Para desfile da Grande Rio, catadores de recicláveis da Associação de Jardim Gramacho doaram mais de 200kg de materiais

Share on facebook
Share on twitter
Share on telegram
Share on whatsapp


Cento e dois quilos de plástico de alto impacto, 73 quilos de tampinhas, 32 quilos de teclado de computador, 23 quilos de CDs, 20 quilos de capas de fitas VHS e 13 quilos de capas de CD. Esse foi o montante de material reciclável doado pela Associação de Catadores de Materiais Recicláveis de Jardim Gramacho para a confecção do último carro alegórico da Grande Rio, “Fala, Majeté”.

A alegoria foi vencedora do Estandarte de Ouro na categoria Fernando Pamplona e foi confeccionada com material reciclado de outros carnavais, além do doado pela associação de catadores liderada por Tião Santos, protagonista do documentário que concorreu ao Oscar em 2011, “Lixo Extraordinário”. Aos 43 anos, foi a segunda vez que Tião Santos pisou na Avenida, mas para ele, desta vez foi mais especial.

— Eu já tinha desfilado em 2012 quando o tema do enredo foi superação, mas confesso que desta vez foi totalmente diferente. Eu senti mais emoção, porque envolveu a Associação de Catadores. O próprio carro trazia alusão à Jardim Gramacho. A gente indicou e doou materiais recicláveis. Houve um envolvimento profissional e emocional nesse processo — conta Tião.

Segundo ele, vinte catadores participaram da separação do material para a confecção do carro alegórico. De acordo com o carnavalesco da Grande Rio Gabriel Haddad, a ideia da parceria com a Associação de Catadores de Jardim Gramacho surgiu ainda no processo de pesquisa do enredo, que além de homenagear Exu também recorda Estamira, catadora protagonista de um documentário com seu nome, lançado em 2005.

— Quando a gente busca a figura de Estamira para fazer algumas conexões dentro do desenvolvimento do enredo, a gente consegue pensar em diversas parcerias e uma delas é com a associação de Jardim Gramacho, porque gostaríamos de fazer essa relação de Exu com a linha do lixo, e a partir dela não usar somente o lixo do carnaval, mas itens que poderiam virar adereços — explica Gabriel Haddad.

Alegoria ‘Fala, Majeté’, foi feita com material reciclado de outros carnavais e também doado pela Associação de Catadores de Jardim Gramacho Foto: Rebecca Alves / Agência O Globo

Os materiais recicláveis foram utilizados no último carro alegórico e também em adereços da comissão de frente, segundo ele, em uma tentativa de fazer um “símbolo do infinito dentro do próprio desfile”. De acordo com o carnavalesco Leonardo Bora, o simbolismo do lixo, da exclusão e da demonização de Exu foi pensado a partir de um longo processo de pesquisa:

— Chegamos a este final que é um grande questionamento, afinal de contas, esse lixo é a materialidade das coisas ou um conjunto de valores de uma sociedade apodrecida que entre outras coisas, exclui o outro? Exclui pessoas consideradas “loucas”? Exclui pessoas pelo quadro de racismo estrutural, pelo machismo, pela LGBTQIA+fobia, pelo medo do outro? Que é uma mesma sociedade que excluiu historicamente Exu dado o processo de demonização, uma das atuações do racismo religioso. E quando entendemos isso, chegamos à conclusão que não se poderia em hipótese alguma, seria uma grande contradição, tratar esse “lixo” de maneira realista, que dirá romantizada. Isso não poderia mais passar na Sapucaí. O final era uma ideia de transformação, de questionamento, por isso a opção pelo lixo carnavalesco e a parceria com a Associação de Catadores de Jardim Gramacho onde pudemos exercitar dentro do barracão essa ideia de reciclagem — justifica o carnavalesco.

Assim, latas de alumínio, potes de álcool em gel, cápsulas de café e tampinhas de garrafas pet viraram colares e pingentes para esculturas da alegoria nas mãos de estudantes da Escola de Belas Artes da UFRJ. Também foram utilizados sacos metálicos de pó de café.

Mas não foi só no desfile que a associação de catadores de Jardim Gramacho esteve presente durante o carnaval na Sapucaí. Em parceria com a Associação Brasileira dos Fabricantes de Latas de Alumínio (Abralatas) na campanha “Cada lata conta”, 66 catadores coletaram mais de 380 mil latas nos quatro dias de desfiles na Sapucaí, o que corresponde a mais de 6 mil kg de alumínio.

Tião Santos é presidente da associação de catadores de Gramacho e protagonista do filme Lixo Extraordinário, que concorreu ao Oscar
Tião Santos é presidente da associação de catadores de Gramacho e protagonista do filme Lixo Extraordinário, que concorreu ao Oscar Foto: Rebecca Alves / Agência O Globo

Ao ouvir pela primeira vez o samba que homenageia Estamira, Tião Santos conta que decidiu que iria desfilar:

— Na hora que eu ouvi “Tantas Estamiras…” fiquei emocionado e falei para uma amiga “vou ter que desfilar”. Eu estava com essa ideia fixa que ia comprar uma fantasia e participar, então me ligaram e fizeram o convite. No dia que eu pisei no barracão, eu falei para eles (carnavalescos), “vocês sabem que vão ganhar”. Exu é transformação, é alegria. O último carro é feito de material reciclado e traz a valorização dos catadores, a importância da reciclagem como geração de trabalho, renda, cidadania e proteção ambiental.

Tião chegou a conhecer e conviver com Estamira no Aterro de Jardim Gramacho, em Duque de Caxias. Ele diz que quando era criança tinha medo dela, que era vista como “bruxa”.

— Eu nunca imaginei a dona Estamira como Exu. Quando ouvi o samba ficou claro como as coisas espirituais sempre estiveram envolvidas no lixão de Jardim Gramacho e precisava de alguém de fora para mostrar. Nesse dia senti muita emoção. É como se eu passasse a entender totalmente a Estamira. Acho que passei a ser melhor entendido por mim mesmo, porque entender Estamira não é tão difícil quando a gente tem uma questão de um olhar religioso para as pessoas que vivem no lixão, porque tem muitas Estamiras — conclui.





Fonte: G1