Impulsionado por financiamento coletivo, escritor cria editora de autores negros durante a pandemia

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Escritor “de fim de semana”, Stefano Volp vivia mesmo era do seu trabalho com marketing até a chegada da pandemia. Mas, como muitos, ele viu os contratos sumirem com a instalação da mais grave crise sanitária já vista no Brasil e no mundo. Volp precisava se reinventar profissionalmente. Depois de uma experiência tímida em 2019 numa plataforma de financiamento coletivo para o lançamento de um livro próprio, ele resolveu apostar novamente na ferramenta. E, assim, não só encontrou um meio de sobrevivência, como virou um escritor de sucesso. Depois de angariar apoio financeiro na plataforma digital Catarse para as crônicas reunidas em “Homens pretos (não) choram”, conseguiu fundar um clube de leitura e até uma editora. Nesse processo, mudou-se de um quarto e sala para um amplo apartamento na Tijuca.

Em 2021, o crowdfunding, também chamado de vaquinha on-line ou financiamento coletivo, sistema de captação de recursos na internet por meio de colaboradores, completa dez anos no Brasil. Em uma década, só a Benfeitoria, uma das pioneiras no segmento, movimentou R$ 140 milhões, sendo 30% do total em campanhas do Rio de Janeiro. Pesquisa feita pela Benfeitoria em parceria com o Catarse mostra que, apenas em 2020, as pouco mais de dez plataformas do tipo em operação no país fizeram girar R$ 258 milhões (sendo R$ 81 millhões só pela Benfeitoria) para todo tipo de projeto, desde culturais até os de distribuição de alimentos.

O Movimento Negro Muro, que vem pintando painéis com personalidades negras, venceu o 1 Prêmio Benfeitoria de Financiamento Coletivo
O Movimento Negro Muro, que vem pintando painéis com personalidades negras, venceu o 1 Prêmio Benfeitoria de Financiamento Coletivo Foto: Marcia Foletto

No mundo digital, felizmente, solidariedade está em alta.

— Em 2019 fiz uma campanha flex do Catarse, modelo em que não importa se você atinge a meta. Foi uma campanha tímida. Em 2020, veio a luz: e se eu tentar de novo? Neste momento, precisamos apoiar os projetos dos nossos amigos, descobrir como as pessoas estão se reinventando e ir junto delas. Foi assim que eu tive a ideia do meu livro “Homens pretos (não) choram” — conta Volp, cujo livro, que conta sete histórias protagonizadas por homens negros, tenta quebrar estereótipos e acabou “surfando” na onda do movimento Black Lives Matter (Vidas negras importam): — De 6 de julho a 10 de agosto (de 2020), 496 pessoas apoiaram o livro. A meta era de R$ 16.200, mas alcancei R$ 26.500. Eu nunca conseguiria levantar isso como autor independente.

Com essa experiência, o escritor despertou para o potencial do financiamento coletivo. E criou o Clube da Caixa Preta, com assinaturas permanentes pela plataforma, que oferece contos de escritores negros. Do clube, veio a editora Escureceu, cujos livros — de autores negros que já caíram em domínio público — são lançados em edições especiais. “Clara dos Anjos”, de Lima Barreto, ganhou versão com capa dura e ilustrações, toda feita por equipe de profissionais negros contratados, numa campanha que arrecadou R$ 57 mil.

Seu nome foi tão longe que Volp foi contratado pela Harper Collins, uma das maiores editoras do mundo, e virou roteirista da Globoplay.

Energia solar se multiplica na favela

A carioca Benfeitoria nasceu da ideia de uma casal de profissionais de comunicação de inovar com uma cultura de consumo mais humana e colaborativa.

— O crowdfunding inverte a lógica de executores de um lado e consumidores do outro. Juntamos pessoas com sonhos comuns para tirar projetos do papel — diz Murilo Farah, fundador da Benfeitoria com a mulher, Tatiana Leite.

A eletricista Natália Noel Nazario faz a manutenção das placas solares instaladas no teto da associação de moradores do Morro Babilônia, no Leme
A eletricista Natália Noel Nazario faz a manutenção das placas solares instaladas no teto da associação de moradores do Morro Babilônia, no Leme Foto: Marcia Foletto

Foi pela Benfeitoria que a Revolusolar, ao fazer cinco anos, criou a primeira cooperativa de energia solar do Rio e em favelas do Brasil. A ONG, que reúne 70 voluntários, mira no desenvolvimento sustentável das comunidades por meio dessa tecnologia. Mas, até 2020, tinha só três instalações no Morro da Babilônia. Após lançar a campanha, foi possível implantar 60 placas na favela, que hoje beneficiam 35 famílias.

— Quando se pensa em energia e favela, vem gato de luz à cabeça. Queremos ressignificar o papel da favela na cidade. Lançamos a campanha em 17 de setembro. Em um mês, quase 650 pessoas contribuíram com o projeto, que arrecadou R$ 90 mil — conta Eduardo Avila, de 25 anos, diretor-executivo da ONG.

Quando as doações são multiplicadas

Uma forma nova de arrecar recursos é o matchfunding, quando uma empresa multiplica cada real doado para projetos selecionados em edital.

Por meio de matchfunding, o movimento Negro Muro reverenciou não dois, meta inicial, mas quatro personalidades negras do Rio. Já podem ser vistos os muros dedicados a Elza Soares, em Água Santa, a Clementina de Jesus, no Engenho Novo, e a João Cândido, o “Almirante Negro”, em São João de Meriti. Até o fim desta semana, fica pronto o do poeta Cruz e Souza, no Encantado. A campanha, da dupla Pedro Rajão, produtor e pesquisador, e Cazé, grafiteiro, acaba de ganhar o 1º Prêmio Benfeitoria de Financiamento Coletivo na categoria Cultura. Ela arrecadou R$ 32 mil.





Fonte: G1