Formado no Bolshoi, bailarino do Complexo do Alemão salta alto e vai para companhia na Dinamarca

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Nem mesmo a violência que cerca a favela da Nova Brasília, no Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio, ou os preconceitos por ser homem impediram Luis Fernando Rego de sonhar alto no balé. O que era apenas uma curiosidade ao levar a irmã mais nova para uma aula no projeto social ViDança, dentro da comunidade, se transformou em uma paixão pela dança, que fez o jovem de 20 anos alçar voos altos em pouco tempo. Nos primeiros pilés e frappés, aos 14 anos, o carioca demonstrou que tinha graciosidade e talento para se tornar um grande bailarino. Vestir um collant apertado e sapatilhas o fez perder amigos e, até mesmo, de se aceitar como homem no balé. Filho do meio de oito irmãos, criado por uma doméstica e um manobrista batalhadores, Luis Fernando conquistou os professores do Bolshoi Brasil, uma das maiores companhias de dança do mundo, em 2016. Se formou na escola de Joinville (SC), foi escolhido para fazer parte da Companhia Jovem e, hoje, está na Dinamarca, após ser contratado como integrante do Tivoli Ballet Skole.

Luis Fernando Rego foi selecionado para o Bolshoi Brasil em 2016. Lá permaneceu quase cinco anos, entre a escola e a cia jovem de dança
Luis Fernando Rego foi selecionado para o Bolshoi Brasil em 2016. Lá permaneceu quase cinco anos, entre a escola e a cia jovem de dança Foto: Divulgação Bolshoi

A viagem aconteceu na semana passada, dia 21. Nem nos seus maiores sonhos, o bailarino imaginava chegar tão rápido ao topo, em menos de cinco anos, desde que estudou no Bolshoi e virou um dos integrantes do corpo de dança. Durante a pandemia, em 2020, um dos seus vídeos conquistou um dos técnicos da companhia dinamarquesa, que veio ao Brasil e fez um teste com o jovem. Selecionado e sem medo de ir para outro país, mais distante ainda da família e da comunidade onde tudo começou, o carioca aceitou a proposta de um contrato de um ano, mas que já deve ser ampliado para dois. Ele espera apenas a permissão definitiva de trabalho e o visto de permanência na Dinamarca.

— A oportunidade veio através de todo o trabalho e do suor. Achei que demoraria mais, mas veio rápido. A princípio, vou ficar durante um ano com a recontratação do ano que vem, que está encaminhada. Vou trabalhar muito, porque não acaba aqui. Só saí do Brasil, porém, os sonhos, as metas e a determinação continuam — afirma.

Luis Fernando Rego, de 20 anos, é cria do Complexo do Alemão, foi formado pelo Bolshoi Brasil e viajou para Dinamarca
Luis Fernando Rego, de 20 anos, é cria do Complexo do Alemão, foi formado pelo Bolshoi Brasil e viajou para Dinamarca Foto: Alinne Volpato / Divulgação Bolshoi

Preconceito

O início não foi fácil. Além das dificuldades financeiras, já que o dinheiro que entrava em casa era para alimentar dez pessoas, em uma casa humilde, dentro de uma dura realidade de pobreza, Luis precisou lidar com o machismo. Os amigos se afastaram e o excluíram assim que ele começou a dançar. “Balé é coisa de menina”, era a frase que o carioca mais ouviu das pessoas que ele mais queria ter ao seu lado. Ser ignorado e perder o seu grupo mexeu com o psicológico do então adolescente, que até se questionou por estar no balé.

Hoje em dia, isso ficou no passado, e os amigos, agora, se orgulham das conquistas do bailarino e acompanham suas apresentações pelas redes sociais. Mas a força e o respeito sempre vieram da família. Os pais, Tânia Cristina e Renato Rego, e os irmãos — cinco meninas e dois meninos — o apoiaram desde o primeiro dia como bailarino. O orgulho de vê-lo sair da favela, de perto das tentações da criminalidade, e a conquista de um emprego como bailarino na Dinamarca encheram a família de felicidade.

— A minha mãe ficou super empolgada, minhas irmãs choraram. Eles sempre sonharam com isso e sabiam que esse era o meu grande sonho. É mais um passo. Espero poder um dia ajudá-los, mudar essa perspectiva da família e desse padrão que a pobreza acaba implementando na gente — diz o jovem, antes de exaltar os pais:

— Eles são bem humildes. A minha mãe sempre foi à luta e trabalhou para que nunca nos faltasse o pão de cada dia. Ela sempre tentou nos educar da forma mais honesta possível. Acho que conseguiu e sou muito grato. Hoje olho para trás e reconheço todo o esforço que eles fizeram.

Luis Fernando Rego em uma das apresentações pelo Bolshoi Brasil, em Joinville (SC)
Luis Fernando Rego em uma das apresentações pelo Bolshoi Brasil, em Joinville (SC) Foto: Cleber Gomes / Divulgação Bolshoi

Talento conquista o Bolshoi

Em 2016, incentivado por uma amiga, Luis Fernando fez um teste para entrar no Bolshoi Brasil, a famosa escola russa e uma das mais renomadas do mundo. Depois de ser aprovado, ele precisou de coragem e ousadia para sair da favela e morar sozinho em outro estado, com outra cultura. Ainda no período de adaptação, que não foi fácil, o carioca sentiu vontade de desistir de tudo.

“Muita coisa te puxa para o caminho errado e você fica à mercê”, diz. No entanto, como o foco era dançar e mostrar a sua arte, ele criou forças e continuou. A determinação trouxe resultados e elogios do corpo técnico do Bolshoi, que viu no menino do Rio um futuro brilhante nos palcos.

— O Luis chamou a atenção desde o processo seletivo. Ele cativou pelas aptidões físicas, ele tem um porte interessante para dança, tem força e explosão muscular, que são preciosos para os homens. Além disso, ele tem carisma, algo que os bailarinos precisam para cativar o público. Ele mostrou que tinha potencial — diz Maikon Bollini, assessor e diretor artístico do Bolshoi e que foi professor de Luis Fernando nos últimos dois anos da formação.

Luis Fernando Rego, de 20 anos, é cria do Complexo do Alemão, foi formado pelo Bolshoi Brasil e viajou para Dinamarca
Luis Fernando Rego, de 20 anos, é cria do Complexo do Alemão, foi formado pelo Bolshoi Brasil e viajou para Dinamarca Foto: Alinne Volpato / Divulgação Bolshoi

O jovem diz que sempre percebe um olhar diferente e o espanto quando conta que saiu do Complexo do Alemão. Através da sua dedicação e do seu trabalho incansável, o bailarino mostra qualquer morador de favela pode, sim, ser capaz de fazer tudo que quiser.

— Olhar para trás, que eu vim do Complexo do Alemão, só me dá mais vontade de lutar para que todas as pessoas tenham as mesmas oportunidades que eu tive. Se hoje estou aqui, é porque passei muitas dificuldades lá. Trabalhei e insisti. Mesmo diante de incansáveis tiroteios, nunca deixei de me entregar à minha profissão e à área onde eu morava, independente do preconceito que enfrentei durante a minha vida — fala.

O bailarino que já pensou em ser astronauta, estudar biologia e apresentar um programa de TV, agora almeja sonhos altos. Além de comprar um apartamento com o seu trabalho, quer ajudar os mais a mudarem de vida, dar um local fixo para o projeto social onde começou e, mais do que tudo, ser exemplo e inspiração para meninos e meninas criados nas favelas.

— Na favela, a criminalidade cresce, assim como as oportunidades ruins. Sonho dar continuidade ao projeto Vidançar. O projeto vive com dificuldades. Quando perde patrocínio, fica sem lugar fixo. Meu sonho é que eles tenham uma sede fixa, que seja bem estruturada, com uniformes e uma sala de qualidade para as crianças. Que vá além disso, que tenha aula de inglês, tenha reforço escolar. Tudo isso é essencial para o crescimento de um ser humano. Quero ser uma referência para aqueles jovens que estão lá, sem perspectiva.

Foto: Alinne Volpato / Divulgação Bolshoi





Fonte: G1