No Rio, 30% das cidades ainda não têm metade da população com duas doses da vacina contra Covid-19

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Uma das questões consideradas pelo comitê científico do governo do Estado do Rio em sua discussão sobre as festas de réveillon, a cobertura vacinal contra a Covid-19 mostra como o nível de imunização da população fluminense ainda é desigual — o que pode trazer problemas, especialmente no contexto da eventual chegada da variante Ômicron. Enquanto o estado inteiro já tem 62% de seus habitantes com o esquema vacinal completo, quase um terço das cidades tem pelo menos metade de sua população com apenas a primeira dose. Em relação ao reforço, a situação é particularmente preocupante: ao passo que a capital já alcançou 85% de seus idosos com a nova dose, ainda há municípios com mais de 90% desse público sem a proteção extra.

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O levantamento do EXTRA se baseia nos dados disponíveis no LocalizaSUS, portal do governo federal alimentado pelo Sistema de Informações do Plano Nacional de Imunizações (SI-PNI), e em estimativas populacionais do Ministério da Saúde para o ano de 2020. Abastecido pelas secretarias municipais de Saúde, o SI-PNI pode ter defasagens, já que muitas cidades são lentas na atualização dos números de vacinados. A plataforma, contudo, é usada pela Secretaria estadual de Saúde (SES) em análises técnicas, para definir quais municípios já têm cobertura vacinal para desobrigar o uso de máscaras em locais abertos, por exemplo.

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. Foto: Editoria de Arte

Na capital, 73% com 2 doses

De acordo com o levantamento, 28 dos 92 municípios do estado ainda não chegaram a 50% de sua população com o esquema vacinal completo. Enquanto a capital já imunizou totalmente 73% de seus habitantes, Paraty tem somente 24% de cobertura vacinal, o pior índice do estado. A cidade do Rio também já deu a dose de reforço a 85% dos idosos, ao passo que em Duas Barras, no interior, esse índice é de 5%, o menor do Rio.

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Especialistas do Grupo Técnico de Assessoramento a Eventos de Saúde Pública, que assiste a SES, pontuam que as lacunas na imunização podem resultar futuramente em nova alta dos indicadores da Covid-19, sobretudo se a nova cepa do coronavírus, que parece ser mais transmissível que as anteriores, chegar ao estado (de acordo com as informações oficiais, isso ainda não aconteceu). Membro dessa equipe, o epidemiologista Guilherme Werneck, da UFRJ, avalia que a discrepância é grande e preocupa:

— Uma das poucas coisas que sabemos em relação à nova variante é que ela teria uma vantagem em termos de transmissão, até mesmo em relação à Delta. Ainda não sabemos bem se ela escapa ao bloqueio das vacinas, mas o fato é que esses bolsões de não vacinados são espaços de sustentação da circulação do vírus, onde ele circula mais rápido. E isso acaba resultando num aumento do número de casos graves.

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. Foto: Editoria de Arte

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Outro participante do comitê, o epidemiologista Danilo Klein, do Hospital Gaffré e Guinle, da Unirio, conta que a baixa cobertura vacinal em algumas cidades não foi o único fator por trás da decisão do grupo de desaconselhar a realização das comemorações de réveillon. Mas, segundo ele, o problema ainda pode causar muita dor de cabeça, a depender de como a Ômicron vai se comportar.

— Isso já deveria ter sido resolvido, porque os municípios recebem vacina. A dificuldade é como fazer essa vacina chegar na ponta. Esperamos que as cidades corram com isso, ainda mais diante de uma variante chegando — diz.

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Municípios ouvidos pelo GLOBO atribuem alguns dos dados ao atraso na atualização das informações no SI-PNI. Paraíba do Sul, que pelos números do ministério tem apenas 37% de sua população com o esquema vacinal completo, diz que já imunizou plenamente 91% do público-alvo da campanha, sem informar quanto isso representa em relação ao total de habitantes. A prefeitura culpa a digitação lenta dos números devidos ao sucateamento dos equipamentos de informática deixados pelas gestões passadas.

Já Teresópolis diz que vacinou 64% de sua população total com o esquema completo, quase 30 pontos percentuais a mais do que informa o governo federal. Quanto à dose de reforço, a lacuna é ainda maior. De acordo com a prefeitura da cidade serrana, 9% dos adultos, receberam o reforço, mas o ministério diz que foram 9% dos idosos.

Segundo Japeri, apenas 6% da população elegível para o reforço (pessoas com 18 anos ou mais) já voltaram aos postos. A prefeitura diz que o número se deve às “alterações constantes no intervalo de aplicação da segunda dose e da dose de reforço”, que “vêm causando um esquecimento na população”.

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De acordo com o levantamento do GLOBO, 16% dos adultos da capital já tomaram a dose de reforço. No entanto, a cidade ainda tem cerca de 690 mil pessoas acima de 12 anos que não tomaram a segunda dose.

‘Decisão já está tomada’

Diante da falta de estudos conclusivos sobre a Ômicron e os dados de vacinação, a epidemiologista Gulnar Azevedo, do Instituto de Medicina Social da Uerj, disse que a decisão da prefeitura do Rio de cancelar a festa de réveillon foi correta.

— Temos idosos e pessoas com comorbidades, além de crianças que podem estar suscetíveis à nova variante, porque ainda não se vacinaram. Nessa situação, fazer a festa seria jogar a população num risco desnecessário. Ninguém vai morrer se não for a Copacabana no réveillon. Mas algumas pessoas vão morrer se milhares forem — diz ela.

A decisão final sobre o réveillon será tomada durante uma reunião entre técnicos do estado e do município que acontecerá ainda esta semana, como disse o governador Cláudio Castro. Mas o secretário municipal de Saúde, Daniel Soranz, afirmou ontem, em entrevista à GloboNews, que é “muito difícil voltar atrás”.

— Acho que a decisão já está tomada — disse.





Fonte: G1