Pesquisadores do Museu Nacional revelam dados sobre dinossauro brasileiro

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Pesquisadores do Museu Nacional publicaram novos dados sobre o crescimento ósseo do dinossauro carnívoro brasileiro Vespersaurus paranaenses nesta terça-feira, dia 15, na revista científica “Peer J”. Esta espécie viveu durante o período Cretáceo Superior (há cerca de 90 a 70 milhões de anos), e seus fósseis foram encontrados onde hoje é o município de Cruzeiro do Oeste, no Noroeste do Paraná.

O estudo é assinado pelos cientistas Alexander Kellner, Arthur Brum, Geovane Souza, Juliana Sayão, Maria Elizabeth Zucolotto e Marina Soares, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em parceria com Luiz Weinschütz, do Centro Paleontológico da Universidade do Contestado, em Santa Catarina. Ele revelou informações da microestrutura óssea que desvendaram mistérios sobre a fisiologia, taxas de crescimento e longevidade do dinossauro, que é considerado de pequeno porte, com 1,50 m de comprimento.

“O novo estudo traz, de maneira inédita, uma análise da microestrutura óssea fossilizada (osteohistologia) de vários indivíduos de uma mesma espécie de dinossauro extinto e brasileiro, no caso o Vespersaurus paranaensis“, explicou o aluno de doutorado do Programa de Pós-Graduação em Zoologia (PPGZoo), Geovane Souza, primeiro autor do trabalho.

Reconstrução do dinossauro Vespersaurus paranaenses
Reconstrução do dinossauro Vespersaurus paranaenses Foto: Geovane Souza / Museu Nacional (UFRJ)

Os resultados são oriundos da pesquisa de mestrado de Geovane Souza — na época contemplado pela bolsa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Grande parte do estudo foi conduzida no Museu Nacional, instituição da UFRJ que passou por um trágico incêndio, em 2018, mas que reforça permanecer com “capacidade de produzir ciência de ponta e de qualidade”.

‘Sítio fossilífero muito interessante para a paleontologia mundial’

“A qualidade excepcional de preservação e a grande quantidade dos fósseis pertencentes a Vespersaurus permitiram que fosse analisado uma quantidade expressiva de ossos, a maior amostragem histológica para um dinossauro brasileiro até o momento. Isso permitiu que os pesquisadores vislumbrassem um panorama mais completo e confiável sobre como esses animais se desenvolviam, qual eram suas taxas de crescimento e quanto tempo levavam para se tornarem adultos”, acrescentou.

Para o geólogo Luiz Carlos Weinschütz (CENPALEO/Universidade do Contestado), coordenador dos trabalhos de campo, o dinossauro habitava o entorno de áreas úmidas, possivelmente um oásis, em parte do Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil, que formavam um grande deserto, chamado Caiuá.

Fêmur do dinossauro Vespersaurus paranaensis
Fêmur do dinossauro Vespersaurus paranaensis Foto: Geovane Souza / Museu Nacional (UFRJ)

O Vespersaurus teria convivido com outras espécies, como lagarto (Gueragama sulamericana) e de duas espécies de pterossauros (Caiuajara dobruskii e Keresdrakon vilsoni) descritas para o mesmo local, “fazendo dessa localidade um sítio fossilífero muito interessante para a paleontologia mundial”, disse ele.

Ainda não se descarta a possibilidade de que a redução da taxa de crescimento do V. paranaensis seja uma adaptação ao ambiente árido que a espécie habitava. Talvez um crescimento lento seria vantajoso para animais que viviam em ambientes com limitação sazonal na disponibilidade de alimentos, como um deserto.

Apesar dos dinossauros fascinarem tanto cientistas quanto o público leigo, muitas perguntas sobre seu crescimento, metabolismo e anatomia ainda permanecem sem respostas.

Tipo de tecido ósseo incomum para os dinossauros

O estudo explica que a técnica usada, conhecida por osteohistologia, é “relativamente destrutiva, pois consiste na retirada de fragmentos do osso, através de cortes com serras elétricas”.

As secções então são polidas até adquirirem translucidez suficiente para permitir a visualização em microscópio óptico. A natureza destrutiva desta técnica, aliada à raridade da preservação de um fóssil, impede que muitas instituições pelo mundo concedam a autorização aos paleontólogos para aplicá-la.

“Entretanto, nesse caso, a peculiar abundância dos restos fossilizados do V. paranaensis permitiram que fossem destinados alguns ossos para osteohistologia, sem que houvesse a perda de informações morfológicas da espécie”, esclareceu Weinschütz.

“Através da contagem das marcas de crescimento contidas nos ossos (semelhantes aos anéis do tronco de uma árvore) apontam que os vesperssauros poderiam viver pouco mais de uma década (13 a 14 anos), mas se tornavam aptos para reprodução (ou seja, atingiriam a maturidade sexual) por volta dos 3 a 5 anos de idade. Isso significa que a maturidade sexual do V. paranaensis ocorreria antes do indivíduo completar seu crescimento”, enfatizou Geovane.

Atividade de campo em Cruzeiro do Oeste, no Paraná
Atividade de campo em Cruzeiro do Oeste, no Paraná Foto: CENPALEO

Além disso, foi observada a presença de um tipo de tecido ósseo incomum para os dinossauros. O tecido em questão, conhecido na literatura como paralelo-fibroso, é caracterizado por um alto grau de organização das fibras de colágeno contida nos ossos, o que demanda mais tempo para sua formação ao longo do crescimento do animal. Logo, esse tipo ósseo sugere que V. paranaensis possuía taxas de crescimento relativamente mais lentas do que o observado em outros dinossauros, aves e mamíferos. Isso faz com que o crescimento do vespersauros se assemelhe mais aos reptilianos, como jacarés e crocodilos, do que aos demais dinossauros.

‘Compreender questões dessa natureza é algo fundamental’

Comparando esses resultados aos estudos conduzidos com outras espécies, a hipótese é de que a desaceleração do crescimento em V. paranaensis (inferido com base na presença do tecido ósseo paralelo-fibroso) estaria relacionado a miniaturização do seu tamanho corpóreo.

Um processo similar que teria também ocorrido na origem evolutiva das aves, as quais representam um tipo particular de dinossauro e a única linhagem deles a sobreviver da extinção no final da Era Mesozoica. Nas espécies fósseis relacionadas à remota evolução das aves, a presença de um tecido ósseo de crescimento lento era comum, mas só nas linhagens mais recentes, o padrão muda para o crescimento extremamente acelerado característico das aves vivas hoje.

“Compreender questões dessa natureza é algo fundamental para que entendamos quais os mecanismos e estratégias de sobrevivência existiam no passado do planeta, sobretudo de espécies como os dinossauros, animais que outrora foram componentes principais das faunas terrestres, que viveram em um mundo sobre constante mudança climática, mas que enfrentaram uma drástica redução em sua diversidade na extinção em massa que marcou o final do Mesozoico”, comentou Alexander Kellner, um dos autores do trabalho e diretor do Museu Nacional.




Fonte: G1

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