Livro infantil conta história do Quilombo de Bongaba, em Magé

Share on facebook
Share on twitter
Share on telegram
Share on whatsapp


“A história do Quilombo Quilombá de Bongava começa em 1696 com a construção da Igreja de Nossa Senhora da Piedade do Inhomirim, na cidade de Magé. Nessa época, muitas famílias escravizadas sobreviviam nessa terra, sendo obrigadas a trabalharem em atividades rurais e na construção da Igreja”, assim explica o livro infantil “Quilombo Quilombá: uma história de resistência do Ilé Àse Ògún Àlákòró”, escrito pelo babalorixá Pai Paulo José de Ògún.

Com ilustrações do quilombola Felipe Carvalho Mateus, o livro, que é um produto da Lei Aldir Blanc, conta de forma resumida a história dos mais de 300 anos de resistência dos descendentes de africanos escravizados que vivem em Bongaba. O Quilombo é reconhecido e certificado pela Fundação Palmares desde 2017. Segundo pai Paulo José, a ideia surgiu da necessidade de fazer com que as crianças da comunidade sintam orgulho de sua própria história:

— É para que as crianças desde já possam se sentir pertencentes e empoderadas, para que elas não tenham vergonha de dizer “eu sou quilombola”. Se as nossas crianças não entenderem quem elas são, o que elas fazem aqui, para que elas estão aqui, a gente perde tudo isso que se adquiriu. Elas precisam ter orgulho de quem são. Porque toda essa nossa história precisa ser contada desde pequeno e elas trazem esse compromisso de manter essa cultura.

BX Magé (RJ) 22/11/2021 Bábálórísá Paulo josé de ògún autor do livro Quilombo Quilombá Foto: Roberto Moreyra / Agência O Globo Foto: ROBERTO MOREYRA / Agência O Globo

No Quilombo Quilombá vivem cerca de 250 famílias com 800 crianças. Os livros foram distribuídos para escolas e bibliotecas, e pai Paulo José tem sido convidado para falar com estudantes sobre a importância da memória e história quilombola.

— Nesse mês de consciência negra poder ter lançado esse livro e ter essa repercussão nos trouxe muita alegria. A gente está caminhando para ocupar os espaços que a gente quer, onde a gente deve estar — afirma.

Para ele, reconhecer os quilombos como espaço de resistência é uma forma de reverenciar o legado dos povos africanos que foram trazidos à força para o Brasil.

— O Brasil deve muito à ancestralidade, ao povo preto em tudo aquilo que somos. Então é importante que os quilombos, de uma forma geral, sejam vistos como este lugar de resistência, de reparação, mas acima de tudo, do empoderamento que nós temos através de toda a colaboração que a gente traz, do legado deixado pelos nossos ancestrais, dos povos escravizados — explica.

O livro cita a liderança quilombola conhecida como Vovó Alzira, que fabricava esteiras que os quilombolas usavam para dormir. E lembra o entrave que a comunidade viveu com a criação do lixão de Bongaba, e o trabalho que desenvolvem com a reciclagem.

— O Quilombo de Bongaba foi invadido pelo processo do lixão que aqui tinha. Uma pessoa que está no livro, a Bia Nunes, fez um trabalho árduo em relação a isso criando estratégias para que isso acabasse — conta pai Paulo.

Rodas de capoeira, jongo e aulas de atabaque são tradições do quilombo que são passadas para as crianças no livro. A proposta é poder ensinar também para crianças não quilombolas que há outras formas de brincar além dos celulares, tablets e videogames:

— Além de estimular a leitura, nós não temos aqui o acesso tão fácil à tecnologia, então as nossas crianças não estão tão presas ainda a esses aparelhos eletrônicos. O fato de levarem isso para outras crianças é exatamente para tirá-las desse processo e elas verem que tem outros tipos de brincadeiras que podem fazer — explica o babalorixá.

Magé tem ainda outros dois quilombos certificados pela Fundação Palmares, o Maria Conga, e o Quilombo do Feital.





Fonte: G1