Eduardo Paes não cogita aceitar indicações políticas para postos-chave

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A escolha dos primeiros nomes do alto escalão do próximo governo municipal segue a lógica que o prefeito eleito Eduardo Paes pretende adotar a partir de janeiro. Todos os indicados para cargos considerados estratégicos serão da cota do próprio Paes ou de seu fiel escudeiro, o deputado federal Pedro Paulo Carvalho Teixeira, que ocupará a Secretaria de Fazenda, Planejamento e Controladoria. O recado passado com essa decisão é que os postos-chave não vão ficar nas mãos dos aliados políticos.

Além de Pedro Paulo, Paes escolheu no dia seguinte ao segundo turno Daniel Soranz para voltar à Secretaria de Saúde e Marcelo Calero para a pasta de Governo e Integridade Pública. Ontem, saíram os nomes das duas primeiras mulheres da equipe. Anna Laura Valente Secco, que vai cuidar da cidade na Secretaria de Conservação, e Ana Ribeiro, que será a subprefeita da Zona Sul. O outro nome divulgado foi o do jovem Salvino Oliveira Barbosa, de 22 anos, líder comunitário da Cidade de Deus, escolhido para a Secretaria da Juventude, que ainda será criada.

À esquerda Salvino Oliveira (alto) e Marcelo Calero; no centro Anna Laura Secco (alto) e Ana Ribeiro; à direita Daniel Soranz (alto) e Pedro Paulo
À esquerda Salvino Oliveira (alto) e Marcelo Calero; no centro Anna Laura Secco (alto) e Ana Ribeiro; à direita Daniel Soranz (alto) e Pedro Paulo

Nessa cota de Paes e Pedro Paulo, devem entrar ainda os titulares do Transporte, da Educação e de Obras, além da Comlurb, da RioLuz e da CET-Rio. Pessoas ligadas a Paes dizem que os aliados políticos também não devem fazer indicações para cargos mais técnicos no segundo escalão, que vão precisar pessoas de extrema confiança.

Outra medida anunciada ontem confirma essa tendência de reduzir a influência de aliados políticos. Paes pretende enxugar de 17 para, no máximo, cinco ou seis o número de superintendências — que voltam a ser chamadas de subprefeituras. A ideia é que esses órgãos recuperem o papel de destaque na ligação do poder central com a população. O próprio Paes iniciou na vida pública assim, como subprefeito da Barra, na gestão de Cesar Maia. A assistente social Ana Ribeiro foi sua primeira escolha.

Essa estratégia na montagem da equipe é para evitar o que aconteceu na atual gestão. As indicações políticas fizeram, por exemplo, com que a Secretaria de Envelhecimento Saudável cuidasse de eventos e da Fundação Parques e Jardins num arranjo para acomodar os indicados por seis vereadores. Em meio a problemas de mobilidade que só se agravaram, como o BRT que fechou estações e reduziu drasticamente sua frota, a Secretaria de Transportes teve seis titulares em quatro anos.

Mas a decisão de escolher quadros de confiança para cargos estratégicos nem sempre foi bem-sucedida nos dois primeiros governos de Paes (2009-2016). No Transporte, Alexandre Sansão acabou sendo substituído pelo deputado estadual Rafael Picciani (filho do então todo-poderoso presidente da Assembleia Legislativa do Rio, Jorge Picciani, que acabou preso). Servidor de carreira, Alexandre Pinto, nomeado secretário de Obras, foi condenado na Operação Lava-Jato a 73 anos de prisão, sob a acusação de ter cobrado propina de empreiteiros que fizeram as obras olímpicas. E Carlos Roberto Osório, que ficou na Conservação, acabou saindo do governo e, em 2016, disputou a prefeitura contra Pedro Paulo, na eleição em que Marcelo Crivella saiu vencedor.

— Talvez eu tenha sido a pessoa que nos últimos anos mais respondeu por pecados alheios. Infelizmente, tivemos um caso muito conhecido na prefeitura. Eu nunca desconfiei, foi uma falha minha. Então, não dá para contar só com a sensibilidade do prefeito. Por isso, o Calero vai acumular a pasta da Integridade Pública, com a de Governo — afirmou Paes.

Partidos que apoiaram Paes nesta eleição (PSDB, PL, Avante, PV, DC, Cidadania e PSD) deverão ficar com outras pastas. Entre os cotados para a Secretaria de Ordem Pública (Seop), por exemplo, está o delegado Fernando Velloso que foi vice pelo PSD na chapa do deputado Luiz Lima (PSL).

Mas, desta vez, Paes — que ontem almoçou com o governador em exercício Cláudio Castro (PSC) — não contará com o PT, que o apoiou no segundo turno. Na primeira passagem de Paes pela prefeitura, o PT teve o vice (Adilson Pires) e a secretaria de Habitação (Jorge Bittar). O prefeito eleito ligou anteontem para o presidente regional do partido, Washinton Quaquá, propondo um “diálogo institucional’’.

— O PT não fará parte do governo. Não devemos ter postura hostil, há uma esperança de que o Rio se recupere da tragédia do Crivella. Minha opinião é que devemos manter um diálogo no campo democrático, civilizatório — disse o líder petista.

Corrupção igual a água

Paes e Callero detalharam ontem como será a rotina da Secretaria de Integridade. O titular da nova pasta, que já havia sido secretário de Cultura na gestão anterior de Paes, explicou que integrantes da administração vão responder a questionários sobre conflitos de interesse e que o banco de dados dos servidores da prefeitura será atualizado. A secretaria trabalhará de forma integrada com os órgãos de fiscalização, como a Controladoria-Geral do Município e o Tribunal de Contas .

— Não temos pretensão de falar que não haverá mais corrupção. Pilantragem é igual a água, que tenta superar obstáculos no caminho para seguir seu curso. Mas nós queremos criar um ambiente desfavorável para a corrupção e o máximo de obstáculos possíveis — afirmou Calero.

Já a preocupação da economista Anna Laura Secco vem do céu. Ela diz que, como vai assumir a Conservação em pleno verão, precisará correr contra o tempo para limpar bueiros e desobstruir a rede de drenagem, a fim de reduzir transtornos provocados pelas fortes chuvas da estação.

— Minha meta é conseguir evoluir de uma nota zero hoje na conservação da cidade para uma nota sete nos cem primeiros dias de governo. Não estaremos perto do dez, mas pelo olhar feminino já dará para, ao menos, passar de ano — brincou Anna.

Postos com ‘dono’

Subprefeitura da Zona Sul: Na reestruturação dos órgãos, Ana Ribeiro vai comandar a Subprefeitura da Zona Sul. Nos últimos anos, coordenou na regiãom as diversas campanhas de que Pedro Paulo e Eduardo Paes participaram. Assitente social, nasceu no Morro dos Cabritos (Copacabana). Assim como a mãe, foi líder comunitária. Ana ocupou cargos de confiança nos governos Paes e Cesar Maia.

Secretaria de Conservação: A economista Anna Laura Valente Secco vai comandar a pasta, que será recriada. Já presidiu a Fundação Rio Zoo e foi assessora política de Eduardo Paes e Pedro Paulo, que conhece desde 1996. Diz que a prioridade, quando assumir, será preparar a drenagem urbana para as chuvas de verão. Promete, que, apesar dos recursos limitados no inícío do governo, melhorar o padrão de conservação do Rio.

Secretaria de Fazenda, Planejamento e Controle: Deutado federal (DEM-RJ), Pedro Paulo Carvalho Teixeira assumirá uma nova secretaria, que ficará encarregada das finanças e planejamento da prefeitura. É uma das pessoas mais próximas a Eduardo Paes. Entre 2009 e 2016, foi secretário da Casa Civil de Paes, sendo responsável pelo desenvolvimento de projetos estratégicos. Em 2016, disputou a prefeitura, mas não se elegeu.

Secretaria Saúde: Sanitarista da Fiocruz, Daniel Soranz voltará a ocupar a pasta que comandou em 2013 e 2016. Na segunda-feira, anunciou um plano para enfrentar a Covid -19 e preparar a rede pública para a vacinação em massa. Entre as ideias, estão reativar equipes da Saúde da Família, reformara salas de vacinação e reabrir parte de 1,5 mil leitos inativos para atender vítimas da pandemia.

Secretaria de Governo e Integridade: Deputado federal, (Cidadania), o advogado e diplomata Marcelo Calero foi ministro da Cultura no governo Michel Temer. Deixou o cargo depois de denunciar pressão do então secretário de Governo, Geddel Vieira Lina, para liberar uma obra irregular numa área protegida pelo Iphan , em Salvador. Vai atuar em uma pasta que se propõe a prevenir atos de desvio e corrupção no governo.





Fonte: G1