Praça Seca, bairro na Zona Oeste do Rio, vira cenário de game sobre zumbis

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O ano é 2031. Um vírus se espalha pela região da Praça Seca, Zona Oeste do Rio, e transforma moradores em zumbis. Nesse mundo apocalíptico, o governo coloca muros de contenção para frear a epidemia e deixar as pessoas trancadas. Quem está lá dentro não pode sair e tem que sobreviver em meio a infectados e traficantes, até a cura ser descoberta. O cenário de terror não é uma previsão catastrófica nem a evolução assustadora da Covid-19, mas sim o contexto do jogo “RIO: Raised in Oblivion”, desenvolvido desde 2019 pelos irmãos paulistas Bannaker, de 24 anos, e Jhoniker Braulio, de 27.

— Nós fomos para o Rio poucas vezes, e subir em favelas para tirar fotos e conhecer a região é complicado. Mas temos parentes na Praça Seca, então foi mais fácil para ter referências — conta Bannaker.

No jogo “RIO”, o bairro da Praça Seca é cercado após moradores viraram zumbis
No jogo “RIO”, o bairro da Praça Seca é cercado após moradores viraram zumbis Foto: Divulgação

“RIO”, que pode ser encontrado na plataforma Steam, é um jogo on-line de ação, onde o participante precisa lidar com a fome, a sede, a violência e outras preocupações numa área sitiada. No cenário que simula a Praça Seca, é preciso encontrar armas, dominar distritos e comandar facções. O objetivo é um só: sobreviver lá dentro do bairro cercado, enquanto enfrenta não só os zumbis, mas os velhos conhecidos traficantes que também aterrorizam o bairro no mundo virtual. Você pode ser assassino ou entrar para a Ordem, grupo de pessoas que caçam os vilões e ajudam os outros jogadores. Entre os personagens que tentam sobreviver estão artistas conhecidos, como MC Carol, que ganhou sua versão digital.

— Eu adoro jogar videogame. Eu estou ansiosa para jogar comigo mesma e esculachar geral — diz a funkeira.

MC Carol no jogo “RIO”
MC Carol no jogo “RIO” Foto: Reprodução

Quem entende de games e mora no bairro elogia “RIO”. Técnico em eletrotécnica, Bernardo Klein, de 25 anos, é fã:

— Fui surpreendido com a qualidade dos efeitos sonoros e da produção para um jogo de FPS (first person shoote, os jogos de tiros em primeira pessoa). Eles foram fiéis à estrutura da Praça Seca. Até as favelas no entorno estão idênticas.

O jornalista Pedro Marinho, de 25 anos, conta que assistir a cenas do jogo trouxe uma sensação engraçada por causa do reconhecimento das imagens:

— Eu cresci com a febre dos jogos de tiros onde os personagens percorrem espaços urbanos. E ver um jogo desses com as ruas do meu bairro é muito engraçado. Ver a Rua Barão, os postos de gasolina e o condomínio residencial da Aeronáutica é muito legal — conta Pedro, que faz uma ressalva: — Por ser um jogo de guerra, pode acentuar o estigma que a região carrega por conta de violência e disputas entre tráfico e milícia.

Cena do jogo “RIO”
Cena do jogo “RIO” Foto: Divulgação

Bannaker e Jhonniker moram em Franca, no interior de São Paulo, e fundaram em 2015 a empresa de desenvolvimento de jogos First Phoenix Studio. Foi um primo que, na adolescência, apresentou o “The War Z” para Bannaker. O jogo de zumbis foi a grande influência para ele e o irmão, que já era formado em Mecatrônica e trabalhava com programas de modelagem 3D, darem início ao projeto. A dupla buscou investimentos e, com aporte financeiro, conseguiu levar a criação para o Brasil Game Show, a maior feira de games da América Latina, onde ganhou o primeiro lugar de um concurso com “RIO”.

— A partir daí começamos a divulgar mais o game. Infelizmente, as condições no Brasil não favorecem quem trabalha nesse ramo. Mas seguimos tentando desenvolver o nosso trabalho — afirma Bannaker.

Após uma pré-venda entre agosto e setembro, a previsão de lançamento de “RIO” é para janeiro de 2021. Bannaker, Jhonniker e os outros 19 colaboradores que trabalham no desenvolvimento do projeto fazem testes de servidores para lançar o jogo nos Estados Unidos, no Canadá e na Europa também em janeiro. Em breve, os cenários devem ser ampliados, mostrando outras regiões da cidade. A primeira seria o Morro do Vidigal, na Zona Sul do Rio.





Fonte: G1