do caso. Nesse papel, muitas vezes é preciso jogo de cintura para humanizar o atendimento.

— A classificação de risco é a porta de entra do hospital. O paciente chega querendo um atendimento que muitas vezes não é de emergência. Às vezes é caso para clínica da família, mas eles nem sempre entendem isso. Aí entra o lado humano, de você perceber a real necessidade desse paciente e, em vez de redirecionar (para outra unidade), acolher e pedir ao médico que o atenda — diz, acrescentando que muitas pessoas vêm de longe ou já passaram por outras unidades e estão com o dinheiro contado para voltar para casa.

A profissional, filha de enfermeira e com 18 anos na rede municipal, diz que a maior realização é conseguir resolver o problema do paciente. Por isso, se revolta ao falar sobre os “Guardiões do Crivella”.

— Somos servidores públicos, fizemos concurso, temos nossos salários. Quem são eles na fila do pão? — critica ela, uma das primeiras da unidade em que trabalha a ser infectada pelo coronavírus e contou que no início da pandemia, os profissionais nem sequer tinham os chamados EPIs (equipamentos de proteção individual) para trabalhar.

Mesmo com todas as dificuldades, não se arrepende:

— Tenho duas matrículas (a outra é do Hospital dos Servidores do Estado) e agradeço a Deus por isso. Sempre quis ser enfermeira.




Fonte: G1

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