projeto dá voz a jovens do Morro do Borel

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“Não lhe posso descrever como é opressivo não poder sair nunca. Vivo morta de medo de sermos descobertos e fuzilados”, escreveu Anne Frank em seu diário em 11 de julho de 1942. Na época, a menina judia havia acabado de se esconder com a família nos fundos de um prédio em Amsterdã, a fim de escapar da perseguição nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Oito décadas depois, suas palavras ecoaram a 10 mil quilômetros de distância, no Morro do Borel. Ainda impactados pelo confinamento da pandemia, 25 jovens da comunidade da Zona Norte carioca foram convidados pelo projeto Cartas Para Anne Frank a se debruçar sobre o famoso diário e, inspirados pela narrativa, contar suas próprias histórias.

Com idades entre 12 e 17 anos, os jovens receberam exemplares do “Diário de Anne Frank” e tiveram aulas de história para contextualizar o período em que o livro foi escrito. Mas para captar o essencial das memórias da jovem Anne, não foi necessária nenhuma aula: questões sobre a liberdade, o relacionamento com os pais e a descoberta da sexualidade, que estão presentes na obra, floresceram naturalmente durante a experiência.

— As cartas escritas pelos jovens nos mostraram que o que uma adolescente sentiu durante a Segunda Guerra, na Holanda, não era muito diferente daquilo que um jovem de comunidade do Borel sente hoje — conta a Clarissa Kahane, idealizadora do projeto.

Em carta para Anne Frank, jovem diz que, assim como a adolescente judia, pode
Em carta para Anne Frank, jovem diz que, assim como a adolescente judia, pode “olhar para a dor com um olhar de transformação, crescimento e aprendizagem” Foto: Reprodução / Editoria de Arte

O projeto foi financiado com verbas do fundo RJZ repassadas pelo Museu Judaico do Rio de Janeiro. A ideia foi inspirada no filme “Escritores da liberdade”, no qual uma professora é destacada para dar aulas em uma escola de comunidade onde a maior parte dos alunos estão em situação de vulnerabilidade. Clarissa, que lecionou dez anos em escolas particulares do Rio, antes de se tornar atriz e diretora de teatro e TV, decidiu usar a história como estímulo.

— Esse filme passou uma mensagem forte para mim. E comecei a pensar em como poderia associar essa ideia ao Diário de Anne Frank, um dos livros que mais me marcou em toda a vida — conta ela.

A associação funcionou e os temas abordados pela adolescente judia há 80 anos pareceram familiares aos jovens do Borel. O medo da violência, que para ela era representado pelos nazistas, apareceu com diversas facetas nas cartas escritas pelos meninos do projeto. “Em 2019, aconteceu uma tragédia na minha família. No dia 9 de agosto, meu primo Gabriel Pereira Alves foi baleado no ponto de ônibus indo para a escola”, contou uma jovem de 14 anos em sua carta. Outra menina, de 12 anos, narrou uma tentativa de feminicídio que, por pouco, não tirou a vida de sua mãe, mas deixou marcas profundas na menina: “Ainda carrego a dor de meu pai não estar presente na minha vida, e o trauma de nunca querer me casar. Não só pelo que aconteceu com a minha mãe, mas pelos tantos feminicídios que acontecem todos os dias”, escreveu.De acordo com Clarissa, mais do que ensinar aos jovens sobre a Segunda Guerra, o projeto teve como objetivo dar espaço para eles desabafarem sobre seus dramas.

Adolescente conta em carta a Anne Frank que sua mãe é a
Adolescente conta em carta a Anne Frank que sua mãe é a “inspiração da vida” e que o pai trabalha desde os 11 anos Foto: Reprodução / Editoria de Arte

— Dar espaço para eles colocarem os desejos, sonhos, angústias e medos… Dar espaço para eles serem contadores das próprias histórias ajuda eles a transformarem a sociedade para melhor. O jovem é a voz do presente e ouví-los é fundamental — explica.

Um dos jovens encontrou no projeto a oportunidade de falar sobre sexualidade. “Eu sou bissexual. Minha mãe, avó, tias e tios sabem, menos meu pai, porque pode ser que ele leve essa situação a sério e ele pode se precipitar sobre essa situação”, escreveu.

Após ler o livro e escrever as cartas, os jovens gravaram vídeos contando suas histórias. Agora, o projeto vai a fase final: um concurso que acontecerá na primeira quinzena de agosto. Das 25 cartas, cinco serão selecionadas pelos professores que participaram do projeto para serem submetidas a voto popular. O autor da carta vencedora será presenteado com um laptop.

Após contar episódio de violência doméstica em carta para Anne Frank, adolescente defende que as mulheres denunciem
Após contar episódio de violência doméstica em carta para Anne Frank, adolescente defende que as mulheres denunciem “sem medo, pois todas devem ser respeitadas” Foto: Reprodução / Editoria de Arte

Lições de história

Ao longo do projeto, os alunos tiveram cinco encontros, um deles ministrado pelo professor do núcleo de estudos judaicos da UFRJ e diretor do Instituto Brasil-Israel, Michel Guerman. De acordo com ele, a capacidade dos jovens de fazerem uma conexão do holocausto com a realidade vivida na comunidade supriu a lacuna desse tema na formação acadêmica.

— Fiquei muito impressionado com a forma como eles se conectaram a esse fenômeno ocorrido há 70 anos. O holocausto é um fenômeno desconhecido ou que se escuta falar muito pouco. Muitas pessoas têm a ideia de que esse fenômeno não pode ser comparado, e a falta de comparação com a realidade impede que as pessoas se conectem. Mas durante o encontro mostramos que é possível fazer essa conexão com situações ou pessoas em que há violação de direitos humanos. E eles puderam refletir sobre o que aconteceu —conta.

Os jovens também tiveram um encontro com o ator e diretor Isaac Bernart, professor da Casa das Artes de Laranjeiras (CAL) e doutor em teatro pela UniRio, que já dirigiu um musical sobre Anne Frank. Ele destacou a importância de os jovens aprenderem a expressar seus sentimentos.

— De certa forma, o que salvou a integridade mental de Anne Frank durante aquele momento devastador foi ela poder conversar consigo mesma. Então para esses jovens de comunidade que vivem um momento tão delicado, com vários perigos no dia a dia, é importante encontrar esse elo de ligação com o que ela viveu.

Doutoranda em Artes pela Uerj e mestra em memória social pela UniRio, Tatiana Henrique avalia que o projeto deu aos jovens ferramentas para documentarem e reescreverem as suas próprias histórias.

— Em determinado momento uma menina falou: “A gente é muito sozinho”. Eu parei para pensar naquilo que poderia representar uma solidão individual, mas, de certa forma também uma solidão do coletivo. Existe uma separação com relação a ferramentas básicas da vida, como a educação de qualidade e a formação cultural — disse.





Fonte: G1