No primeiro início de ano sem carnaval em 89 anos, relembre momentos dos desfiles da Praça Onze à Sapucaí

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Lá se vão quase nove décadas desde que, em 1932, o Rio era palco do primeiro desfile de escolas de samba. Desde então, foram 89 carnavais em que, todos os inícios de ano, sem exceção, o som das baterias sacudiu o coração dos cariocas. Uma sequência que será quebrada pela primeira vez na história em 2021, em virtude da pandemia da Covid-19. Em silêncio e vazia como nunca antes, a Marquês de Sapucaí terá, no lugar de alas, carros alegóricos e ritmistas, uma iluminação especial em homenagem às vítimas do coronavírus.

Desfile da escola de samba Depois Eu Digo, na Avenida Presidente Vargas
Desfile da escola de samba Depois Eu Digo, na Avenida Presidente Vargas Foto: Arquivo/08.02.1948

Ala coreografada no desfile campeão do Salgueiro com
Ala coreografada no desfile campeão do Salgueiro com “Xica da Silva”, em 1963 (ao fundo, a Candelária) Foto: Arquivo/25.02.1963

Nem sempre, porém, o carnaval carioca teve o Sambódromo como endereço. A primeira edição, em 1932, ocorreu na Praça Onze, não muito longe de onde, décadas depois, seria construída a Sapucaí. A idealização dos desfiles coube ao jornalista Mário Filho, que dá nome ao Maracanã. Dono do diário “Mundo Sportivo”, o irmão do escritor Nelson Rodrigues decidiu patrocinar a disputa entre as escolas para ter com o que preencher as páginas do jornal nos primeiros dias do ano, quando as competições de futebol e remo eram paralisadas. E não é que deu samba?

Beth Carvalho e Jamelão no desfile de 1975 da Mangueira
Beth Carvalho e Jamelão no desfile de 1975 da Mangueira Foto: Sebastião Marinho/10.02.1975

A coroação do Rei da Mangueira: Cartola desfila pela última vez em 1978 pela sua escola do coração
A coroação do Rei da Mangueira: Cartola desfila pela última vez em 1978 pela sua escola do coração Foto: Sebastião Marinho

Os desfiles permaneceram na Praça Onze até 1942, exceto por 1934, quando ocorreram no Campo do Santana, também no Centro do Rio. Nos dois anos seguintes, as escolas mudaram-se para a Avenida Rio Branco em meio a uma polêmica: com a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, fazia sentido realizar a festa? Em 1945, o tom das críticas subiu, e parte da imprensa chegou a recursar-se a cobrir o evento, classificado como uma “insensatez”. Mantidos, os desfiles foram levados para São Januário, a sede do Vasco em São Cristóvão – foi a única vez em que um estádio de futebol recebeu as agremiações.

Nostalgia pura: a decoração da Avenida Presidente Vargas nos anos 70
Nostalgia pura: a decoração da Avenida Presidente Vargas nos anos 70 Foto: Rubens Seixas/05.03.1973

Monique Evans ocupando o ainda pouco conhecido posto de rainha de bateria ao lado dos ritmistas da Mocidade, no futurista desfile
Monique Evans ocupando o ainda pouco conhecido posto de rainha de bateria ao lado dos ritmistas da Mocidade, no futurista desfile “Ziriguidum 2001”, em 85 Foto: Otávio Magalhães

Nos 11 carnavais seguintes, com direito a racha entre escolas por um breve período, o carnaval carioca ganhou, mais uma vez, uma nova casa: a recém-inaugurada Avenida Presidente Vargas. Depois, a festa também passou pela Avenida Rio Branco, pelo entorno da Igreja da Candelária e pela Avenida Antônio Carlos, todas no Centro da cidade, além de um breve retorno à Presidente Vargas. Apenas em 1978 os desfiles chegaram ao local atual, na Avenida Marquês de Sapucaí, o nono endereço da folia ao longo de quatro décadas e meia. O Sambódromo, porém, ainda demorou mais alguns anos para ser erguido.

O então governador Leonel Brizola com o Rei Momo na inauguração do Sambódromo, em 1984
O então governador Leonel Brizola com o Rei Momo na inauguração do Sambódromo, em 1984 Foto: Jorge Marinho

Cercado por policiais, o patrono da Mocidade Independente de Padre Miguel, Castor de Andrade, vibra com o bicampeonato em 1991
Cercado por policiais, o patrono da Mocidade Independente de Padre Miguel, Castor de Andrade, vibra com o bicampeonato em 1991 Foto: Chiquito Chaves

Projetado por Niemeyer e idealizado pelo antropólogo Darcy Ribeiro, numa dupla de fazer inveja a qualquer mestre-sala e porta-bandeira, o espaço foi inaugurado em 1984, dando início à era moderna do carnaval carioca, com as escolas dividindo-se em dois dias de apresentações. Batizado inicialmente como “Avenida dos Desfiles”, o que acabou pegando foi o apelido de Sambódromo cunhado pelo próprio Darcy, então vice do governador Leonel Brizola, em uma junção do brasileiríssimo “samba” com o sufixo “dromo”, de origem grega. A Sapucaí, aliás, carrega hoje o nome oficial de Passarela Professor Darcy Ribeiro, em uma homenagem pra lá de merecida.

Joãosinho Trinta colocou um homem voador para cruzar a Avenida no desfile da Grande Rio, em 2001
Joãosinho Trinta colocou um homem voador para cruzar a Avenida no desfile da Grande Rio, em 2001 Foto: Leonardo Aversa

Com o agigantamento dos desfiles, cresceram, também, a figura dos carnavalescos. E o primeiro a conquistar um brilho próprio, quase tão grandioso quanto o das próprias escolas, foi Joãozinho Trinta. Ex-aluno de Fernando Pamplona, outro baluarte do ramo, Joãozinho já colecionava oito títulos do Grupo Especial por Salgueiro e Beija-Flor quando o Sambódromo virou o palco da festa. Um dos seus momentos mais emblemáticos, porém, deu-se com um vice-campeonato, também pela Beija-Flor, em 1989: com o enredo “Ratos e Urubus, Larguem Minha Fantasia”, a escola levou um Cristo Mendigo para a Avenida. A alegoria acabou coberta por um saco preto, em uma imagem que entraria para a história do carnaval e, por que não?, da cidade do Rio. O primeiro – e único – título no novo endereço da festa só viria em 1997, em outro desfile marcante, dessa vez na Viradouro, que performou o enredo “Trevas! Luz! A explosão do universo”. Esse foi um dos dois únicos campeonatos conquistados pela agremiação de Niterói – o segundo viria apenas no ano passado, em 2020.

Joãosinho Trinta lava a alma e a Sapucaí durante
Joãosinho Trinta lava a alma e a Sapucaí durante “Ratos e urubus” Foto: Sebastião Marinho/07.02.1989

O último título do Império Serrano e o 1º de Rosa Magalhães: “Bum-Bum Paticumbum Brugurundum”, enredo de autoria do mestre Fernando Pamplona
O último título do Império Serrano e o 1º de Rosa Magalhães: “Bum-Bum Paticumbum Brugurundum”, enredo de autoria do mestre Fernando Pamplona Foto: Luiz Pinto

Na década de 90, a principal marca foi a do perfeccionismo de Rosa Magalhães, multicampeã pela Imperatriz Leopoldinense. Se não empolgavam tanto assim, os desfiles eram tecnicamente impecáveis, enfileirando notas máximas dos jurados. Ao todo, Rosa conquistou sete títulos, seis deles no Sambódromo, mesmo número de conquistas na Sapucaí de outro craque do carnaval: Alexandre Louzada.

Silvio Santos vem aí! E ele apareceu: o apresentador do SBT foi o grande homenageado da Tradição em 2001. Um dos grandes momentos da Sapucaí
Silvio Santos vem aí! E ele apareceu: o apresentador do SBT foi o grande homenageado da Tradição em 2001. Um dos grandes momentos da Sapucaí Foto: Marcelo Sayão

A próxima grande revolução viria pelas mãos de Paulo Barros, que já estreou no Grupo Especial levando a Unidos da Tijuca ao segundo lugar. O carro do DNA humano, com integrantes da escola ostentando movimentos ensaiados, encantou público e crítica como há muito não se via, e a presença de alegorias com o mesmo recurso coreográfico virou uma tendência. O primeiro título demorou a vir, apenas em 2010, com outro desfile histórico sobre o mundo da mágica, em que a comissão de frente da Tijuca brilhou tanto, mas tanto, que passou meses a fio apresentando-se mundo afora.

Paulo Barros colocou definitivamente a Unidos da Tijuca entre as grandes escolas novamente com o carro do DNA
Paulo Barros colocou definitivamente a Unidos da Tijuca entre as grandes escolas novamente com o carro do DNA Foto: Márcia Foletto/22.02.2004

Quem não se lembra do truque de mágica da comissão de frente da Tijuca em 2010... A escola e Paulo Barros se sagraram campeões naquele ano
Quem não se lembra do truque de mágica da comissão de frente da Tijuca em 2010… A escola e Paulo Barros se sagraram campeões naquele ano Foto: Alexandre Cassiano/14.02.2010

Como a festa não para de se reiventar, nem de produzir grandes artistas, nos últimos anos mais um grande nome despontou no cenário carnavalesco, e repetindo um feito logo de quem? Ele, Joãozinho Trinta. Estreando no Grupo Especial em 2016, Leandro Vieira debutou levando a Mangueira ao título, em um belíssimo tributo a Maria Bethânia. Nos anos seguintes, Vieira especializou-se em desfiles críticos, com forte viés social. A estratégia rendeu mais um campeonato à Verde e Rosa, em 2019, dessa vez abordando a temática dos marginalizados pela história do Brasil.

Porta-bandeira da Mangueira, Squel surpreendeu a Sapucaí ao desfilar
Porta-bandeira da Mangueira, Squel surpreendeu a Sapucaí ao desfilar “careca”, para representar uma iaô, no desfile em homenagem a Maria Bethânia Foto: Pablo Jacob/08.02.2016

Desfile histórico da Mangueira, que levou o título em 2002:
Desfile histórico da Mangueira, que levou o título em 2002: “Brazil com Z é pra cabra da peste, Brasil com S é nação do Nordeste” Foto: Marco Antonio Teixeira

Enquanto a Sapucaí permanecerá à espera de novos personagens e momentos inesquecíveis, o mundo vai estar na torcida para que a vacina garanta nota 10 no quesito evolução. Que no ano que vem, com a pandemia controlada, o coronavírus não atravesse mais as nossas vidas – e nem o samba.

Comissão de frente com escafandristas fez sucesso na Mocidade em 1991
Comissão de frente com escafandristas fez sucesso na Mocidade em 1991 Foto: Jorge William

Em 1997, Viradouro foi campeã com o enredo
Em 1997, Viradouro foi campeã com o enredo “Trevas! Luz! A explosão do universo”, de Joãozinho Trinta Foto: Ricardo Leoni





Fonte: G1

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