Casas de festa vão à falência no Rio e são alvo de mais de 240 processos movidos por clientes

O próximo sábado deveria ter o doce sabor de um sonho realizado para Thayana Mac Dowell e Bernardo Passos. É o dia que os dois escolheram para celebrar o casamento, após oito anos de namoro. Mas, por mais que estejam felizes, um gosto amargo marca a data. Advogados, os noivos contrataram, em 2021, um pacote especial para casais ocupados. Desembolsaram R$ 70 mil para reunir amigos e parentes num dos salões mais caros da cidade, com bufê e decoração de primeira. A saída prática virou pesadelo: a empresa organizadora do evento fechou as portas. Sem desistir, eles pegaram um empréstimo de R$ 85 mil e pagaram, um a um, a todos os fornecedores para realizar a festa planejada.

Dívida. Julianne Zaconato e Leonardo Campos à espera do ressarcimento de R$ 57 mil: saída foi reduzir lista de convidados
Dívida. Julianne Zaconato e Leonardo Campos à espera do ressarcimento de R$ 57 mil: saída foi reduzir lista de convidados Foto: Guito Moreto / Agência O Globo

A história dos advogados não é caso isolado: nos últimos cinco anos, pelo menos cinco empresas de eventos deixaram de prestar o devido serviço aos clientes no município. O EXTRA localizou no Tribunal de Justiça do Rio 242 processos, alguns com dezenas de vítimas. No caso da Bluemoon Entretenimentos, contratada por Thayana e Bernardo, há 121 ações judiciais. Em apenas dez delas, o valor total dos pedidos de devolução chega a R$ 767.789. O casal Julianne Zaconato e Leonardo Campos conseguiu receber parte do valor com a rescisão do contrato em setembro de 2021, mas a empresa parou de pagar em junho deste ano. Eles ainda esperam o recebimento de R$ 57 mil.

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‘Contrato ruim’

O casal aguardava uma melhora no cenário da pandemia para festejar a união com os amigos e parentes na Villa Riso, uma das casas de eventos mais cobiçadas do Rio, espaço que estava sob gestão da Bluemoon até julho deste ano. Com o contrato desfeito, a celebração, que seria para 250 convidados, precisou ser reduzida para 160.

— Em outubro de 2019, nós fechamos um contrato de R$ 104 mil. O meu casamento seria o primeiro deles na Villa Riso, em maio de 2020. Por causa da pandemia, adiei duas vezes até fevereiro de 2022. O contato com a empresa já estava ruim e muitas coisas eu pagava por fora. Em setembro de 2021, decidimos rescindir de vez. Eles pagaram uma parte, mas sempre atrasado. Em junho, pararam de pagar e estourou a notícia de que tinham quebrado — conta Julianne, que gastou mais R$ 100 mil para fazer um casamento do zero, no Solar Santa Teresa.

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Um inquérito civil foi instaurado no Ministério Público do Rio (MPRJ) no início de julho para investigar as reclamações de mais de 300 consumidores contra a Bluemoon. De acordo com o procurador Rodrigo Terra, o inquérito está em fase final.

— Fizemos audiência administrativa em setembro com os sócios da empresa e remetemos a eles uma proposta de Termo de Ajustamento de Conduta (TAC). Nesse documento, está previsto o escalonamento do pagamento e a devolução do que cada um pagou sem receber o serviço. Resta a assinatura deles — explica Terra.

A defesa da empresa informou que não há previsão de ressarcimento neste momento porque todos os recursos da Bluemoon foram bloqueados pela Justiça e que esse “cenário impossibilita” a assinatura do TAC. Localizado pelo GLOBO, um dos sócios da Bluemoon, Jair da Silva Neto, mais conhecido como Jota, atribuiu o problema a uma crise de credibilidade:

— Nós estávamos tendo muitos problemas sim, mas nunca deixamos de entregar nenhum casamento até o último fim de semana de junho. O caos começou quando uma fornecedora anunciou que não trabalharia mais com a gente, e isso foi massivamente divulgado. A gente vende futuro, credibilidade. Depois disso, vivenciamos uma espécie de cancelamento que tornou inviável nosso trabalho.

A quebra de compromissos não tem endereço certo. A casa de eventos infantis Abracadabra, em Campo Grande, na Zona Oeste, deixou, na última semana, dezenas de famílias sem resposta quando fechou as portas e abandonou o local. Uma das vítimas é Manoela Gonçalves, que teve um prejuízo de R$ 5,6 mil. Ela pagou o valor em maio para fazer a festa de 1 ano do filho Gael, para 150 convidados, em 31 de janeiro de 2023.

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— Eu recebi a notícia de que eles estavam abrindo falência e que era para ir presencialmente à sede. Fomos no desespero, não é um valor que eu consigo de uma hora para outra, né? E tinha um caminhão levando todos os móveis lá de dentro. Não deram satisfação a ninguém. Ainda não tenho alternativa para a festinha do meu filho — conta a agente de saúde, que participa de um grupo de WhatsApp com outras 49 vítimas da empresa, que também deixou funcionários sem pagamento.

Contra a Abracadabra, há 12 processos em andamento no Tribunal de Justiça do Rio. O caso é investigado pela 35ª DP (Campo Grande). Em nota, a defesa informou que “houve um acúmulo de dívidas após a pandemia somado a problemas de saúde da proprietária Flávia Ferreira” e que os donos da empresa “estão levantando ativos para devolução dos valores”.

Um caso similar aconteceu em outra casa também na Zona Oeste. A primeira celebração de aniversário de Helena Couto, hoje com 3 anos, precisou ser adiada duas vezes, por conta da pandemia. Em fevereiro de 2022, quando os pais, Rafael Couto e Karina Silva, finalmente conseguiram agendar uma festa na Paixão Kids, em Campo Grande, foram surpreendidos com a notícia de que a proprietária havia abandonado a empresa.

— Quando eu fui lá, uma das funcionárias informou que a dona tinha ido para Portugal e que não pagou aos funcionários. Era um sonho nosso fazer isso pela nossa filha, o primeiro aninho dela. Esse valor pode ser pouco para muita gente, mas eu moro de aluguel, estava pagando um monte de coisas, minha esposa não estava trabalhando. Trabalhei suado, juntei de pouquinho em pouquinho. Acabamos dando um jeito e fizemos uma festa menor para não passar em branco — relata Rafael.

A pandemia e dificuldades de gestão são fatores que impactaram empresas de eventos, segundo a cerimonialista Alzira Andrade.

— O mercado de festa no Brasil é altamente qualificado e responsável. Somos referência para outros países em organização de eventos. A pandemia foi um impacto para todos. Quem não tinha um fluxo de caixa organizado sofreu bastante. Este ano está sendo muito atípico, todo mundo trabalhando mil horas por dia para entregar o que ficou acumulado — comenta a cerimonialista, que atua há 12 anos no mercado de casamentos.

450 lesados

Mas nem sempre o final era feliz antes da pandemia. Em outubro de 2019, clientes do salão de festas infantil Espaço da Hora fizeram um protesto em frente ao local, em Campo Grande. Com contratos em mãos, acusaram a proprietária da empresa de estelionato. Segundo os manifestantes, a mulher desapareceu, com vários eventos marcados, sem devolver o que havia sido pago.

As campeãs nesse triste quesito são a Enlace e a Enlace Kids. Em 2017, cerca de 450 registros de ocorrência foram feitos em apenas dois dias contra as empresas, que também são alvos de pelo menos cem processos. Os donos ficaram foragidos da Justiça, foram presos e hoje estão soltos, depois de conseguirem um habeas corpus. Um deles tinha duas passagens por estelionato.

O advogado Romario Bezerra conta que sua cliente contratou a empresa para o aniversário de 1 ano do filho — ela gastou R$ 2.184.

— Na ação, conseguimos que o juiz condenasse a empresa a devolver os valores pagos, mais uma indenização de R$ 5 mil para a mãe e R$ 5 mil para o pai. O valor atualizado hoje passa da casa dos R$ 20 mil. A empresa nada pagou até o presente momento — afirma o advogado.

O casal aguardava uma melhora no cenário da pandemia para festejar a união com os amigos e parentes na Villa Riso, uma das casas de eventos mais cobiçadas do Rio, espaço que estava sob gestão da Bluemoon até julho deste ano. Com o contrato desfeito, a celebração, que seria para 250 convidados, precisou ser reduzida para 160.

— Em outubro de 2019, nós fechamos um contrato de R$ 104 mil. O meu casamento seria o primeiro deles na Villa Riso, em maio de 2020. Por causa da pandemia, adiei duas vezes até fevereiro de 2022. O contato com a empresa já estava ruim e muitas coisas eu pagava por fora. Em setembro de 2021, decidimos rescindir de vez. Eles pagaram uma parte, mas sempre atrasado. Em junho, pararam de pagar e estourou a notícia de que tinham quebrado — conta Julianne, que gastou mais R$ 100 mil para fazer um casamento do zero, no Solar Santa Teresa.

Um inquérito civil foi instaurado no Ministério Público do Rio (MPRJ) no início de julho para investigar as reclamações de mais de 300 consumidores contra a Bluemoon. De acordo com o procurador Rodrigo Terra, o inquérito está em fase final.

— Fizemos audiência administrativa em setembro com os sócios da empresa e remetemos a eles uma proposta de Termo de Ajustamento de Conduta (TAC). Nesse documento, está previsto o escalonamento do pagamento e a devolução do que cada um pagou sem receber o serviço. Resta a assinatura deles — explica Terra.

A defesa da empresa informou que não há previsão de ressarcimento neste momento porque todos os recursos da Bluemoon foram bloqueados pela Justiça e que esse “cenário impossibilita” a assinatura do TAC. Localizado pelo GLOBO, um dos sócios da Bluemoon, Jair da Silva Neto, mais conhecido como Jota, atribuiu o problema a uma crise de credibilidade:

— Nós estávamos tendo muitos problemas sim, mas nunca deixamos de entregar nenhum casamento até o último fim de semana de junho. O caos começou quando uma fornecedora anunciou que não trabalharia mais com a gente, e isso foi massivamente divulgado. A gente vende futuro, credibilidade. Depois disso, vivenciamos uma espécie de cancelamento que tornou inviável nosso trabalho.

A quebra de compromissos não tem endereço certo. A casa de eventos infantis Abracadabra, em Campo Grande, na Zona Oeste, deixou, na última semana, dezenas de famílias sem resposta quando fechou as portas e abandonou o local. Uma das vítimas é Manoela Gonçalves, que teve um prejuízo de R$ 5,6 mil. Ela pagou o valor em maio para fazer a festa de 1 ano do filho Gael, para 150 convidados, em 31 de janeiro de 2023.

— Eu recebi a notícia de que eles estavam abrindo falência e que era para ir presencialmente à sede. Fomos no desespero, não é um valor que eu consigo de uma hora para outra, né? E tinha um caminhão levando todos os móveis lá de dentro. Não deram satisfação a ninguém. Ainda não tenho alternativa para a festinha do meu filho — conta a agente de saúde, que participa de um grupo de WhatsApp com outras 49 vítimas da empresa, que também deixou funcionários sem pagamento.

Contra a Abracadabra, há 12 processos em andamento no Tribunal de Justiça do Rio. O caso é investigado pela 35ª DP (Campo Grande). Em nota, a defesa informou que “houve um acúmulo de dívidas após a pandemia somado a problemas de saúde da proprietária Flávia Ferreira” e que os donos da empresa “estão levantando ativos para devolução dos valores”.

Um caso similar aconteceu em outra casa também na Zona Oeste. A primeira celebração de aniversário de Helena Couto, hoje com 3 anos, precisou ser adiada duas vezes, por conta da pandemia. Em fevereiro de 2022, quando os pais, Rafael Couto e Karina Silva, finalmente conseguiram agendar uma festa na Paixão Kids, em Campo Grande, foram surpreendidos com a notícia de que a proprietária havia abandonado a empresa.

— Quando eu fui lá, uma das funcionárias informou que a dona tinha ido para Portugal e que não pagou aos funcionários. Era um sonho nosso fazer isso pela nossa filha, o primeiro aninho dela. Esse valor pode ser pouco para muita gente, mas eu moro de aluguel, estava pagando um monte de coisas, minha esposa não estava trabalhando. Trabalhei suado, juntei de pouquinho em pouquinho. Acabamos dando um jeito e fizemos uma festa menor para não passar em branco — relata Rafael.

A pandemia e dificuldades de gestão são fatores que impactaram empresas de eventos, segundo a cerimonialista Alzira Andrade.

— O mercado de festa no Brasil é altamente qualificado e responsável. Somos referência para outros países em organização de eventos. A pandemia foi um impacto para todos. Quem não tinha um fluxo de caixa organizado sofreu bastante. Este ano está sendo muito atípico, todo mundo trabalhando mil horas por dia para entregar o que ficou acumulado — comenta a cerimonialista, que atua há 12 anos no mercado de casamentos.

450 lesados

Mas nem sempre o final era feliz antes da pandemia. Em outubro de 2019, clientes do salão de festas infantil Espaço da Hora fizeram um protesto em frente ao local, em Campo Grande. Com contratos em mãos, acusaram a proprietária da empresa de estelionato. Segundo os manifestantes, a mulher desapareceu, com vários eventos marcados, sem devolver o que havia sido pago.

As campeãs nesse triste quesito são a Enlace e a Enlace Kids. Em 2017, cerca de 450 registros de ocorrência foram feitos em apenas dois dias contra as empresas, que também são alvos de pelo menos cem processos. Os donos ficaram foragidos da Justiça, foram presos e hoje estão soltos, depois de conseguirem um habeas corpus. Um deles tinha duas passagens por estelionato.

O advogado Romario Bezerra conta que sua cliente contratou a empresa para o aniversário de 1 ano do filho — ela gastou R$ 2.184.

— Na ação, conseguimos que o juiz condenasse a empresa a devolver os valores pagos, mais uma indenização de R$ 5 mil para a mãe e R$ 5 mil para o pai. O valor atualizado hoje passa da casa dos R$ 20 mil. A empresa nada pagou até o presente momento — afirma o advogado.



Fonte: Portal G1