Influenciadores digitais mostram vida nas favelas e conquistam parcerias com marcas

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Rennan Leta, de Mata Machado, mostra a família
Rennan Leta, de Mata Machado, mostra a família

Nem só de maquiagens feitas com produtos importados, mesas decoradas para jantares chiques ou viagens para os quatro cantos do mundo, são feitas as postagens de maior alcance na internet. A “Deise do tombo”, que viralizou há uma semana com seu vídeo caindo dentro da casa de uma vizinha, não deixa mentir: a web é do povo. Nessa democracia virtual, influenciadores digitais de favelas têm aproveitado para mostrar “a cara” de suas comunidades.

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— Sou uma blogueira do subúrbio, do proletariado. Mostro a situação normal, do banho de mangueira, de balde na laje,, que faz a gambiarra pra pegar sol já que não tem piscina em casa. Também falo muito sobre futebol, tenho quadro chamado de “De tricolor para tricolor” — conta a jornalista Claudia Guimarães, que soma mais de 24 mil seguidores no Instagram, onde já pulicou quase 6 mil posts.

O fenômeno dos microinfluenciadores “gente como a gente” não passou despercebido pelo mercado publicitário. Em parceria com a agência Peppery, a Central Única das Favelas (Cufa), por meio da Favela Holding, criou o Digital Favela, plataforma online que conecta moradores engajados nas redes sociais a grandes marcas interessadas em tê-los em campanhas na internet. O projeto já tem mais de mil moradores de favelas do Rio.

— Tenho admiração pelos grandes influenciadores, mas eles não são referências para as comunidades. É incomparável à força de uma mãe de família postando para outras mães dentro da favela. Tem credibilidade — diz Celso Athayde, criador da Cufa e CEO da Favela Holding e do Digital Favela.

CLAUDIA MAGALHÃES

Jornalista, 32 anos, moradora do Complexo do Alemão

Eu costumo brincar que sou a influenciadora do subúrbio, aquela que mostra o banho de mangueira na laje e que gosta de comprar produtos bons e baratos. Então eu passei a trazer essas coisas da região para os seguidores que me pediam informações da comunidade, como dicas acessíveis de lanchonete e de roupas, por exemplo. Quero mostrar que os moradores das favelas não precisam pagar caro para terem qualidade.

O Digital Favela ajudou a conectar os pequenos influenciadores com grandes marcas que queriam falar justamente com esse público das comunidades, mostrando que essas empresas também queriam estar próximas da gente, assim como as marcas locais. Essa iniciativa veio para mostrar toda a potência do subúrbio. Muitas vezes não olham para esses territórios, mas aqui tem muita gente querendo consumir. Quantas vezes assistimos a comerciais com atores famosos que nunca vestiram aquela roupa ou entraram naquele supermercado, por exemplo? Quando unimos marca com representatividade local, o resultado sempre é vantajoso para os dois lados.

LUCAS CARVALHO

Blogueiro, 19 anos, morador do morro Faz Quem Quer

Eu decidi criar um perfil no Instagram há cerca de dois anos e sempre gravei e publiquei momentos do meu dia, cenas da minha rotina. Em pouco tempo, as pessoas começaram a me incentivar e a dizer que eu levava jeito com a câmera, que deveria seguir nas redes. Mas ao mesmo tempo eu precisava trabalhar e, assim, não tinha muito tempo disponível para focar 100% na internet.

Com a pandemia de Covid-19, acabei perdendo o emprego num restaurante aqui de Rocha Miranda, onde moro, que não conseguiu se manter e fechou. Foi quando eu descobri o Digital Favela, de onde recebi sempre muito apoio. Logo de cara, fiz uma parceria bem bacana com uma operadora de telefonia. Hoje, a minha principal fonte de renda vem da publicidade nas redes sociais como influenciador. Já são 18 mil seguidores. Moradores do bairro e de locais vizinhos começaram a buscar meu perfil para outras parcerias. Eu sei falar a língua dessa galera jovem, de forma mais direta. Por isso, eles se identificam comigo. Dou opiniões, interajo e uso o humor para conversar com eles.

Lucas Santos

Fotógrafo e cinegrafista, 24 anos, morador do Complexo da Maré

Influenciar é algo que deve ser usado com muita responsabilidade. Não é só sobre indicar uma linha de xampu, por exemplo, mas também como se comporta nas suas redes sociais. Estamos na web para fazer você refletir sobre assuntos em que você nunca parou para pensar. Essa é a minha arte, o meu propósito.

Hoje eu falo do que eu vivo e instigo as pessoas a refletirem os seus privilégios, sociais, sexuais, raciais e econômicos de uma forma leve no meu quadro #Dexxconxxtruindo (com muitos “x” de uma maneira bem carioca e descontraída).

Já fiz campanhas publicitárias para aplicativo de transporte e para operadora de telefonia. No meu perfil, que soma 48 mil seguidores, você vai encontrar moda, saúde mental, autocuidado, temas LGBTQIA+ e questões raciais. É impossível me limitar a uma coisa só quando sou um garoto negro, bissexual e da favela. Tenho, sim, muito a dizer! O Digital Favela é uma plataforma inovadora que deu oportunidades a um garoto da favela, negro e LGBTQIA+. É uma ponte, uma rede de apoio, uma esperança para quem começa do zero.

Rennan Leta

Poeta e escritor, 25 anos, morador da Mata Machado

Moro na comunidade Mata Machado, no Alto da Boa Vista. Minha história na internet começou em 2015 com a página “Palavras do mundo”, que acabou virando um livro de poemas dois anos depois. Esse início foi uma forma de romper barreira e tornar público o que eu escrevia. Com o passar do tempo, fui ampliando minha atuação na web.

Hoje, tenho mais de 30 mil seguidores nas redes sociais. Eu tinha dificuldades de me ver como um influenciador, mas percebi que a forma como eu me posicionava virava referência. Isso ajudou a quebrar o preconceito de que influenciador é algo fútil. Essa referência pode ser usada para o bem do meu público.

O Digital Favela veio como algo transformador,me dando a oportunidade de trabalhar com grandes marcas. Fiz campanhas de produtos que conversam com meu público. Hoje, recebo por isso e consigo ajudar com conteúdo relevante.

FELIPE FRANÇA

Coordenador de produção, 28 anos, morador do Complexo do Alemão

Sou morador da favela Nova Brasília, no Alemão. Faço parte das ações sociais do projeto Voz das Comunidades, então, eu sempre fui uma muito ativo nas redes sociais, com muitos seguidores.

Neste período difícil da pandemia de Covid-19, eu passei a atuar também na linha de frente do gabinete de crise montado por nós no Alemão, de forma voluntária, para distribuição de cestas básicas. Com isso, o uso de redes sociais cresceu.

A partir do Digital Favela, eu passei a divulgar conteúdos mais relevantes. Falo de tudo um pouco, porque sei que tenho seguidores que curtem esportes, ativismo social, influências e dicas da região.

Hoje, com pouco mais de 2,7 mil seguidores no Instagram, eu já fiz campanhas para um banco e uma operadora de telefonia. Nós, moradores de favela, não sabemos o alcance que temos e a importância da visibilidade da voz que damos a essas pessoas. Muitas pessoas me procuram porque sabem que já somos influências.





Fonte: G1