Passageiros voltam a sofrer com transportes lotados, e especialistas alertam para risco de contaminação e nova onda da doença

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Evite aglomerações”. Nos últimos meses, todo mundo já deve ter ouvido isso. É o que recomendam a Organização Mundial da Saúde (OMS) e também o Ministério da Saúde contra o coronavírus. Mas e quem depende do transporte público do Rio, como faz? Enquanto boa parte da população podia se manter em casa, era mais fácil. Mas, com a retomada gradual da economia, os trabalhadores estão de volta às ruas. E aí fica impossível fazer distanciamento social quando se viaja num vagão ou num ônibus lotado.

A faxineira Luciene de Jesus Calmon, de 37 anos, voltou a trabalhar há cerca de três meses, numa empresa em Ipanema. De onde mora, em Nova Iguaçu, na Baixada, precisa pegar duas conduções: um ônibus até a Central do Brasil e o metrô até a Zona Sul. Nesta quarta-feira, ela tentou esperar até que um vagão mais vazio aparecesse. Mas o tempo foi passando, o horário, apertando, e aí, para não se atrasar, precisou se espremer na composição que já estava lotada desde a estação Uruguai:

— As pessoas falam da praia cheia, mas no transporte não mudou nada. Voltei a trabalhar e me assustei. Achei que teria menos gente na rua.

A reportagem do EXTRA percorreu nesta quarta-feira paradas de trens e metrô e seguiu viagem em diferentes vagões. E constatou que, além de muita aglomeração e quase nenhum espaço para os passageiros ficarem em segurança, faltam lembretes sobre a orientação de fazer distanciamento social, higienização das mãos e usar máscara.

Moradora de Fazenda Botafogo, na Zona Norte, a caixa Íris Cruz, de 40 anos, vai de metrô até o mercado em que trabalha, em Botafogo, na Zona Sul do Rio. Segundo ela, alguns passageiros insistem em não usar o equipamento de proteção individual, tão essencial para frear o contágio do coronavírus:

— Distanciamento (no transporte público) não existe. Tem gente que coloca a máscara para passar na frente do fiscal que fica na catraca e depois, tira. As pessoas acham que já está tudo bem, mas não está, não!

Para quem depende de baldeações, os problemas se desdobram em diferentes modais. Nos trens, sobram passageiros e faltam espaço e conscientização. Na Central do Brasil, dispensers de álcool em gel lembram a prevenção à Covid-19, mas, nas composições percorridas pela reportagem, não havia mensagens sobre distanciamento social ou uso de máscara.

A atendente de telemarketing Bianca Adolpho, de 23 anos, sai de casa às 6h, em Campo Grande, na Zona Oeste, para chegar às 8h30 no Centro do Rio. Segundo ela, os trens trafegam lotados todos os dias:

— É cheio todos os dias! Dá medo, mas que opção a gente tem? Saio cedo porque, se eu perder o trem, chego atrasada.

Nos ônibus, o cenário não é diferente. A implementação das marcações que delimitam a distância mínima permitida entre os passageiros em pé completou dois meses ontem. Pelas regras da prefeitura, cada ônibus convencional só pode circular com 12 passageiros em pé. Já os articulados do BRT, que normalmente têm espaço para até 120 usuários em pé, só podem transportar de 24 a 30, dependendo do tamanho do veículo. Mas não é isso que se vê no “velho normal” diário do carioca.

Ônibus lotado no Rio
Ônibus lotado no Rio Foto: FABIANO ROCHA

Risco também para os motoristas

Morador da Maré, na Zona Norte, o vendedor Jardel Xavier, de 47 anos, segue de ônibus diariamente para o Largo do Machado, na Zona Sul, onde trabalha. Segundo ele, a saída encontrada pela prefeitura não funciona, e os coletivos têm trafegado lotados, principalmente nos horários de pico.

— Eles diminuem o número de carros. Tinha que ter mais ônibus rodando para isso dar certo — afirmou ele.

Também moradora da Maré, Géssica Santana, de 21 anos, trabalha como faxineira em Copacabana, mas, para chegar ao trabalho, ontem, desistiu de entrar em três ônibus da linha 483 (Penha x Ipanema) por conta da quantidade de passageiros:

— Tenho medo. Tem que ter mais ônibus.

De acordo com José Carlos Sacramento, vice-presidente do Sindicato dos Motoristas e Cobradores de Ônibus do Rio de Janeiro (Sintraturb-Rio), 139 profissionais da categoria já foram contaminados, sendo que 41 morreram.

Sobre os problemas de excesso de passageiro nos trens e nos metrô, a Agetransp, que regula concessionárias de transportes metroviários e ferroviários, informou em nota que abriu processos regulatórios para apurar as condições e as implantações de todas as medidas de distanciamento social e os impactos provocados nos transportes pela pandemia do coronavírus.

Saída de passageiros numa das estações da SuperVia, no Rio, nesta quarta-feira
Saída de passageiros numa das estações da SuperVia, no Rio, nesta quarta-feira Foto: FABIANO ROCHA

Para a epidemiologista Gulnar Azevedo, professora da Uerj e presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), transportes cheios são um retrato de que falta articulação e organização por parte do poder público e das concessionárias na retomada das atividades:

— É um indicador de que não estamos seguindo as regras corretamente e que podemos voltar a ter novos surtos, com aumento de casos e óbitos.

Mario Roberto Dal Poz, médico sanitarista e professor do Instituto de Medicina Social da Uerj, alertou que o risco de contágio é maior em transportes públicos com excesso de passageiros.

— A grande vulnerabilidade dessa abertura tem sido o transporte coletivo. Pesquisas já mostraram que pessoas que precisam sair para trabalhar, usar o transporte público e se expor mais têm cinco vezes mais chance de se contaminar do que as pessoas que estão fazendo home office e saindo apenas para atividades essenciais — afirmou.

O infectologista Edmilson Migowski, da UFRJ, disse que a lotação dos transportes públicos pode ser o calcanhar de aquiles no plano de flexibilização.

— Transportes públicos superlotados são o principal gargalo no controle da transmissibilidade do novo coronavírus. Por isso, sou favorável à flexibilização dos horários de entrada e saída das pessoas no serviço e ao aumento da oferta de vagões, no caso de trens e metrô, e de carros no caso dos ônibus — avaliou o especialista.

Para evitar novos surtos, segundo Gulnar Azevedo, da Uerj, é preciso fazer valer as regras nos transportes:

— Temos que fazer um bom controle de vigilância epidemiológica. Não adianta fazer marcação no chão do ônibus se não tiver orientação e fiscalização.

Prefeitura diz que está monitorando o serviço

A Secretaria municipal de Transportes (SMTR) afirmou, em nota, que está “monitorando as inconformidades na operação da linha 483, operada pelo consórcio Internorte”: “Vale lembrar que os consórcios foram notificados para que reforcem a frota em operação, acompanhando o natural aumento da demanda de passageiros durante a retomada das atividades na cidade. A SMTR está monitorando a situação diariamente”.

A Rio Ônibus explicou que a falta de reajuste na tarifa e o aumento do transporte alternativo clandestino, entre outros problemas, “levaram o setor a um colapso” financeiro, que impacta “severamente a operação das empresas de ônibus na capital fluminense”. “Em relação ao volume de ocupação dos ônibus, vale destacar que não pode ser atribuído ao motorista a ação de impedir o acesso de passageiros”, finalizou a nota.

Já a SuperVia disse que, desde março, está orientando os passageiros sobre as recomendações de prevenção ao coronavírus: “Há áudio no sistema das estações, cartazes e comunicação visual em telões, TVs e grades móveis”. A concessionária afirmou ainda que instalou totens com álcool em gel e que realiza uma limpeza especial nas estações. Sobre os vagões cheios, explicou que “tem programado a operação dos trens de acordo com a demanda” e que “tem monitorado com rigor a taxa de ocupação dos trens, que tem se mantido abaixo do percentual máximo de 60%”.

O MetrôRio também afirmou que orienta as pessoas sobre as medidas de prevenção e o uso de máscara por meio de avisos sonoros e outros meios, que disponibiliza dispensers de álcool em gel e que faz uma sanitização especial. A empresa disse que “registra queda de 60% dos passageiros”: “Em horário de rush, como acontece em todos os transportes públicos do país e do mundo, há maior concentração de pessoas”.

Veja abaixo as íntegras das notas.

Rio Ônibus:

“O congelamento da tarifa, a concessão de gratuidades sem fonte de custeio, a expansão do transporte alternativo clandestino, o aumento do desemprego, entre outros problemas, levaram o setor a um colapso econômico-financeiro que, hoje, põe em xeque 26 mil empregos diretos (rodoviários) e 68 mil indiretos, além de impactar severamente a operação das empresas de ônibus na capital fluminense.

A tarifa congelada há 18 meses, por decisão do Tribunal de Justiça, é uma das menores entre as principais capitais do país. São Paulo, Belo Horizonte, Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre, entre outras, têm tarifas mais elevadas – e há capitais, como SP, que contam com subsídio tarifário superior a R$ 3 bilhões/ano.

Já o transporte clandestino segue atuando sem controle, fortemente operado pela milícia, e as gratuidades sem fonte de custeio também colaboram para a insustentabilidade da operação na capital fluminense, onde 1 a cada 3 passageiros não paga a passagem – se somadas gratuidades a integrações.

Neste cenário, as dificuldades das empresas acabam tendo como consequência o eventual sumiço de linhas, o envelhecimento da frota, entre outros problemas que afetam diretamente os usuários do sistema no Município do Rio.

Em relação ao volume de ocupação dos ônibus, vale destacar que não pode ser atribuído ao motorista a ação de impedir o acesso de passageiros”.

Secretaria municipal de Transportes, da Prefeitura do Rio:

“A Secretaria Municipal de Transportes está monitorando as inconformidades na operação da linha 483 (Penha x General Osório), operada pelo consórcio Internorte. É importante destacar que a prática é inaceitável e configura infração gravíssima, com previsão de multa no valor de R$ 1.846.

Vale lembrar que os consórcios foram notificados para que reforcem a frota em operação, acompanhando o natural aumento da demanda de passageiros durante a retomada das atividades na cidade. A SMTR está monitorando a situação diariamente e realizando estudos, a fim de propor medidas de readequação do sistema, possibilitando a melhoria dos serviços para atender às necessidades atuais dos usuários.

Cabe destacar que, desde o início da pandemia, a secretaria reforçou suas ações, com agentes atuando em diferentes e estratégicos pontos da cidade, além de orientar a população, e aplicou 4.396 multas aos operadores por diferentes irregularidades, incluindo suspensão de serviços ou circulação de frota abaixo do determinado pela pasta, lotação e descumprimento das normas sanitárias. As ações seguem intensificadas”.

SuperVia:

“A SuperVia tem programado a operação dos trens de acordo com a demanda de clientes. Atualmente, a concessionária está transportando apenas cerca de 300 mil passageiros por dia, metade do que transportava antes da pandemia. Com a flexibilização do isolamento social, a empresa passou a oferecer 522 mil lugares a mais em dias úteis, o que correspondeu a um aumento de 60% em relação à grade anterior.

A empresa tem monitorado com rigor a taxa de ocupação dos trens, que tem se mantido abaixo do percentual máximo de 60%, estabelecido pelo decreto estadual 47.228/20. A medição é baseada em critérios técnicos, definidos e fiscalizados pela Agetransp.

Preocupada com as medidas de segurança, a SuperVia instalou sinalização, indicando a necessidade de distanciamento no chão das estações e orienta que os clientes não embarquem nos trens mais cheios e aguardem a próxima composição. Além disso, desde março, a concessionária realiza limpeza com produto especial em todos os trens que partem da Central do Brasil, durante todo o dia.

Em parceria com o Comando Conjunto do Leste, a empresa também está realizando limpeza especial das estações contra a propagação do novo coronavírus. Além disso, as estações de maior movimentação de passageiros estão recebendo limpeza nas catracas e validadores. Dispensers e totens de álcool em gel 70% foram disponibilizados nas estações. A venda de passagens acontece apenas aos clientes que estiverem utilizando máscaras.

Diante da dinâmica do transporte de alta capacidade do estado, com grandes deslocamentos em pequenos períodos de rush, a SuperVia acredita na necessidade de uma ampla discussão entre o poder público, as empresas e a sociedade sobre outras medidas que reduzam a procura pelos transportes nas mesmas faixas horárias. Uma delas é o escalonamento dos horários de trabalho. A empresa tem dialogado sobre isso com autoridades e em todos os fóruns dos quais participa”.

MetrôRio:

“O MetrôRio informa os passageiros sobre a obrigatoriedade do uso de máscaras por meio de avisos sonoros veiculados mais de 200 vezes ao dia em cada estação, publicações nas redes sociais, mensagens de áudio e vinhetas de vídeo no interior dos trens e placas informativas nos acessos às estações. Os avisos sonoros alertam também sobre a prevenção ao coronavírus e a importância de se evitar aglomerações.

A obrigatoriedade do uso da peça é amplamente difundida pelas autoridades, pela imprensa e nos meios de comunicação, se tratando de uma atitude cidadã, de respeito aos demais usuários do sistema. A concessionária continua atuando com rondas nas estações e interior dos trens, e ainda assim, alguns clientes são flagrados sem máscara. Eles usam a peça ao ingressar na estação, onde só é permitido entrar com máscara, e a retiram após embarcar. As pessoas vistas nesta situação são orientadas pelos colaboradores a vestir a proteção para poder seguir viagem. Mesmo assim, alguns clientes desobedecem a legislação e retiram a máscara novamente, tão logo os funcionários do MetrôRio se afastam, após a abordagem.

Além das medidas de higienização adotadas no início da pandemia, e que continuam sendo aplicadas, como sanitização de todas as estações e trens com o mesmo produto usado pela China contra o vírus da Covid-19, a empresa fez a instalação de dispensadores de álcool gel nas estações e distribuiu um milhão de máscaras para passageiros.

No momento, a empresa registra queda de 60% dos passageiros. Em horários de rush, como acontece em todos os transportes públicos do país e do mundo, há maior concentração de pessoas nas estações e trens”.

Agetransp:

“A Agetransp abriu processos regulatórios para apurar as condições e implantações de todas as medidas de distanciamento social e os impactos provocados nos transportes pela pandemia. Os processos estão em andamento, com as equipes de fiscalização fazendo o levantamento sobre os intervalos, quantidade de passageiros por trens e embarcações, lugares ofertados nos modais e a disponibilização de álcool em gel, a limpeza dos acessos nas roletas e catracas, além de cartazes e informativos explicando a necessidade aos passageiros de usar a máscara enquanto estiver no transporte. Para cada concessionária foi aberto um processo ( total de cinco).

Desde o começo da pandemia – até o final de agosto -, os agentes da Agetransp realizaram mais de 46 mil fiscalizações nos trens, estações e nas oficinas da concessionárias”.




Fonte: G1

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